Trabalhar, ter família, saúde física e uma vida aparentemente organizada não é garantia de bem-estar emocional. Pelo contrário: muitas pessoas chegam à consulta da psiquiatra Maria Moreno e da psicóloga Carolina Nunes com tudo "no lugar" e um mal-estar difícil de explicar. Em 'Se Estou Bem, Porque Não Me Sinto Bem?', as autoras partem dessa contradição silenciosa e de histórias reais para falar de depressão, ansiedade, estigma e da urgência de reconhecer que a doença mental nem sempre tem um culpado visível
O título é incómodo e é mesmo essa a intenção. Se Estou Bem, Porque Não Me Sinto Bem? nasce de uma das frases que mais se ouvem nos consultórios, ditas por quem cumpre todas as expectativas externas e, ainda assim, não se sente bem. Sem palavras caras nem explicações arrumadas, o livro reúne histórias reais, sintomas, dúvidas e resistências comuns, trazendo a saúde mental do abstrato para o concreto.
Numa conversa com a CNN Portugal, a psiquiatra Maria Moreno falou sobre o desajuste interno que a sociedade insiste em minimizar, o estigma ainda associado à procura de ajuda e a importância de informar para que pedir ajuda deixe de ser um último recurso e passe a ser um primeiro passo.
A informação sobre saúde mental é mais e melhor. Mas há ainda um longo caminho a percorrer. A começar por frases feitas e ideias pré-concebidas que dificultam o tratamento e mitos que é preciso derrubar. “As ideias erradas entram pela porta da minha consulta com uma certeza tão inabalável que eu própria tenho, muitas vezes, dúvidas sobre quem é que ali está errado. Há imensa informação, mas sinto que estamos sempre a bater nas mesmas teclas e depois há grandes pedaços de informação muito importante que não se encontram em nenhum jornal, revista, programa de rádio ou da manhã. E isto fecha portas”, alerta a psiquiatra.
O que a levou a escrever, em parceria com a psicóloga Carolina Nunes, Se Estou Bem, Porque Não Me Sinto Bem? Há uma perceção generalizada de que as pessoas não se sentem bem emocionalmente? E essas mesmas pessoas estarão realmente bem?
O título é incómodo de propósito. Porque descreve uma realidade muito comum e pouco aceite. Esta é, provavelmente, uma das frases que mais ouvimos em consulta. E, este, é um livro que, como o Professor Alexandre Castro Caldas sublinhou, no lançamento, foi escrito “com as cores que o mundo tem”. Queremos trazer as frases que saem da boca das pessoas que nos chegam, sem palavras caras a enfeitar. Este ano, queremos que os enfeites fiquem apenas na árvore de Natal.
O título sugere um certo paradoxo - “estar bem” e “não me sentir bem”. Acha que este sentimento de desajuste interno é subestimado pela sociedade, mesmo quando tudo “parece normal”?
“Mas doutora, está tudo bem…”. Trabalho, família, saúde física, vida organizada… e, ainda assim, a pessoa não se sente bem. Quando falamos de depressão, por exemplo, estamos sempre à espera de encontrar um grande desgosto, um adeus difícil, uma perda, um golpe inesperado. Na nossa cabeça, a depressão tem sempre um culpado. Mas não. E isto vem com uma culpa e um espanto enormes. “Não devia sentir-me assim”. Nada mudou à nossa volta, mudámos nós. Falamos em depressão, mas podíamos falar em ansiedade, depressão pós-parto, psicose - e por aí fora. Surgem sem um grande culpado. Reconhecer que isto é uma possibilidade, é o primeiro passo para procurar ajuda.
Que fatores que levam uma pessoa a “sentir-se mal”, mesmo sem uma causa aparente externa evidente?
Será o stress o culpado da doença mental? Malfadado stress. É sempre o bode expiatório.
Mas a resposta para a pergunta dos mil milhões é mais complexa do que isso e reside na dupla habitual. Genética e ambiente andam sempre de mãos dadas. A uma maior vulnerabilidade, juntam-se fatores de stress precoces ou presentes (uma infância menos boa e um aumento de stress laboral, por exemplo), que podem provocar um desequilíbrio químico nos neurotransmissores produzidos pelo nosso cérebro. Sendo os neurotransmissores os mensageiros no nosso cérebro, este desequilíbrio vai provocar erros nas mensagens que são formadas. E, quando falamos no cérebro, erros podem significar provocar sintomas (ansiedade, tristeza ou outros).
Como foi o processo de escrita de um livro a quatro mãos? O que é que cada uma das autoras trouxe de diferente para o livro?
Foi um exercício que já nos é muito familiar: trabalho integrado e em equipa – algo que nenhuma de nós abdica no trabalho do dia-a-dia. Este livro não é só sobre emoções ou só sobre sintomas ou só sobre terapia ou só sobre medicação – é sobre “Histórias” de pessoas que são inteiras – a Maria João, a Adelaide, o João Paulo.
Existe ainda um grande estigma social associado à procura de ajuda psiquiátrica ou psicológica em Portugal? Como podemos contribuir para desmistificar isso?
É impossível dizer que não. Menos barulhento, mas muitíssimo presente. A ideia de que “psiquiatria é para casos graves” continua viva nas pessoas e, muitas vezes, até nos profissionais da área da saúde mental.
Multiplicam-se as vezes em que no final da primeira consulta o doente, antes de sair, respira fundo e diz: “era só isto? Pensei que ia ser pior.” E, um mês depois, na segunda consulta me garante: “se eu soubesse que ia ser tão fácil e tão rápido, tinha vindo muito antes.” Acho que esta é a maior prova de que quem eu sou e o que eu faço ainda provocam uma enorme surpresa.
O que é que podemos fazer diferente? Vou bater naquilo que me parece mais importante. A via não importa. Informar, informar, informar. Informar sem medo. Na minha consulta, o doente é a pessoa mais bem informada. Acredito que mais e melhor informação traz sempre melhores decisões. Informo na consulta e fora da consulta – na televisão, nos jornais, na rádio, nas formações para psis, para médicos e não médicos e, agora, neste livro. Diria que é o primeiro pequeno (grande) passo.
E quando as pessoas não procuram ajuda por medo do que vão encontrar dentro de si?
Isso é tão comum. Muitas pessoas preferem manter o desconforto conhecido a arriscar descobrir mais sobre algo que ainda não sabem nomear.
Aqui, o segredo reside em algo que é tão antigo como a Medicina mais rudimentar – a relação. A relação (terapêutica) que o profissional estabelece com o doente. Isto pode mudar tudo.
Há falta de literacia em saúde mental em Portugal?
Atualmente, falamos cada vez mais sobre saúde mental (e bem) mas, muitas vezes, isto vem atrelado a ideias erradas e à crença que já sabemos tudo sobre ela.
As ideias erradas entram pela porta da minha consulta com uma certeza tão inabalável que eu própria tenho, muitas vezes, dúvidas sobre quem é que ali está errado.
Há imensa informação, mas sinto que estamos sempre a bater nas mesmas teclas e depois há grandes pedaços de informação muito importante que não se encontram em nenhum jornal, revista, programa de rádio ou da manhã. E isto fecha portas.
Se estou a ter um ataque de pânico, “respiro bem fundo”. Se a minha mãe tinha oscilações enormes de humor, todos os dias, sem motivo aparente, “tinha uma doença bipolar”. Se penso que “a psiquiatria é para casos graves”, espero até já ser urgente. Estes são alguns exemplos daquilo que oiço deste lado.
Falar é bom. Falar bem é melhor.
Qual a diferença entre sentir-se “em baixo/triste” e estar perante um problema de saúde mental que deve ser avaliado clinicamente? Como distinguir? Que sinais me devem levar a ponderar a procura de ajuda?
A tristeza é uma emoção comum e adaptativa que todos nós já sentimos – e ainda bem. Todas as emoções – alegria, tristeza, ansiedade, medo, raiva, ... – têm uma função e não há uma melhor do que a outra. A tristeza ajuda-nos a parar e a elaborar perdas, por exemplo. O problema não é sentir tristeza. É quando, por quanto tempo, com que intensidade e que impacto é que isso tem no nosso dia-a-dia e na nossa maneira habitual de estar.
Quando os sintomas duram semanas ou meses, surgem sem um motivo claro ou são desproporcionais ao que está a acontecer, quando mudam a forma como a pessoa é e reage, quando começam a interferir no trabalho, nas relações, no sono, no prazer de viver e, sobretudo, quando causam sofrimento, devemos parar e pensar. Entrámos no território da doença mental. É obrigatória uma avaliação capaz.
O livro fala de sintomas, diagnósticos e tratamentos… até que ponto a medicação pode ser vista como uma ajuda, sem estigmas?
Existem práticas que podemos incluir no dia-a-dia de modo a melhorar a nossa higiene de saúde mental. Tudo certo. Mas a Depressão e Ansiedade são doenças e, como tal, exigem um tratamento estruturado e especializado.
A regra é simples: quanto mais cedo melhor. É importante estarmos alerta para os sinais que todos devíamos conhecer e que devem motivar uma avaliação integrada – pelo psiquiatra e pelo psicólogo.
Por vezes, a psicoterapia basta. Mas, quando já existe um desequilíbrio químico, só essa opção não chega. É mesmo preciso repor o equilíbrio químico com medicação. Uma medicação que vai permitir a pessoa recuperar a capacidade de colaborar na psicoterapia e alterar o seu estilo de vida. Uma medicação que é segura, não causa dependência e não tem efeitos secundários na maioria das situações.
Qual o papel da psicoterapia em conjunto com a psiquiatria? Quando é ideal combinar ambas?
A minha resposta é clara. Não há atalhos no tratamento da doença mental. Defendo a pés juntos o trabalho integrado. Precisamos de um psiquiatra e um psicólogo que trabalham em conjunto. Não apenas quando tudo falha, mas desde o início. Não “às vezes”, mas sempre. Precisamos de um psiquiatra que usa medicação sempre que esta é necessária (a medicação adequada) e se use e abuse da psicoterapia e das alterações do estilo de vida (um adjuvante fantástico para garantir a eficácia da medicação).
Até por culpa das redes sociais, vivemos numa altura em que é mais importante o que se mostra do que o que se sente. Até que ponto e de que forma a vida perfeita que vemos nas redes sociais e que os outros nos transmitem contribui para o nosso mal-estar emocional? E até que ponto nos impede de procurar ajuda?
Não é tudo negro. As redes sociais trouxeram uma coisa boa: hoje fala-se mais de saúde mental. E isso é bom. Vale a pena dizer isto. Há menos silêncio.
Mas há um “mas”. Não é tudo negro, mas também é negro. Aquilo que mais me incomoda é que a doença mental que vemos nas redes sociais é, demasiadas vezes, a versão arrumada, bonita e quase poética – que, na verdade, não existe. É confusa, cansativa, pouco fotogénica. E não passa com motivação, mindset e rotinas perfeitas. Aqui, cria-se uma expectativa perigosa: se não melhoras, a culpa é tua. Porque “já devia ter passado”. E quando a melhoria não é linear - porque quase nunca é - surge a frustração, a vergonha e a culpa. Imensa culpa.
Que conselhos práticos dá a quem sente que algo não está bem, mas tem receio de procurar ajuda?
Perguntam-me muitas vezes “e se eu ficar mal?” e, normalmente, eu devolvo, “mas está tudo bem agora?”. Acho que este é o grande salto. Costumo dizer, com humor (aprender a rir sobre isto é muito importante), que se eu deixasse “pior” as pessoas que vêm à minha procura, não teria muito futuro na minha área. Ainda ter trabalho e, felizmente, cada vez mais, é um ótimo sinal.
Que mensagem pretende passar com este livro? Que ensinamentos gostaria que o leitor tirasse depois de o ler?
Este livro foi escrito para trazer muitas respostas (sobre aquilo que ainda não se fala) e satisfazer a curiosidade dos mais “inquietos” - o que é que se passa afinal atrás da porta do consultório? - e, idealmente, novas perguntas.
Acha que o facto de ter histórias de pacientes pode ajudar pessoas a identificar o que não está bem com elas e ajudá-las a procurar ajuda?
Acredito muito que sim.
Na experiência de alguns anos que já temos, as pessoas raramente se reconhecem em listas de sintomas ou em diagnósticos - reconhecem-se em frases. “Ah, eu também sou assim.”, “Isto podia ter sido escrito por mim.”, “Nunca tinha conseguido pôr isto em palavras, mas é exatamente isto.”.
Trazer a doença mental do abstrato para o concreto, das palavras caras para os termos que usamos no nosso dia-a-dia, de algo distante e “do outro” para as personagens do livro que estamos a ler e que aprendemos a gostar pode fazer toda a diferença.