opinião
Presidente da RESPIRA - Associação de Pessoas com DPOC e outras Doenças Respiratórias Crónicas

Viver com DPOC: a luta silenciosa por cada fôlego e a urgência de um futuro sustentável

12 ago 2025, 12:08

A vida com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é uma realidade que, para muitos, permanece invisível. Não se trata apenas de uma condição médica; é uma redefinição diária da existência, um constante ajuste a um corpo que, a cada dia, exige mais de nós e nos oferece menos.

Muitas vezes, a DPOC é associada a fatores ambientais ou a hábitos específicos, e embora estes sejam cruciais na sua génese, a verdade é que a doença se manifesta de formas muito mais profundas e abrangentes no quotidiano dos doentes. A DPOC é uma doença progressiva e irreversível que obstrui as vias aéreas dos pulmões, dificultando a passagem do ar. A sua principal causa, em Portugal e no mundo, é o tabagismo, ativo ou passivo, mas também a exposição prolongada a fumos e poeiras, como as resultantes da queima de biomassa em ambientes pouco ventilados ou de certas profissões.

Os sintomas iniciais são, infelizmente, traiçoeiros e facilmente desvalorizados. Uma tosse persistente, muitas vezes apelidada de "tosse de fumador", que se agrava pela manhã ou com o esforço. Uma sensação de falta de ar (dispneia) que surge inicialmente apenas em grandes esforços, como subir escadas ou andar depressa, mas que, com o tempo, se manifesta em atividades cada vez mais simples: vestir-se, tomar banho, ou até mesmo falar. O cansaço extremo e a produção excessiva de expetoração são outros sinais de alarme que, por vezes, são atribuídos à idade, à falta de exercício ou a uma simples constipação que "não passa".

É precisamente nesta desvalorização que reside um dos maiores perigos. Muitos doentes chegam ao diagnóstico numa fase avançada, quando as limitações já são significativas. E que limitações são essas?

Imagine que cada passo que dá é um esforço hercúleo. Que a simples tarefa de ir à cozinha buscar um copo de água o deixa ofegante e exausto. Que subir um lanço de escadas se torna uma montanha intransponível. A DPOC rouba a autonomia e a espontaneidade. As atividades mais básicas, que a maioria das pessoas dá por garantidas, tornam-se desafios monumentais. Ir às compras, passear com os netos, encontrar-se com amigos – tudo exige planeamento.

O impacto não é apenas físico. A DPOC é uma doença que isola. O medo de uma crise de falta de ar em público, a vergonha de tossir incessantemente, a dificuldade em acompanhar o ritmo dos outros, levam muitos doentes a retrair-se, a evitar convívios sociais. A ansiedade e a depressão são companheiras frequentes, alimentadas pela frustração de não conseguir fazer o que antes era simples, pela dependência crescente e pela incerteza do futuro.

Viver com DPOC é aprender a gerir cada fôlego, a priorizar as energias, a aceitar as limitações sem desistir de lutar. É depender de medicação inalável, de oxigenoterapia, de reabilitação pulmonar. No entanto, apesar dos avanços na gestão dos sintomas, a verdade é que, nos últimos anos, a investigação nesta área tem sido escassa, com poucas novidades terapêuticas a surgirem. Os doentes e as suas famílias vivem com a esperança de que a ciência e a indústria farmacêutica voltem a investir, trazendo em breve novas abordagens que possam, finalmente, alterar o curso da doença e melhorar significativamente a sua qualidade de vida. É um caminho árduo, mas não tem de ser solitário.

É que o ambiente que nos rodeia, e que tentamos preservar, pode ser o gatilho invisível que dificulta cada respiração. A ciência já confirmou, várias vezes, que a poluição atmosférica não contribui apenas para o desenvolvimento da DPOC, mas também atua como um perigoso catalisador que intensifica sintomas e precipita exacerbações, que podem mudar o curso da doença. As temperaturas extremas, sejam as mais elevadas ou as muito baixas, cada vez mais frequentes, são um sinal do real impacto das alterações climáticas, que se transformam em inimigos para os pulmões que já se encontram comprometidos.

Na RESPIRA, trabalhamos incansavelmente para sensibilizar a população para os sintomas, para a importância do diagnóstico precoce e para a necessidade de parar de fumar. Mas, acima de tudo, estamos aqui para apoiar os doentes e as suas famílias, para partilhar experiências, para oferecer informação e para lutar por melhores condições de vida e de tratamento. Em particular, lutamos para que, ao nível das políticas públicas, a DPOC se torne uma prioridade de Saúde Pública – só com a devida atenção e priorização deste tema por parte dos atores políticos poderemos, efetivamente, assegurar um adequado envelope financeiro que permita um ainda melhor e mais eficaz trabalho de combate a esta doença, desde a prevenção, acesso a diagnósticos mais precoces e a terapias mais inovadoras.

Se sente algum dos sintomas que descrevi, não os desvalorize. Procure o seu médico. Um diagnóstico precoce pode fazer toda a diferença na sua qualidade de vida. E se já vive com DPOC, saiba que não está sozinho. Juntos, podemos respirar melhor.

Saiba mais no site da RESPIRA (https://www.respira.pt/#!/) ou na nossa aplicação e nas nossas redes sociais (Instagram e Facebook).

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