Beber água a mais pode matar? Pode. Saiba o que é a potomania

23 jul, 16:00
copo de água, consumo Foto: Monika Skolimowska/picture alliance via Getty Images

Beber excessivamente sem ter a sensação de sede, como forma de regulação emocional, pode ser fatal. Um psicólogo e uma nutricionista explicam à CNN Portugal as consequências desta perturbação e como a diagnosticar e tratar

Se há coisa que ouvimos com frequência é que devemos beber oito copos de água por dia ou uma garrafa de 1,5 l. Certo é que com o passar dos anos as garrafas de água passaram a ser um elemento imprescindível ao ponto de surgirem no mercado em modelos e cores diferentes, para todos os gostos. “Seguem-nos para todo o lado como se de um ‘bóbi’ se tratasse”, diz a nutricionista Margarida Vieira.

Muitos dizem que é o segredo para uma boa saúde, boa pele, para perder peso e até evitar o cancro, mas poucos falam dos impactos negativos do seu consumo em excesso. A necessidade permanente e incontrolável de beber água tem nome, a potomania, e trata-se, sobretudo, de um problema do foro psicológico. 

A polidipsia psicogénica

Não está incluída no Manual Diagnóstico e Diferencial de Transtornos Mentais (DSM-V), mas a potomania pode ser enquadrada naquilo que os psicólogos entendem como "perturbações do controlo impulsivo". Miguel Ricou, psicólogo e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, explica que, de alguma forma, "quase todos os comportamentos maníacos podem ser associados a esse tipo de perturbações". Alguns exemplos mais conhecidos são a cleptomania e piromania, que à semelhança da potomania recorrem a um determinado comportamento - nestes casos, o desejo desmedido de roubar ou provocar incêndios - para aliviar a tensão. "É uma resposta que a pessoa se habitua a utilizar para conseguir alterar o seu estado emocional de alguma maneira", descreve o especialista. "Se aquele comportamento resulta para mim como forma de alívio qual é a tendência? Repetir".

Segundo a fundação espanhola Aquae, pessoas que sofrem de potomania podem chegar a ingerir entre oito e 15 litros de água por dia.

Miguel Ricou não descura a possibilidade de a potomania ser motivada por problemas mais orgânicos, como diabetes, o consumo de algumas substâncias farmacológicas, ou uma disfunção no hipotálamo - região do encéfalo que regula a temperatura, o apetite e a sede - mas "esse é outro campeonato". Nestes casos concretos, "resolvem-se as causas, resolve-se o problema", mas no caso daquela a que também chama de "polidipsia psicogénica" as razões são essencialmente psicológicas e psiquiátricas. Trata-se na verdade de beber excessivamente sem ter a sensação de sede, como forma de regulação emocional. 

Mas como diagnosticar? Inicialmente, é efetuada uma análise dos sintomas e da descrição da história do problema. "As intervenções são sempre muito personalizadas e dependem de uma série de fatores", esclarece. "Mas intervenções comportamentais de controlo do consumo de água, que promovam o relaxamento e a restruturação cognitiva com literacia emocional são importantes." Seguidamente é aplicado o tratamento médico necessário para responder aos sintomas resultantes da perturbação, desde a restrição de ingestão de água à promoção da sua perda. 

Cefaleias, confusão, convulsões, coma e morte

"Temos de confiar no nosso corpo quando nos diz que devemos parar", sublinha Margarida Vieira, lembrando que este é um problema que está diretamente associado ao sistema renal. "Quando entramos em obsessões temos de perceber os riscos que podemos correr" e um desses riscos chama-se "hiponatremia" - excesso de água corporal em relação à concentração plasmática de sódio. "Se bebemos água a mais o rácio entre sódio, potássio e água no corpo desregula, e isso é que leva à falência dos orgãos", explica a nutricionista.

Cefaleias, confusão, convulsões, coma e até a morte podem constituir a hiponatremia. De acordo com o cientista Nuno Maulide, autor do livro "Como se Transforma Ar em Pão", se uma pessoa beber quatro litros de água numa hora pode, efetivamente, morrer. 

A menos que se trate de um atleta de alta competição, Margarida Vieira defende que mesmo 1,5l de água por dia pode ser demasiado. "Há muitas pessoas que andam agarradas a uma garrafa de água o dia todo, porque alguém lhes disse que tinham de assumir uma certa necessidade hídrica, mas eu não recomendo", alerta. "A água tem de ser inserida dentro de um contexto saudável", o que inclui uma alimentação composta por frutas e legumes adequados, por sua vez repletos de água. Existe uma quantidade ideal? A especialista recomenda que cada pessoa beba de acordo com o seu peso, nomeadamente cerca de 30ml por quilo.

"De facto pode ser um distúrbio mental, mas pode também estar ligado àquilo que cada vez mais temos, que é uma certa obsessão com a perda de peso", analisa. Muitos entendem que a água contribui para a perda do apetite, mas Margarida Vieira não concorda. "O apetite há de aparecer." Distúrbios alimentares como a anorexia podem ser ainda uma das causas de um consumo desequilibrado de água. 

Num período em que se vive uma vaga de temperaturas elevadas no país, Miguel Ricou explica que a potomania não tem tendência a aumentar, uma vez que não tem uma motivação lógica. "Não é o padrão da sede que desencadeia a potomania, tal como um cleptomaníaco não rouba porque tem necessidade de roubar", exemplifica. No limite, acredita que o comportamento não é visto como socialmente negativo.

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