Vem aí a sexta vaga? SARS-CoV-2 mantém o "fator surpresa" e regras podem mudar a qualquer momento

18 mar, 08:00

O número de novos casos continua a subir, mas os efeitos secundários estão longe de ser iguais aos de outros picos de incidência e transmissibilidade. Portugal pode entrar numa sexta vaga da pandemia, desta vez com traços menos preocupantes mas mais imprevisíveis, alertam os especialistas entrevistados pela CNN Portugal

A pandemia está a “agravar-se de forma significativa” em Portugal, com o índice de transmissibilidade (Rt) a subir para 1,09, alerta o mais recente relatório do Instituto Superior Técnico. Face ao aumento do número de casos, como reportou o último boletim semanal da Direção-Geral da Saúde (DGS), os peritos apontam para a chegada de uma sexta vaga de infeções, mas as consequências podem ser menores do que as verificadas em vagas anteriores. “O risco pandémico ainda não é muito elevado”, lê-se no relatório.

Ainda assim, os riscos têm de ser medidos, sobretudo numa fase em que as pessoas parecem “menos preocupadas” com o vírus e há a possibilidade de deixar cair as poucas medidas de mitigação que ainda vigoram no país, como diz Celso Cunha, virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade NOVA de Lisboa. 

Estamos agora a entrar na primavera e o tempo vai aquecer, as pessoas vão começar a sair de casa e é provável que haja daqui a uns tempos mais infeções, mas não com a incidência que temos agora”, diz o virologista.

Durante o período do Carnaval, houve “um ressurgimento de casos”, nota o matemático Carlos Antunes. Este crescimento verificou-se maioritariamente nas faixas etárias em idade escolar, dos 10 aos 19 e dos 20 aos 29 e, à boleia disso, verificou-se “um aumento muito ligeiro acima dos 60 anos”. Como consequência, dois efeitos que diferem em muito de outras subidas de casos merecem atenção do especialista: “um foi a interrupção da descida dos internamentos, que estabilizaram, e o outro foi uma desaceleração da descida da mortalidade”. 

Mesmo perante estes dados, a ministra da Saúde Marta Temido afirmou que o alívio de restrições, previsto para abril, deverá avançar. “Creio que estamos em condições de cumprir aquilo que estava programado, a não ser que haja uma circunstância imprevista”, afirmou Marta Temido. Para as autoridades de saúde, a bitola não está no número de infetados, mas sim no número de óbitos, sendo o objetivo chegar aos 20 (ou menos) por milhão de habitantes, algo que Carlos Antunes acredita que seja atingido no próximo mês. 

O facto de o aumento do número de infeções não resultar numa subida exponencial de óbitos e numa sobrecarga do Serviço Nacional de Saúde, nem num quadro generalizado de infeções pelo país, leva o matemático Carlos Antunes a afirmar que Portugal poderá estar a chegar uma “onda epidémica”, que, explica, “não é generalizada nem a nível de regiões e de faixas etárias, e é uma onda com mais características endémicas”.

É um ressurgimento ligeiro, diferenciado em termos de regiões. Há regiões em que [aumento do número de casos] não surtiu qualquer efeito, como o Norte e os Açores. No Centro e no Algarve houve uma subida ligeira e as regiões que mais sentiram foram Lisboa e Vale do Tejo e a Madeira, mas essas também já estão a dar sinal de que poderão baixar brevemente”, explica Carlos Antunes. E frisa: “Está-se quase a anular essa situação. Estamos muito próximos de endemia”.

João Paulo Gomes, investigador do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e coordenador do estudo sobre a diversidade genética do novo coronavírus SARS-CoV-2 em Portugal, numa resposta por escrito à CNN Portugal, diz que “o aparente aumento da incidência em Portugal em algumas faixas etárias, cuja tendência crescente carece de confirmação, poderá ter como causas as recentes festividades (Carnaval), um relaxamento da população quanto às medidas de proteção, e o aumento da prevalência da linhagem BA.2”. Porém, o especialista diz que “não está a ser acompanhado, até à data, por um aumento de internamentos gerais e em cuidados intensivos, ou mesmo de mortes. Não se pode falar assim, em termos definitivos, do aparecimento de uma clara sexta vaga, nem tão pouco sobre preocupações que a mesma poderia originar, dada a enorme adesão da população Portuguesa à vacinação, incluindo a dose de reforço”.

Notícias do fim da pandemia “foram manifestamente exageradas”

Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise para a covid-19 da Ordem dos Médicos, considera que é cedo para usar o termo endemia, mesmo projetando um futuro próximo, até porque isso implicaria “números estáveis de infeção e infeção localizada em determinadas regiões geográficas do mundo, o que não se verifica”.

Embora reconheça que “estamos mais próximos do fim do que alguma vez tivemos”, Filipe Froes frisa que ainda há muitos fatores em jogo e que, por isso, a pandemia “ainda não acabou” e as notícias do seu fim “foram manifestamente exageradas”. E vai mais longe: “fazer-me-ia mais sentido manter os boletins diários até termos um maior conhecimento desta nova variante, até para percebermos o impacto em termos de gravidade. Tudo aponta para que possa não haver um crescimento [de gravidade], mas só podemos saber mais tarde. Com monitorização semanal podemos correr o risco de perder tempo de resposta”.

Tendo em conta a variante que é agora prevalente em Portugal, mais transmissível mas menos penosa para a saúde, Luís Rocha, pneumologista e dirigente da Fundação Portuguesa do Pulmão, considera que “podemos ter um novo pico, designado por sexta vaga, mas com um menor impacto para a saúde pública, porque temos defesas anteriores”.

Também Carlos Palos, intensivista e coordenador da Comissão de Prevenção, Controlo de Infeção e Resistência aos Antimicrobianos do Grupo Luz Saude, afirma que uma nova onda pode estar para breve, mas descarta um cenário alarmista e adianta que Portugal está também bem posicionado para fazer frente a novas variantes.

Se forem variantes combinadas, em países como o nosso, não se prevê uma grande sobrecarga sobre os serviços de saúde, mas vai aumentar a incidência [de novos casos]. Possivelmente, se esse for o comportamento, avançaremos mais dia, menos dia para deixar de testar as pessoas sintomáticas, a não ser que estejam internadas ou com doença grave. Mas todos temos receio de tomar esta medida porque não sabemos como será a semana seguinte”, alerta Carlos Palos.

E é a incerteza do dia de amanhã que leva o virologista Celso Cunha a mostrar-se mais cauteloso quanto a eventuais vagas ou ondas e às suas características, se mais endémicas ou epidémicas. O virologista defende, porém, que “se não surgir nada muito diferente do que está a acontecer agora, e se mantivermos o mesmo tipo de vírus a circular, com sintomatologia leve deste tipo, vamos provavelmente conseguir controlar” as consequências e, assim, entrar numa nova fase pandémica. Até porque, defende, “já passámos o mais difícil, que foi o primeiro ano até aparecem as vacinas”.

“Neste momento, o que estou a constatar é que o vírus veio, está cá, mas nós felizmente conseguimos torná-lo um companheiro de viagem e não um inimigo”, reconhece Celso Cunha.

O impacto da guerra

Embora otimistas quanto aos efeitos menos negativos que uma nova vaga poderá trazer nos cuidados de saúde e nos casos de doença grave, graças à elevada cobertura vacinal em Portugal, os especialistas entrevistados deixam claro que o SARS-CoV-2 mantém o "fator surpresa" bem presente no seu comportamento e isso poderá mudar as regras do jogo a qualquer momento. 

Apesar de o cenário em Portugal ser promissor, há países da Europa a enfrentar uma subida exponencial de novos casos e a fazer novamente soar os alertas, como Espanha e a Alemanha, por exemplo. E isso traz um caráter mais imprevisível à sexta vaga em Portugal. A incerteza deve ser sempre tida em conta, sobretudo numa altura como esta, em que milhões de pessoas saem da Ucrânia rumo à Europa ocidental para fugir da guerra.

É evidente que a saída repentina de pessoas onde há uma transmissão comunitária muito intensa vai trazer novos casos à Europa. É normal que importemos alguns”, alerta Filipe Froes, que defende a testagem e a vacinação dos refugiados que ainda não têm o esquema vacinal completo.

“Estamos a assistir em todos os países da União Europeia ao aumento do número de casos, que resulta da conjugação de três fatores: a nova sublinhagem da BA.2, o alívio das medidas de controlo e prevenção da infeção e a diminuição da imunidade via infeção ou vacinal”, alerta Filipe Froes, pneumologista e coordenador do gabinete de crise para a covid-19 da Ordem dos Médicos.

Mas não é só na Europa que a covid-19 está a fazer soar novamente os alarmes. Na China, estão atualmente 37 milhões de pessoas em confinamento devido à covid-19.

“No hemisfério sul, onde vai ser inverno daqui a pouco, o vírus continua a circular com mais intensidade, e é provável que surjam mais variantes. Não sabemos o que vai surgir, mas a ideia é sempre a mesma. Continuar a monitorizar o que acontece em várias partes do mundo e vacinar”, conclui Celso Cunha.

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