Este pode ser o caminho mais criativo para a saúde mental que já se tentou

CNN , David Allan
19 jun, 14:00
Ler livros (GettyIMages)

Um dos melhores conselhos amorosos que a minha amiga Genna me deu após o fim tumultuoso de uma relação de longa data foi escrever poesia.

Sentindo-me desesperado devido ao desgosto amoroso, eu estava disposto a tentar fosse o que fosse. Como Emily Dickinson sabiamente aconselhou:

“Não sei quando virá o amanhecer

Por isso abrirei todas as portas“.

Escrevi mais de uma dezena de poemas nas semanas seguintes. Artisticamente falando, eram de fraca qualidade, mas sendo uma ferramenta para processar as fortes emoções de um período difícil, os poemas serviram de grande ajuda. Escrevê-los foi catártico e, por vezes, revelador.

Muitos anos depois - e com o coração completamente curado, afirmo-o com todo o gosto – uma nova investigação científica sobre o potencial do bem-estar da poesia sustenta a minha experiência pessoal.

Interessado na eficácia da poesia no combate da solidão, sobretudo no período inicial de isolamento da pandemia da covid-19, David Haosen Xiang e Alisha Moon Yi escreveram um artigo em 2020 no Journal of Medical Humanities, inspirado nas suas experiências em workshops de poesia.

Xiang e Yi, ainda estudantes na Escola de Medicina Harvard e no Harvard College respetivamente, citaram inúmeros estudos (alguns com uma pequena amostra, devo dizê-lo) que demonstraram os vários benefícios de saúde através da leitura, da escrita, da audição de poesia e não-ficção criativa.

Os autores referiram que ficou provado que combatem os sintomas de stress e depressão e também reduzem a dor crónica e pós-operatória.

Também ficou provado que a poesia melhora o humor, a memória e o desempenho profissional.

À parte, um estudo de 2021 publicado pela Academia Americana de Pediatria apurou que num grupo de 44 crianças hospitalizadas, que foi encorajado a ler e escrever poesia, houve uma redução do medo, da tristeza, da raiva, da preocupação e da fadiga.

A poesia era uma boa distração para o stress e uma oportunidade para a autorreflexão, concluíram os peritos.

O poeta declamador Sekou Andrews demonstrou o poder que as palavras podem ter em situações difíceis, quando nos sentimos em baixo, na recente conferência Life Itself, um evento de saúde e bem-estar, apresentado em parceria com a CNN.

Numa apresentação de “voz poética”, ele partilhou uma história com a plateia sobre a luta dele e da mulher com a infertilidade e a perda. Como Andrews explicou em palco:

Tudo o que a inspiração realmente é, é um olho mágico de possibilidades

Há uma parede e, subitamente, algo a abala, a perturba

E uma fissura surge

E há um poder em simplesmente poder dizer:

Estou a ver!

“Quer seja lidar com o sofrimento, com situações de stress ou com a incerteza, a poesia pode ajudar no bem-estar, na confiança, na estabilidade emocional e na qualidade de vida do doente,” escreveram Xiang e Yi.

Por que razão a poesia é especial

A capacidade da poesia de dar conforto e aumentar a boa disposição durante períodos de stress, trauma e sofrimento poderá ter muito que ver com enquadramento e perspetiva.

Enquanto dispositivo criativo, os poemas reduzem a nossa reação a uma experiência e podem alterar a nossa perceção dela de formas que nos ajudem a encontrar novos ângulos e a ir mais longe. Pode reforçar o nosso sentido de identidade e nos ligar a experiências de terceiros para fomentar empatia.

“Eu digo sempre que não contratamos o poeta para chegar ao âmago da questão”, explicou Andrews num e-mail. “Contratamos o poeta para sussurrar ao nosso ouvido, para nos dar uma palmadinha no ombro, para nos fazer virar e ver uma versão nossa que é inesperada, surpreendente e inspiradora.”

Este veículo de suporte também tem uma forma única de chegar ao cerne da questão – “A poesia é a verdade nas suas roupas de domingo”, escreveu o poeta francês Joseph Roux – pelo facto de as metáforas e as imagens serem particularmente adequadas para explorar e sintetizar emoções.

“E a natureza abstrata da poesia pode facilitar um olhar mais atento a experiências dolorosas, que nos poderão parecer demasiado ameaçadoras para serem abordadas de uma forma direta e literal”, escreveu Linda Wasmer Andrews num artigo sobre a prática da terapia da poesia no Psychology Today.

A poesia poderá também poderá provocar respostas emocionais acentuadas. Num estudo de 2017, os investigadores avaliaram as respostas psicofisiológicas de 27 pessoas (como arrepios ou calafrios) ao ouvirem a declamação de poesia. Essas respostas físicas estão ligadas à área de deteção de recompensas do cérebro, explicou o estudo.

No seu poema “For The Interim Time”, John O’Donohue descreve este tipo de alquimia cerebral:

“O que está a ser transfigurado aqui na mente

E é difícil e lento de se tornar novo

Quanto mais fielmente aguentarmos aqui

Mais refinado se tornará o nosso coração

Para a chegada de um novo amanhecer”

Mais poesia na nossa vida

Ler, escrever e ouvir. Essas são as principais opções para infundir a nossa vida com mais poesia.

Para se expor a coisas novas, assista a noites de “microfone aberto” (virtual ou pessoalmente) ou tente o podcast diário (e curto) de poemas, The Slowdown, produzido pela American Public Media e pelo Fundo Nacional para as Artes, ou subscreva a sua newsletter. Também há outros podcasts de poesia.

E tente uma coleção acessível. O ator John Lithgow compilou uma introdução no livro “The Poet’s Corner: The One-and-Only Poetry Book for the Whole Family”. Pessoalmente, eu gosto muito de Shel Silverstein, Mary Oliver, Maya Angelou, Sharon Olds e John O’Donohue, se quiser aprofundar mais um poeta e estar perpetuamente entretido e esclarecido.

E para escrever poesia não é preciso uma formação para começar. Pode tentar vários estilos (como haiku) e experimentar. O site Read Poetry tem um guia cativante para alguns exercícios criativos, que poderá achar inspiradores.

“Escreva e pronto. Declame. Não se preocupe que seja muito bom, vai lá chegar. Primeiro, que seja bom para si”, disse Andrews.

Independentemente do seu empenho, comece apenas e sinta aquilo de que precisa. Ou como o poeta Billy Collins escreveu em “Introduction to Poetry”:

“… caminhe dentro do quarto do poema

e apalpe as paredes em busca de um interruptor de luz”.

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