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Coordenadora do Grupo de Missão da Ordem dos Psicólogos Portugueses de Intervenção em Crise e Catástrofe

O Psicólogo Responde. Efeitos do temporal: o que se pode esperar a nível psicológico?

8 fev, 10:00
O Psicólogo Responde. Efeitos do temporal: o que se pode esperar a nível psicológico?

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

A saúde é um direito humano universal, que foi sendo criado e construído pelas pessoas na sua vida quotidiana. Ter saúde não é só não estar livre de doenças, mas também, sentir bem-estar emocional, não estar em sofrimento psicológico. O bem-estar mental tem muito a ver com a adaptação individual e comunitária provocada pelas experiências anteriores, com a capacidade individual com que cada pessoa se conhece e se aceita, com seus pontos fortes e vulneráveis; mas, ainda, a capacidade de ser feliz e de se relacionar com outras pessoas dentro do quadro de tolerância e respeito. Quando falamos em saúde comunitária é um processo que todos construímos, e não um serviço que é prestado e recebido. Visa o bem-estar físico, mental e social completo, com gozo.

A intervenção psicossocial baseada nos recurso da comunidade passa por reintegrar indivíduos e famílias nas comunidades, identificar e restabelecer redes comunitárias naturais e estratégias para lidar com a crise – o que é atingido por via do diálogo comunitário contínuo entre as pessoas afetadas e quem faz intervenção psicológica na crise e na catástrofe.

A resposta de cada pessoa a situações desafiantes, que são disruptivas (que cortam) com a nossa normalidade, como as que temos vivido (as cheias, o “apagão”, os sismos, a pandemia, por exemplo), é natural que causem ansiedade mais elevada, irritabilidade, um sofrimento emocional associado à natureza e gravidade do evento. Mas também com “ingredientes” relacionados com a nossa personalidade (“maneira de ser”) e a história pessoal, bem como os sistemas de apoio disponíveis, ou seja, os recursos internos que cada um de nós tem, dentro de uma “mochila imaginária” (como se fosse uma caixa de ferramentas emocionais), mas ainda as respostas de apoio baseadas nos recursos comunitários.

A tensão emocional de quem trabalha na primeira linha não deve ser vista, unicamente, como responsabilidade do indivíduo. As organizações têm de criar condições que promovam a capacidade de resistência aos indivíduos e equipas, perante os desafios que têm surgido – e a capacidade de reinventar sistemas, bem como tarefas ou operacionalização das mesmas, acaba por ser uma realidade que temos constatado, mas, por vezes, não lhe atribuímos o devido valor. É este “valor acrescentado” que nos torna (enquanto pessoas, comunidades e organizações/empresas) mais robustos, resilientes e capazes de enfrentar os novos desafios como um caminho de aprendizagem contínua e coletiva.

Quando se faz intervenção psicológica na crise e na catástrofe, chegando ao local e apesar de não se prever quais as pessoas que passaram por situações extremas no seu passado, sabemos que, à priori, irão apresentar sintomas psicológicos exuberantes, após algum tempo da ocorrência do primeiro incidente. Podem observar-se sintomas de ansiedade muito elevada, despersonalização, medo intenso ou horror, completo alheamento do contexto onde se encontra, revelar pensamentos ou imagens intrusivas.

A ativação extrema de sintomas é mais frequente durante o curso dos incidentes (a que chamamos de “momento zero”), ou imediatamente após o evento disruptivo de vida. Poderá haver situações que a pessoa possa associar ao evento vivido, como sonhos perturbadores ou flashbacks, que podem provocar reações comportamentais intensas. Um ambiente que seja desconhecido e com ausência de percepção de controlo da realidade (como aquele que tem estado a acontecer com as cheias) pode agravar sintomas que ficaram encobertos, devido aos incêndios florestais, por exemplo. Porque somos um só, e a narrativa das nossas vidas é um contínuum, é natural que existam “reativações” emocionais, cognitivas, comportamentas ou fisiológicas, quando temos um novo desafio pela frente: é por este motivo tão significativo que devem existir, na primeira linha e desde os primeiros momentos, psicólogos preparados para fazer intervenção psicológica na crise, recorrendo a técnicas específicas e previamente apreendidas.

Cada pessoa que lidou com o evento disruptivo de vida precisa estar atenta, informada, consciente do que mudou nos seus comportamentos-base e daqueles com que lida diariamente.

Cuidar de nós mesmos, em consciência, no “aqui e agora”, é vital para que possamos estar totalmente presentes para os outros quando se encontram em dificuldades, ou precisam de saber quem é um bom “contentor de emoções”. Será quem sabe acolher, escutar ativamente, mostrar-se interessado, não impor a sua opinião, não fazer juízos de valores, nem querer forçar a pessoa que se apresenta em sofrimento a tomar decisões que podem ser precipitadas.

Cada pessoa possui recursos internos para enfrentar os desafios da vida. Família, amigos, necessidades básicas, conforto físico e outros fatores positivos das nossas vidas protegem-nos quando enfrentamos tensões e contribuem para nossa resiliência.

As necessidades de quem disponibiliza ajuda são muito semelhantes às das pessoas diretamente afetadas. Um ambiente de trabalho favorável é um dos muitos fatores essenciais para minimizar a tensão vivida durante uma situação de exceção.

Disponibilizar primeiros socorros psicológicos de forma eficaz envolve comunicação de apoio, bem como cuidados gerais e ajuda prática. Porque, embora comuniquemos e interajamos uns com os outros, todos os dias, os momentos críticos exigem respostas diferenciadas e simplificadas (não simplistas!), que incluem mostrar empatia, cuidado e preocupação, ouvir com atenção e sem julgamento, sem esquecer de manter a confidencialidade.

Algumas estratégias para ajudar na autorregulação emocional

  • Lembrar que as reações são naturais e inevitáveis.
     
  • A automotivação para trabalhar novas competências pode ser fonte de resiliência.
     
  • Manter expectativas realistas é uma parte significativamente estruturante do autocuidado.
     
  • Aprender técnicas que, individualmente, façam sentido, para uma boa gestão da ansiedade e para levar a positivas estratégias de bem-estar antes, durante e depois dos eventos que podem trazer disrupção à nossa vida.
     
  • Descrever o que pensou, ou sentiu, durante o evento crítico, é útil para expressar os sentimentos, e porque se torna difícil de se concentrar em mais obrigações, após viver um momento exigente.

Dicas de autocuidado

• Se passar por um evento crítico, conversar com alguém sobre o que pensa e sente, pode ajudar a processar e pacificar-se com quaisquer experiências desagradáveis.

• Descansar e dormir o suficiente.

• Limitar a ingestão de álcool e tabaco.

• Fazer exercício físico.

• Comer alimentos saudáveis ​​e manter horários regulares para as refeições.

• Manter contacto com a sua rede de suporte social e familiar.

• Falar sobre as suas experiências e sentimentos (mesmo aqueles que parecem assustadores ou estranhos) com colegas ou uma pessoa de confiança.

• Ouvir o que os outros dizem sobre como determinada situação os afetou e como lidam com o problema. Nessas conversas podem ser partilhadas ideias úteis.

• Expressar sentimentos por meio de atividades criativas, como desenhar, pintar, escrever ou tocar música.

• Jogar e reservar tempo para se divertir.

• Conscientemente, tentar relaxar fazendo coisas de que gosta, meditação ou ioga.

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