Imunidade natural? "Se há país que está bem posicionado para a mudança de estratégia é Portugal"

29 dez 2021, 14:11

Em entrevista à CNN Portugal, o médico de Saúde Pública Bernardo Gomes alerta que a situação nos cuidados de saúde primários é dramática. E acredita que isolamento vai ser reduzido

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Não é possível atender todas as pessoas que estão a contactar os cuidados de saúde primários, como a linha SNS24 ou os centros de saúde, face aos milhares de casos diários de covid-19, muito por culpa da elevada transmissibilidade da variante Ómicron, mas também pela falta de visão estratégica das autoridades de saúde face às previsões epidémicas.

Quem o diz é o médico de saúde pública Bernardo Gomes, que, em entrevista à CNN Portugal, comentou a possibilidade defendida por alguns especialistas de deixar o vírus disseminar-se pela população de modo a obter-se uma imunização natural.

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"O professor Manuel Carmo Gomes colocou um cenário e ele disse que era preciso ter uma noção do impacto hospitalar de tantos casos. Na prática o que vamos perceber no final da semana e da próxima é qual é ritmo de subida do esforço hospitalar", observou.

Para Bernardo Gomes, "não podemos comparar o cenário que estamos a viver agora com aquele que vivemos há um ano, em que fomos para o Natal com 500 pessoas em cuidados intensivos".

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"Nesta altura temos um impacto hospitalar menor. Agora qual é a incógnita? Com uma transmissão tão difusa, mesmo sendo pouco severa, qual é o impacto hospitalar? Portugal parte em vantagem, por três circunstâncias diferentes: por sermos os mais vacinados do mundo; termos também feito testagem previamente ao Natal, que evitou contágios; e, comparando com outros países, a nossa adesão a medidas não farmacológicas como o uso da máscara é maior", explicou.

"Portanto, se há país que está bem posicionado para a mudança de estratégia é Portugal", defendeu.

O médico alertou que a situação que se vive neste momento ao nível de cuidados de saúde primários é dramática e que já está a influenciar a carga hospitalar. E que a subida no número de internamentos só é visível ao fim de uma semana de um/dois dias com números muito elevados.

"O que aconteceu e que é factual é que o modelo que foi preparado para lidar com isto, ou seja, a parte logística, não foi adaptado à previsão epidemiológica, por isso nesta altura temos profissionais de saúde a tentar parar o mar com as mãos", criticou.

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Bernardo Gomes lamentou que, "uma vez mais", se tenha falhado na previsão de reação.

"Com um volume tão grande de casos temos um problema logístico de pessoas que estão em casa à espera de ser contactadas e para o qual não nos preparámos, falhou-se mais uma vez passados dois anos de pandemia. Não há capacidade de previsão de reação de choque. E depois temos a distorção patológica do sistema de saúde que está a levar as pessoas às urgências porque não são contactadas", apontou.

No entanto, e para já, "comparativamente há um ano, o cenário de 2021 será muito improvável".

Isolamento de dez dias "já não se justifica"

Relativamente à possibilidade de redução do isolamento de dez para cinco dias, Bernardo Gomes considerou que não se trata já de uma questão de se, "é uma questão de quando, porque vai acontecer".

"Até porque é insustentável em termos de carga social continuar a isolar tantas pessoas", argumentou.

O mesmo se aplica às crianças, esperando Bernardo Gomes que a "modificação" chegue já em janeiro, uma vez que, no seu entender, "não podemos continuar a isolar turmas a priori em janeiro".

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"Em termos escolares já não se justifica, sobretudo com a questão da menor severidade da doença", defendeu ainda.

 

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