Os narcisistas tendem a ser excluídos dos círculos sociais devido aos seus comportamentos disruptivos. E, se se sentirem à parte, vão acabar por intensificar os comportamentos arrogantes e agressivos, sugere um novo estudo
Se não conhece pessoalmente um narcisista, provavelmente consegue pensar em alguns políticos ou celebridades que têm falta de empatia ou anseiam por constante admiração.
Os narcisistas grandiosos, também conhecidos como narcisistas óbvios, são particularmente conhecidos pelo seu exagerado sentido de autoimportância e pela incessante necessidade de atenção – são traços que podem corresponder à descrição de alguém que lhe veio agora à mente.
Ao contrário dos narcisistas encobertas, que mascaram o seu comportamento com autocomplacência, os narcisistas grandiosos dependem do charme e da manipulação para conseguirem ter sucesso e prosperar.
Um novo estudo apurou recentemente que os narcisistas grandiosos não só estão mais propensos a sentirem-se ostracizados, como também costumam ser mais excluídos do que aqueles que têm personalidades menos egocêntricas.
O estudo, publicado no Journal of Personality and Social Psychology, examinou 77 mil participantes, com recurso a outros estudos, bem como a experiências controladas e em contexto real, para identificar o motivo pelo qual os narcisistas experienciam níveis mais elevados de exclusão.
Como o narcisismo e a exclusão se alimentam um ao outro
Os narcisistas, de uma forma recorrente, exibem comportamentos disruptivos em contextos sociais. São disso exemplo comportamentos agressivos ou arrogantes, que aumentam as probabilidades de as outras pessoas acabarem por se afastar com o passar do tempo.
Estes indivíduos autocentrados são também altamente sensíveis ao estatuto social e a sinais ambíguos, tornando-os mais propensos a tomar consciência da exclusão, mesmo quando ela não está a ter lugar, diz o estudo.
“Há uma característica nas pessoas narcisistas, que é a sua sensibilidade. Por isso, se suspeitarem sequer de que estão a ser deixadas de parte, ficam extremamente conscientes disso”, refere a psicóloga clínica Ramani Durvasula, que trabalha a partir de Los Angeles e que trata pessoas com transtorno de personalidade narcisista. Esta especialista já escreveu vários livros sobre este tema, incluindo “It’s Not You: Identifying and Healing From Narcissistic People” [“Não És Tu: Identificar e Curar-se de Pessoas Narcisistas”, em tradução livre]. “Basta perceber um olhar ou não gostar de uma publicação nas redes sociais”, exemplifica.
Contudo, Durvasula, que não esteve envolvida no estudo, observa que esses comportamentos, percebidos pela pessoa narcisista como insultos, não tendem a ser intencionais – a outra pessoa pode estar pura e simplesmente demasiado ocupada para interagir com a publicação feita pela pessoa narcisista nas redes sociais ou olhar para o lado sem dar conta.
Contudo, quando os narcisistas reagem de forma exagerado a ações que percebem como exclusão, os amigos, a família ou os colegam podem começar a evitá-los, uma vez que o seu comportamento lhes gerou preocupação.
Para conseguir lidar com narcisistas, Durvasula recomenda uma estratégia conhecida como ‘desengajamento’, que consiste em eliminar de forma intencional o contacto ou interações. É frequente que os narcisistas encarem este comportamento como uma forma de exclusão, mas em muitos casos pode ser uma garantia para a saúde mental de quem tem de lidar com eles.
Essas ações, no entanto, criam um ciclo destrutivo, identificado no estudo, que acaba por explicar como o narcisismo e a exclusão se alimentam um ao outro.
Os narcisistas tendem a ver-se como vítimas quando se sente excluídos. Esta mentalidade de vítima acaba por intensificar os seus comportamentos antagónicos, afastando ainda mais as outras pessoas, refere Christiane Büttner, psicóloga na Universidade de Basileia, na Suíça e principal autora do estudo.
“Isto sugere que a exclusão não afeta apenas os narcisistas num momento específico. Pode moldar o desenvolvimento da sua personalidade de formas que perpetuam a exclusão no futuro”, completa.
Embora o novo estudo tenha examinado indivíduos com índices elevados nos testes de narcisismo, não se concentrou em específico nos indivíduos com narcisismo patológico, observa Durvasula. Esta especialista diz acreditar que os efeitos do narcisismo e da exclusão seriam ainda mais extremos em indivíduos com transtorno clinicamente diagnosticado de personalidade narcisista.
O estudo também descobriu que os indivíduos que apresentam uma rivalidade narcisista, ou seja, que veem os outros como concorrência, agindo de forma mais agressiva, têm maiores probabilidades de serem excluídos do que aqueles com altos níveis de admiração narcisista, ou seja, que procuram atenção e estatuto através da socialização, em vez de se isolarem, diz Büttner. Este padrão é particularmente comum em contexto de trabalho.
“Na verdade, as pessoas narcisistas têm uma perceção social natural, razão pela qual podem ser mais bem-sucedidas nas áreas de liderança e gestão”, refere Durvasula.
No entanto, os narcisistas, de uma forma geral, só utilizam esta habilidade quando lhes é benéfico, culpando os outros na maioria das situações.
Os narcisistas podem mudar?
É preciso uma abordagem aos comportamentos narcisistas logo em tenra idade. Esta abordagem proativa é desafiadora, uma vez que as escolas podem tentar aplicar políticas anti-bullying para contrariar tais comportamentos. Contudo, fora da sala de aula, a exclusão é mais difícil de controlar, aponta Durvasula, dando o exemplo de uma criança que não é convidada para uma festa de aniversário.
“Penso que as práticas anti-bullying também devem procurar evitar a exclusão, dando atenção à criança que pode não estar a adaptar-se bem aos colegas e monitorizando a situação”, completa Durvasula.
Se a criança não receber terapia para as suas características narcisistas, torna-se cada vez mais difícil para elas mudaram à medida que vão entrando na idade adulta. As tendências narcisistas podem intensificar-se com o tempo.
Para melhorarem, os narcisistas precisam de uma intervenção consistente através da terapia. Os terapeutas têm de estar atentos a traumas no desenvolvimento, ao ambiente da infância, a questões de apego emocional, bem como a quaisquer outros fatores psicológicos que podem ter moldado a sua personalidade narcisista, segundo Durvasula.
“Normalmente, a gota de água que leva uma pessoa narcisista à terapia é a tristeza ou a ansiedade, embora de uma forma frequente sejam associadas a algo que acontece fora da própria pessoa”, adverte Durvasula. “O meu chefe não é justo comigo, não consigo ser promovido, não tenho dinheiro suficiente, a minha esposa é má para mim”.
O treino de competências sociais ou a terapia cognitivo-comportamental podem ajudar os narcisistas a desafiar as crenças de que estão a ser excluídos. Realizar exercícios de respiração profunda ou meditar, reinterpretando os pensamentos negativos, pode ajudá-los a desenvolver ferramentas que lhes permitem lidar com a situação, evitando novas exclusões no futuro, refere Büttner.
Como lidar se tiver uma relação com um narcisista
O estudo examinou sobretudo casos de narcisismo no local de trabalho. Contudo, Durvasula avisa que lidar com uma pessoa narcisista num círculo familiar ou de amigos é, de uma forma geral, mais desafiador, devido ao envolvimento mais profundo na sua história emocional.
Quer tenha de lidar com uma pessoa narcisista no trabalho ou um contexto pessoal, Durvasula sugere a estratégia do ‘desengajamento’ empático, que lhe permite continuar a ser agradável e educado na presença dessa pessoa, mas sem sobrecarregar ou sacrificar o seu bem-estar mental para satisfazê-la.
Os narcisistas, tanto em contexto de trabalho como pessoal, acabam por criar desafios para os outros à sua volta, obrigando-os a gerir os seus comportamentos disruptivos e a assumir mais responsabilidades porque não se torna possível contar com eles.
Num contexto de trabalho, um dos exemplos é um colega que, numa equipa de cinco, não faz a sua parte. Os outros membros da equipa podem hesitar se confrontam essa pessoa, por medo da sua reação. E acabam por assumir a parte dessa pessoa narcisista, descreve Durvasula.
Os membros da família enfrentam desafios semelhantes, criando recorrentemente planos de contingência, para evitar problemas à última da hora, uma vez não podem contar com essa pessoa narcisista para cumprir os seus compromissos, como ir buscar alguém ao aeroporto.
Questionada se os membros da família devem cortar as relações com essa pessoa narcisista, Durvasula argumenta que é uma decisão pessoal. Há pessoas que podem precisar de cortar esses laços depois de terem tido experiências negativas. E há pessoas que podem tolerar melhor esse tipo de comportamentos durante anos – ou mesmo décadas.
