As aplicações que monitorizam as rotinas dos bebés multiplicam-se e conquistam sobretudo os pais mais jovens. Especialistas reconhecem a utilidade destas ferramentas nos primeiros tempos de vida, mas avisam que o excesso de registos e de informação pode desviar a atenção do essencial: observar, conhecer e responder aos sinais da criança. E há exemplos de como, usadas com parcimónia, as apps podem ser grande ajuda na gestão familiar
Inês Silva e Pedro Pinheiro já não são pais de primeira viagem. Na verdade, já vão no terceiro filho. A Laura tem 10 anos, a Luísa tem quatro e o João tem dois. Ela é arquiteta e ele instrutor de judo, os horários são “completamente díspares” e eles aproveitam isso a seu favor. “Revezamo-nos e temos conseguido ficar com eles em casa até aos dois anos”, conta Inês.
Confessam que o desenvolvimento tecnológico os tem ajudado a gerir “as coisas do bebé” e recorrem a uma aplicação para “passar trabalho”. “Como, às vezes, mal temos tempo para falar um com o outro, dá jeito para ter registado a que horas o João comeu, dormiu e se fez cocó”, revela.
“Mas só registamos mesmo isso. O João esteve internado quando tinha um mês e, nessa altura, apontava também quando ele tomava medicação e quando eu tirava leite. Mas, à medida que vão crescendo, sinto que usamos cada vez menos”, acrescenta.
Inês e Pedro dizem que, embora já tenham usado esta aplicação com a filha do meio, nunca se deram ao trabalho de explorar tudo o que a aplicação consegue fazer, mas sabem que “dá gráficos e estatísticas de tudo, percentis de crescimento, hora previsível para o bebé adormecer, a hora a que deve comer e até o tempo que está a chorar por dia”. “É um exagero”, remata Inês.
O pediatra Pedro Sampaio Nunes conta que nem todos os pais da geração Z e alguns mais jovens da geração Y fazem uma utilização tão saudável destes recursos. E que isso se reflete sobretudo nos casais mais novos. “Há uns anos, os pais na casa dos 20 ou dos 30 anos eram muito pouco stressados. Estava tudo bem e viviam a parentalidade com alguma descontração. Às vezes até em demasia. E os pais de 40 eram muito mais stressados. O paradigma mudou e agora é ao contrário. Usam muitos gadgets e aplicações para registarem tudo”, conta, sublinhando que “alguns são mesmo muito obcecados digitalmente”.
“Depois perdem o foco para o que é importante, que é dedicar tempo aos bebés, sem tecnologia, sem registos, só a olhar para eles, a senti-los e absorver os seus sinais”, sublinha.
A psicóloga Isa Silvestre relata que, na sua prática clínica, também já se tem deparado com situações em que a tecnologia é “utilizada por alguns pais de uma forma obsessiva”. “Ela deve servir para apoiar os pais, mas não deve substituir a capacidade de observar e de captar os sinais que o bebé dá. Colocar na tecnologia a capacidade de fornecer informações e todas as respostas está a pôr em causa a autoeficácia parental que é suposto os pais irem desenvolvendo com o tempo, à medida que o bebé cresce. Educar uma criança é viver na incerteza e aceitar que ela existe”, diz a psicóloga.
“O que está a acontecer é que o bebé chora e, muitas vezes, a primeira reação é abrir a aplicação e procurar uma resposta ou um significado para aquele choro.”
Os riscos para pais e filhos
Isa Silvestre alerta para o impacto que a utilização mais dependente das aplicações para registar as rotinas dos bebés pode ter na saúde mental dos próprios pais. A especialista diz mesmo que o abuso pode levar a situações extremas de burnout parental. “O impacto é gigante. Fala-se muito da exaustão emocional e física e até mental e o excesso de controlo pode conduzir a situações dessas. Temos competências para tratar dos nossos filhos e temos a sensação de que não”, diz.
“Se o início da maternidade já é exigente por causa da privação de sono, de tudo o que não controlamos, acresce a pressão da tecnologia e da informação. Isso, inconscientemente, está a afetar a tranquilidade dos pais. E é preciso as crianças terem pais emocionalmente disponíveis”.
Pedro Nunes conta mesmo que já lhe aconteceu estar diante de pais que “pesam as fraldas dos bebés e registam o peso do xixi que o bebé fez”. “Isso dá um desgaste físico e intelectual muito grande. O bebé recém-nascido é literalmente um contínuo emocional daquilo que são os pais. A minha avó, que era parteira da aldeia, dizia que pais stressados dão bebés stressados. E os bebés destes pais tecnologicamente exaustos são mais irritados, têm mais cólicas, mais choro. São os chamados bebés difíceis”, revela.
Quando é que começa a ser demais?
Isa Silvestre e Pedro Sampaio Nunes reconhecem que as aplicações de controlo de rotinas dos bebés podem ajudar e muito os pais. “Sobretudo no início, quando o bebé ainda não atingiu o peso de nascido e é preciso controlar mamadas e xixis, para saber se está a mamar bem”, exemplifica o pediatra.
A psicóloga sublinha que o problema está “no exagero” e enumera alguns sinais de que é necessário colocar um travão e viver mais do instinto materno e paterno. “Quando estamos a ficar muito ansiosos é sinal que preciso de ajuda. Quando eu não consigo autorregular as minhas dúvidas e tenho de recorrer a uma aplicação, é sinal de que preciso de ajuda. Quando o bebé chora e eu sinto que não estou a ser capaz de me autorregular para ajudar o meu bebé é sinal de que preciso de ajuda”, diz.
A vasta oferta
Inês e Pedro utilizam uma aplicação Baby Daybook. Mas a oferta é muito vasta.
Sprout Bebé +
Esta aplicação só está disponível para iPhone. Permite criar diários de registo para sono, alimentação, crescimento, medicação e vacinas do bebé e organizar as visitas ao médico
Amamentação - Diário do bebé
Serve para organizar a amamentação, registando o horário e a duração das mamadas. É possível também ativar alertas, que avisam quando está na hora do bebé comer e ajuda a saber de que mama a mãe deve começar a amamentar em cada mamada. Está disponível para Android e iPhone.
Baby Tracker
Serve para registar hábitos e rotinas e controlar alimentação, troca de fraldas e padrões de sono. Permite ainda partilhar informações importantes do bebé com médicos e outros cuidadores do bebé que utilizem a aplicação. Disponível para Android e phone
Depois, há ainda ofertas direcionadas para funções específicas: a BabySparks oferece atividades de desenvolvimento para bebés dedicadas a cada fase; a Sound Sleeper tem toda uma panóplia de sons para ajudar a acalmar o bebé, assim como a Baby Sleep Sounds; já a Baby Monitor 3G é uma aplicação de monitorização, que transforma dois dispositivos (telemóveis ou tablet) num intercomunicador.
O excesso de informação
Isa Silvestre, que também tem uma filha com três anos, ressalva que “os pais são cada vez mais atentos e mais preocupados com os seus filhos”. “Atentos mesmo a questões que os pais de antigamente não estavam”, considera.
E isso, diz, é o lado bom da facilidade em aceder a informação que atualmente se tem. Mas também no que diz respeito a este aspeto o risco vem quando há sobre-exposição. “Tem muito a ver com que vemos nas redes sociais. E cada vez vemos mais coisas nas redes sociais. E às vezes deixamos que isso afete a nossa confiança parental. As únicas pessoas a quem devemos dar ouvidos, além do nosso instinto são os profissionais de saúde. Quando escolhemos um psiquiatra, um psicólogo, é nesse profissional que temos de depositar a nossa confiança e não na informação que vamos buscar às redes sociais. Com os pediatras devemos fazer o mesmo”.
Pedro Sampaio Nunes considera que, além de muito dependentes da tecnologia, os pais da geração Z e alguns mais jovens da geração Y são “muito mais preocupados com tudo” precisamente por causa da informação em excesso. “Mais do que as apps e uso de tecnologia, existem grupos de WhatsApp a mais. As informações nas redes sociais são muitas e não são filtradas. Os pais consomem redes sociais a mais onde há informação extrapolada”, denuncia.
“Tenho pais que me chegam à primeira consulta de recém-nascido, com consulta de osteopatia e de ortodontia, por exemplo, já marcadas ainda antes do bebé nascer. Quando eu pergunto a razão, dizem-me que é para aliviar as tensões do bebé e avaliar o freio da língua. E nunca se cortaram tantos freios como agora”, exemplifica Pedro Sampaio Nunes.
O pediatra concorda com a psicóloga e diz que os jovens pais não são os únicos culpados. “A culpa é também de alguns dos meus colegas. Alguns médicos menos confiantes fomentam muito isto nos pais”, lamenta
