O "maxxing" é uma tendência que está a ganhar adeptos nas redes sociais, nomeadamente entre quem segue influenciadores. O problema é que alguns destes conselhos podem ser inúteis ou até prejudiciais
Beba sumo de cereja ácida para otimizar o sono! Adicione proteína em tudo para otimizar a produção de proteína! Coma alho cru para otimizar a produção de esperma! Os influenciadores online estão a dizer-lhe para levar a sua saúde ao máximo com mudanças altamente específicas - e, por vezes, bastante incomuns.
“Maxxing” é uma tendência online aplicada a conselhos sobre diversos aspetos da saúde, incluindo o sono, a dieta e a fertilidade. Mas muitos destes conselhos de “maxxing” podem ser inúteis, prejudiciais para a saúde ou ir contra as mudanças constantes e personalizadas que muitos especialistas recomendam.
As raízes do termo remontam ao conceito de “min-maxing” em Dungeons & Dragons e outros jogos de RPG. Os jogadores maximizam ou minimizam diferentes caraterísticas das suas personagens, explica Adam Aleksic, autor de “Algospeak: How Social Media Is Transforming the Future of Language”.
Os incels, grupos de homens que se descrevem como celibatários involuntários, adotaram a terminologia “maxxing” online, focando-se no “looksmaxxing” (otimização da aparência).
A sua busca implacável pela perfeição física a qualquer custo acabou por se tornar popular. Os utilizadores das redes sociais troçaram da intenção original, aplicando a terminologia "maxxing" a todo o tipo de coisas.
"Se quiser comer mais burritos, posso 'burritomaxxing'", exemplifica Aleksic. "Era engraçado porque estavas a referir-te aos incels. Mas agora, quando as pessoas falam em 'fibramaxxing', acho que a etimologia se perdeu completamente."
Quando as pessoas utilizam as tendências de "maxxing" nos media convencionais, geralmente não estão cientes - ou a tentar defender - a ideologia incel. Mas a otimização excessiva e implacável em detrimento de outras áreas da vida persiste nos espaços de saúde e bem-estar online e no mundo real. É por isso que os especialistas alertam que a intensidade nem sempre é a abordagem ideal para o aperfeiçoamento pessoal.
A dieta exige equilíbrio
Quando se trata de nutrição, o objetivo deve ser o equilíbrio - e não "maxxing" de nada, avisa Natalie Mokari, nutricionista em Charlotte, Carolina do Norte.
Muitos influenciadores digitais focam-se na maximização do consumo de proteínas e fibras, e esta intenção não é necessariamente errada. Grande parte das recomendações de Mokari aos seus clientes gira em torno destes dois grupos alimentares - bem como dos hidratos de carbono e das gorduras como nutrientes fundamentais, explica.
As Diretrizes Alimentares para Americanos recomendam que os adultos consumam 22 a 34 gramas de fibra por dia, dependendo geralmente da idade e do sexo. No entanto, mais de 90% das mulheres e 97% dos homens nos Estados Unidos não atingem estas recomendações, de acordo com as guidelines.
Mas Mokari afirma que os aumentos drásticos em qualquer coisa não são os mais eficazes - especialmente passar de 10 a 15 gramas de fibra por dia para 30 gramas. Isto pode causar desconforto e problemas gastrointestinais.
As mudanças alimentares que resistem ao teste do tempo são mais graduais e adaptadas às suas necessidades e preferências individuais, e não uma mudança radical, ressalva.
Em vez de adicionar proteína e fibra a tudo o que come, Mokari recomenda incluir uma fonte de fibra e proteína nas suas refeições e snacks. Sempre que possível, dê prioridade às fontes que provêm diretamente dos próprios alimentos, em vez dos aditivos.
Para obter mais fibra, pode comer torradas integrais em vez de pão branco? Pode comer manteiga de amendoim com banana para obter proteína e fibra? Adicionar feijões, leguminosas, nozes, sementes, frutas, legumes e cereais integrais são ótimas formas de obter fibra a partir de alimentos integrais, diz Mokari.
Durma mais aos poucos
Da mesma forma, é ótimo que as pessoas queiram otimizar o sono, refere Rafael Pelayo, professor clínico da divisão de medicina do sono da Universidade de Stanford. Durante muito tempo, as pessoas que precisavam de dormir pouco eram vistas como duras ou resistentes.
Mas, geralmente, a ideia de otimizar o sono não se trata de pessoas com insónias a utilizarem técnicas científicas para melhorar a qualidade do sono - trata-se de uma otimização excessiva e desnecessária, diz.
Nem todas as informações disseminadas através das tendências online são diretamente prejudiciais, mas é importante considerar a fonte e se todas as informações são realmente úteis, acrescenta Pelayo.
As pessoas pagam quantias exorbitantes por colchões publicitados como a cura para o mau sono ou investem em mantimentos e ingredientes para um cocktail sem álcool ou suplemento para dormir, na tentativa de resolver um problema que podem ou não ter.
Como o sono é altamente suscetível ao efeito placebo, estas alterações podem parecer funcionar durante algum tempo, mas perdem a eficácia rapidamente, alerta o especialista.
Pelayo está preocupado com a divulgação de informação sobre o uso de fita adesiva na boca, que pode agravar os problemas das pessoas com apneia obstrutiva do sono.
A obsessão por monitorizar a qualidade do sono causa muitas vezes stress excessivo, reitera. A maioria das pessoas só precisa de priorizar uma rotina de sono regular e um ambiente fresco, escuro e silencioso.
As pessoas que acordam sem se sentirem revigoradas - após a sonolência inicial - e percebem que precisam de dormir cada vez mais, ou que são diagnosticadas com ressonar, devem consultar um médico especialista do sono para garantir que não há nenhum problema que precise de ser tratado, indica Pelayo.
Problemas de fertilidade atraem o charlatanismo
Muitas pessoas preocupam-se com a sua fertilidade - seja com a saúde do esperma ou com a ovulação - mesmo que não haja evidências de um problema.
Os influenciadores online vendem suplementos, recomendam alho cru, sugerem banhos de gelo nos testículos ou promovem mudanças drásticas no estilo de vida. No consultório, os especialistas em fertilidade ajudam frequentemente os seus pacientes a equilibrar as intervenções médicas e de estilo de vida, diz Jennifer Kawwass, professora, diretora de divisão e diretora médica do Emory Reproductive Center, em Atlanta.
A fertilidade é um aspeto particularmente vulnerável da saúde, e as pessoas estão frequentemente ansiosas por experimentar qualquer coisa que ofereça uma maior probabilidade de conceção e uma gravidez saudável, acrescenta Kawwass. Parte do seu trabalho é apoiar os seus doentes a descobrir quais as recomendações online que têm boas evidências e devem ser implementadas, quais não são prejudiciais se quiserem experimentá-las e quais devem ser evitadas.
Por isso, é crucial que as pessoas sejam abertas e honestas com os seus médicos sobre o que veem online, sublinha Kawwass.
A moderação é um bom princípio orientador na saúde reprodutiva, afirma. Fazer mudanças sustentáveis no sentido de uma dieta e exercício mais saudáveis, adicionar ácido fólico à dieta e deixar de fumar é benéfico para a maioria das pessoas.
"Muitas coisas em extremos provavelmente não são saudáveis", avisa. "De um modo geral, os seres humanos foram feitos para se reproduzir em momentos de saúde e bem-estar, e não sob stress físico ou nutricional extremo."
As pessoas que estão a tentar engravidar há um ano sem sucesso devem consultar um especialista em fertilidade, aconselha Kawwass. As mulheres com mais de 35 anos podem reduzir este período para seis meses. Para aquelas que não estão prontas para intervenções médicas complexas, um especialista pode ajudar com mudanças no estilo de vida, acrescenta.
Mesmo que não esteja pronta para engravidar, mas tenha preocupações com a sua fertilidade no futuro, pode consultar um especialista proativamente, completa Kawwass.
Será que algo deve ser "maximizado"?
O objetivo por detrás da "maximização" não é necessariamente mau. Ter mais atenção a dormir bem, consumir nutrientes suficientes e preparar-se para o sucesso na fertilidade é um esforço nobre.
O problema é que não se pode "maximizar" tudo o tempo todo, pelo que, inevitavelmente, algo acaba por ser minimizado, continua Aleksic. Focar-se tanto na ingestão de proteínas pode significar que não está a consumir vegetais suficientes. As pessoas também podem perder eventos sociais, celebrações e momentos de ligação porque estão demasiado focadas num sistema excessivamente otimizado e delicado que criaram para si próprias.
“Implicitamente, perde-se a oportunidade de alcançar um todo maior ao otimizar apenas uma coisa”, acrescenta.
Outro problema com as tendências de saúde nas redes sociais é que se concentram em resultados imediatos e universais. O algoritmo das redes sociais recompensa transformações rápidas de antes e depois ou afirmações ousadas sem nuances, o que pode afetar a forma como as pessoas esperam que as coisas aconteçam para elas, diz Aleksic.
E embora um comportamento específico que transforme toda a vida de uma pessoa possa fazer sentido num vídeo de redes sociais, a vida real exige muito mais personalização, tentativa e erro e mudanças graduais, conclui Mokari.
