90% das empresas oferecem seguro de saúde. Mas cobertura de saúde mental é ainda limitada

20 nov, 14:00
Depressão (Pexels)

Apesar de 66% das seguradoras afirmarem cobrir sessões de acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico, na prática, dois terços dessas seguradoras cobrem apenas 10 sessões ou menos

Atrair e reter talentos passa, cada vez mais, por uma dinâmica de employee value propositon, com o pacote salário, oportunidades de carreira, flexibilidade e benefícios a serem tidos em conta. No campo dos benefícios, com a pandemia, os relacionados com a saúde ganharam ainda maior relevância junto dos colaboradores e, atualmente, 90% das empresas oferecem seguro de saúde. Mas persiste uma lacuna: as coberturas dedicadas à saúde mental, revela o estudo “Mercer Marsh Benefits Health Trends 2023”, a que a Pessoa teve acesso.

“As escolhas e decisões dos colaboradores são cada vez mais decorrentes de um conjunto de fatores que não apenas a compensação, e essas escolhas dependem das suas prioridades, preferências e necessidades. Neste contexto, a opção de escolha é chave, e os benefícios, ou em particular do seguro de saúde, podem traduzir-se numa vantagem competitiva, o que é chave para a atração e retenção”, começa por explicar Miguel Ros Galego, business leader da Mercer Marsh Benefits Portugal.

“A pandemia levou a algumas alterações naquilo que são as prioridades e fatores mais valorizados pelos colaboradores. A saúde e a proteção dos familiares ganhou ainda mais relevância para os colaboradores, pelo que uma empresa que ofereça benefícios neste contexto (que permitam ao colaborador sentir o seu bem-estar físico e dos seus está assegurado) poderá ter uma vantagem competitiva”, continua.

No que toca à saúde mental, tem-se verificado ao longo dos últimos anos uma “crescente consciencialização” da saúde mental enquanto risco organizacional, sendo Portugal apontado como um dos países em que as pessoas correm o maior risco de burnout. Contudo, a emergência do tema não se traduz necessariamente em seguros de saúde com essa cobertura. Em 2022, cerca de uma em cada cinco seguradoras (16%) não contemplam uma cobertura de saúde mental (contra 26% em 2021). Apesar de existir um progresso, a oferta das seguradoras nesta área é ainda “muito limitada”, salienta a consultora no estudo.

Em Portugal, as seguradoras oferecem apenas apoio à saúde mental através das suas redes wellbeing a preços ou com descontos convencionados, pelo que existe claramente ainda um caminho a percorrer nesta área. A atenção à saúde mental dos colaboradores é chave no sucesso da gestão de pessoas nas organizações, pelo que cabe aos profissionais de RH terem a capacidade de garantir essa lacuna nos seus planos de saúde ou encontrar modelos outros de promoção da saúde mental dos seus colaboradores", Miguel Ros Galego, Business leader da Mercer Marsh Benefits Portugal.

Dois terços das seguradoras (66%) afirmam cobrir sessões de acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico, mas, na prática, dois terços dessas seguradoras cobrem apenas 10 sessões ou menos. Pressupondo que é feita uma sessão por semana, significa que o plano cobre apenas 20% das despesas médicas, o que é, para a Mercer Marsh Benefits Portugal, “insuficiente”.

“É positivo ver que existe uma maior preocupação das seguradoras com a saúde mental, mas as estão ainda aquém das necessidades”, comenta Miguel Ros Galego.

“Em Portugal, as seguradoras oferecem apenas apoio à saúde mental através das suas redes wellbeing a preços ou com descontos convencionados, pelo que existe claramente ainda um caminho a percorrer nesta área. A atenção à saúde mental dos colaboradores é chave no sucesso da gestão de pessoas nas organizações, pelo que cabe aos profissionais de RH terem a capacidade de garantir essa lacuna nos seus planos de saúde ou encontrar modelos outros de promoção da saúde mental dos seus colaboradores”, defende.

A cobertura de sessões de acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico na Europa é a mais limitada, com apenas 6% das seguradoras a oferecerem sessões ilimitadas. O valor compara com o Médio Oriente e a Ásia, onde 29% e 16% das seguradoras oferecem, respetivamente, sessões ilimitadas neste campo.

Os riscos emocionais ou mentais são o terceiro maior fator de risco a influenciar os custos médicos de grupo assegurado pelos empregadores a nível mundial, e o segundo maior fator na Europa, América Latina e Caraíbas.

Outras tendências nos cuidados de saúde assegurados pelas empresas

Além da persistência de lacunas nas coberturas dedicadas a saúde mental, o estudo desenvolvido pela Mercer Mars Benefits (MMB) identifica outras quatro tendências nos cuidados de saúde asseguradas pelas empresas. A primeira é, desde logo, o aumento dos custos médicos por pessoa, que estão a aproximar-se dos níveis pré-pandémicos; seguindo-se o impacto da Covid-19 nas reclamações; a modernização em curso dos planos de saúde; e a necessidade de maior rigor na gestão do plano de saúde.

O aumento contínuo da inflação torna-se a principal preocupação das organizações. Perante o inevitável impacto do atual contexto económico, o estudo sublinha a importância das empresas contemplarem este fator nas ofertas de benefícios para 2023. Mais de dois terços (68%) das seguradoras acreditam que as organizações farão melhorias nos planos de saúde, de forma a promover a atração e retenção de talento e o compromisso dos colaboradores, utilizando os benefícios como uma forma de diferenciação num mercado de trabalho competitivo. Esta tendência verifica-se sobretudo na Ásia (73%) e na Europa (73%).

As organizações devem preparar-se para um aumento da inflação e da tendência dos custos em saúde, mas terão de conseguir um equilíbrio entre o lado financeiro e a gestão das pessoas. Num mercado de trabalho pressionado, os planos de saúde continuam a ser um importante fator distintivo. É necessário ouvir os colaboradores e priorizar os benefícios e programas que mais valorizam", Miguel Ros Galego, Business leader da Mercer Marsh Benefits Portugal.

“As organizações devem preparar-se para um aumento da inflação e da tendência dos custos em saúde, mas terão de conseguir um equilíbrio entre o lado financeiro e a gestão das pessoas. Num mercado de trabalho pressionado, os planos de saúde continuam a ser um importante fator distintivo. É necessário ouvir os colaboradores e priorizar os benefícios e programas que mais valorizam”, afirma Miguel Ros Galego.

Os resultados deste estudo indicam que a preocupação com o bem-estar se deverá manter, estando em linha com os resultados do estudo “Global Talent Trends 2022”, que revelaram que um em cada três colaboradores renunciaria a um aumento salarial em troca de benefícios de saúde para si ou para os seus familiares.

Cinco recomendações

Face aos resultados apresentados pelo estudo, a Mercer Marsh Benefits deixa ainda as seguintes recomendações dirigidas às empresas:

  1. Prepare-se para futuros aumentos de custos relacionados com a inflação, não desvalorizando a importância do seguro de saúde enquanto ferramenta de atração e retenção de talento;
  2. Questione as seguradoras acerca da verdadeira extensão da sua cobertura de saúde mental;
  3. Explore a funcionalidade e a qualidade dos serviços digitais oferecidos pelas seguradoras, compreendendo de que forma estes se podem enquadrar nos benefícios oferecidos;
  4. Promova o rastreio e diagnóstico precoce de doenças crónicas, de forma a ajudar a gerir futuras despesas médicas;
  5. Esteja atento a eventuais mudanças nos requisitos das seguradoras relacionadas com as suas práticas de subscrição e desenvolva um plano eficaz para os cumprir.

O estudo, desenvolvido pela Mercer Marsh Benefits inquiriu 226 seguradoras de 56 países para identificar as principais tendências futuras dos cuidados de saúde assegurados pelas empresas.

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