Autoridades suspeitam que origem do caso pode ser um ataque informático
Ficheiros clínicos de dezenas de crianças estão a ser acedidos de forma indevida através das credenciais de um médico.
Várias famílias já se queixaram às autoridades, sendo que a CNN Portugal apurou, junto da Ordem dos Médicos, que este poderá ser um caso de pirataria informática. De resto, as informações da Unidade de Saúde Local (ULS) do Minho vão nesse mesmo sentido, com aquela entidade a esclarecer que o médico em causa não tem culpa, já que também ele é vítima neste caso.
A ULS do Alto Minho adianta, numa resposta à agência Lusa, que, “na sequência dos relatos de acessos indevidos a registos administrativos de utentes”, ouviu o médico em causa e “tudo indica que foram comprometidas as suas credenciais, não tendo os acessos sido realizados pelo profissional”.
“O comprometimento das credenciais do médico terá resultado no acesso indevido a registos administrativos, não clínicos, de diversos utentes, entre os quais crianças”, salienta.
A Unidade Local de Saúde do Alto Minho esclarece, ainda, que informou as entidades competentes para a apreciação da ocorrência de possíveis atos ilícitos.
As queixas multiplicam-se também nas redes sociais, com vários pais a referirem acessos indevidos no portal SNS24.
De acordo com esses relatos, alguns pais terão recebido alertas sobre acessos aos processos dos seus filhos, sobretudo crianças pequenas, o que terá levado a contactos com centros de saúde e, em alguns casos, à apresentação de queixas junto das autoridades de saúde e da polícia.
Os mesmos testemunhos referem ainda que alguns centros de saúde terão recebido um elevado número de chamadas relacionadas com a situação.
O processo ainda está em investigação, mas a CNN Portugal sabe que o clínico em causa trabalhou em tempos no centro de saúde de Miranda do Corvo, estando agora a exercer a prática num serviço de urgência básica no norte do país.
O clínico não tem qualquer especialidade e tudo aponta que possa ter sido alvo de um roubo de credenciais, sendo que essas mesmas credenciais dão acesso a milhares de ficheiros clínicos, incluindo de crianças.
Ordem recebeu aviso
Em declarações à agência Lusa, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, afirmou que a Ordem recebeu esta quinta-feira à noite “um aviso” sobre esta situação, tendo desenvolvido procedimentos internos para tentar averiguar se se tratava de “um ato de má conduta deontológica”.
Revelou que esta manhã a Ordem dos Médicos enviou ofícios ao Ministério Público, aos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde e à ULS do Alto Minho, onde o médico exerce.
“Eu próprio contactei todas estas entidades diretamente, também estou a tentar perceber - dada a dimensão da situação e as dezenas de queixas que a Ordem dos Médicos já recebeu hoje de manhã - e tanto quanto é possível perceber, até ao momento, (…) parece que estamos perante uma situação de cibersegurança, de falha em termos de segurança informática”, salientou.
Carlos Cortes sublinhou que esta suspeita “ainda tem que ser apurada pelas entidades competentes, que não é a Ordem dos Médicos”.
A investigação terá de ser feita pelos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde e pela ULS do Alto Minho.
“Estamos a aguardar, estamos em contacto direto com estas três entidades”, disse o bastonário, acrescentando que a Ordem dos Médicos dará “toda a ajuda que for possível”.
“Obviamente que será dada [a ajuda], mas tanto quanto é possível perceber, até agora, é uma situação que está no domínio da área informática do Serviço Nacional de Saúde”, declarou.
