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“Estar bem é conseguir viver com o que sentimos. Mesmo quando não é confortável”

10 jun, 08:00
Mafalda Rodrigues e Mariana Caldeira
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ENTREVISTA || Numa altura em que se fala cada vez mais de saúde mental, mas também se vive sob a pressão da perfeição, sob a ditadura da felicidade e sob a obsessão do sucesso, a atriz Mafalda Rodrigues e a psicóloga Mariana Caldeira partem da experiência pessoal e da prática clínica para refletir sobre ansiedade, culpa, vulnerabilidade, relações e autocompaixão. O ponto de partida é simples: aceitar a imperfeição para aprender a viver com ela

Mafalda é atriz e Mariana é psicóloga da Mafalda. Há quase três anos juntaram-se num podcast para falar de saúde mental. "(Im)perfeitamente" nasceu da partilha das vulnerabilidades de Mafalda Rodrigues e do olhar clínico de Mariana Caldeira. O podcast dá agora lugar ao livro "Sobreviver a Dias Imperfeitos", que procura desmontar ideias feitas sobre a perfeição e o que significa 'estar bem' e oferecer ferramentas para enfrentar os dias mais difíceis.

Numa conversa com a CNN Portugal, as autoras falam do processo criativo que resultou no livro e refletem sobre terapia, vulnerabilidade, expectativas irrealistas e sobre a forma como cada um de nós pode aprender a conviver melhor com a própria imperfeição.
 

Sobreviver a Dias Imperfeitos é um livro escrito a quatro mãos, pela atris Mafalda Rodrigues e pela psicóloga Mariana Caldeira. (Divulgação)

Como surgiu o podcast "(Im)perfeitamente" e depois o livro escrito a quatro mãos "Sobreviver a Dias Imperfeitos"?

Mafalda: Convidei a Mariana para fazermos um Podcast sobre saúde mental e ela prontamente aceitou. Claro que sabíamos que a nossa relação cliente/psicóloga poderia ficar comprometida, o que acabou naturalmente por acontecer. Mas o nosso propósito era maior: ajudar os outros. Há muita gente que não consegue ter acesso a consultas de psicologia, então a nossa ideia era podermos falar abertamente, debater temas e deixá-los ecoar em quem nos ouve. O livro surge num convite da nossa editora Contraponto, com quem a Mariana já tinha um livro “Tudo o que se passa aqui dentro”. O entusiasmo era real: iríamos transpor o nosso Podcast e eternizá-lo nas páginas de um livro.

A Mafalda expõe neste livro episódios e experiências pessoais (e até algumas fragilidades). Porque sentiu essa necessidade de tornar públicas as suas vulnerabilidades?

Mafalda: A partilha de sentimentos, de vivências, tem um poder terapêutico, quanto mais não seja para aquelas pessoas que acham que estão sozinhas, que são as únicas a passar pelas situações, que são elas o problema. O meu propósito com o livro foi desmistificar alguns temas, falar abertamente sobre feridas que carrego e fazer com que essas pessoas se sentissem menos sós.

E, de alguma forma, esse processo ajudou-a a si também?

Mafalda: Para mim também foi voltar a pensar e a reviver momentos difíceis, obrigou-me a voltar a sítios que se calhar de outra forma não teria voltado. Mas depois de ter feito terapia, já não volto da mesma maneira. Voltei com mais ferramentas e com uma consciência e aceitação diferentes.

O que é que torna realmente os seus dias imperfeitos, Mafalda?

Mafalda: Neste momento, um dia imperfeito para mim é um dia que acaba e percebo que poderia ter sido diferente, vivido com mais calma e paciência. Andamos na correria da vida e muitas vezes falta-nos espaço para de facto respirar e, muitas vezes, ativamos o piloto automático. Depois pensamos “passou mais um dia e outro e outro…” sem de facto viver. É pensar que poderia ter feito melhor numa ou noutra situação com os meus filhos, por exemplo.

Como foi o processo concreto de escrita deste livro a quatro mãos?

Mafalda: A Mariana analisa e esclarece os leitores a partir da minha vivência, então o processo funcionou desta forma: eu enviava a minha partilha para a Mariana, e ela analisava. No final de cada capítulo, a Mariana faculta práticas que nos ajudam a ter mais consciência destes processos que tantas vezes são inconscientes. Facilitou o facto de termos feito o processo terapêutico juntas, porque a Mariana, melhor que ninguém, já conhecia a minha história e as minhas nuvens. Claro que havia semanas de capítulos mais difíceis, em que a Mariana se ia adiantando no tema e tentava que eu não caísse no meu auto-boicote. Foi muito importante esta força que fui recebendo dela desde o início e foi também o que me fez sempre querer cumprir com os prazos.

Foi um processo demorado?

Mafalda: Escrevemos o livro em 10 semanas. Da minha parte tive como base o nosso processo terapêutico e os diários que fui tendo ao longo da vida, que reli e muitas vezes, transcrevi.

Ǫual a estratégia que consideram mais eficaz para enfrentar dias imperfeitos?

Mafalda: Acho que passa muito por nos centrarmos nas pequenas coisas. Por olharmos para quem temos ao nosso lado e que nos pode, de facto, acolher. Falar sobre o que estamos a sentir, em vez de guardar tudo, e confiar que aquilo que hoje pesa… não fica assim para sempre. Ǫue as coisas mudam, que se transformam, e que, mesmo nos dias mais difíceis, há espaço para melhorar.

Mariana, como é que, na vida real, aplicam os ensinamentos que propõem no livro?

Mariana: Acredito que a forma mais honesta de responder é dizer que também nós estamos nesse processo. Este livro não parte de um lugar de “já sabemos fazer”, mas de um lugar de consciência. De percebermos melhor de onde vêm certas emoções, padrões e dificuldades, e de tentarmos, na vida real, fazer escolhas mais alinhadas com isso.

Enquanto psicóloga, qual foi a sua principal preocupação ao transformar conceitos clínicos em linguagem acessível no livro "Sobreviver a Dias Imperfeitos"?

Mariana: A minha principal preocupação foi garantir que quem lê se sente compreendido. Ǫue se reconheça naquilo que está a ler, sem sentir que a sua experiência está a ser simplificada, reduzida ou invalidada.

O que define, na prática, um ‘dia imperfeito’ do ponto de vista psicológico e emocional?

Mariana: Um dia imperfeito, do ponto de vista psicológico, não é necessariamente um dia em que algo corre mal. É, muitas vezes, um dia em que não conseguimos corresponder às expectativas que temos sobre nós próprios. Um dia em que sentimos que falhámos, que não fizemos o suficiente, que não fomos aquilo que “devíamos” ser. Mas a verdade é que a imperfeição não está no dia em si. Está na forma como nos lidamos com aquilo que acontece.

Ǫuais são os erros mais comuns que as pessoas cometem ao lidar com emoções difíceis?

Mariana: Um dos erros mais comuns é tentar evitar ou controlar as emoções, em vez de as compreender. Muitas pessoas cresceram a acreditar que sentir é um problema, que certas emoções são negativas ou que devem ser rapidamente resolvidas. E isso leva a estratégias como ignorar, racionalizar em excesso ou desvalorizar. Outro erro frequente é invalidar aquilo que sentimos (“não tenho motivos para estar assim”), o que acaba por aumentar ainda mais o nosso sofrimento. As emoções difíceis não desaparecem por serem evitadas, bem pelo contrário.

Como distinguir entre um mau dia e um sinal de algo mais profundo?

Mariana: Um mau dia é algo pontual. Está ligado a um momento, a um contexto específico, e tende a passar. Ǫuando estamos perante algo mais profundo, aquilo que sentimos deixa de ser ocasional e passa a ser recorrente, começa a repetir-se ao longo do tempo e a afetar diferentes áreas da nossa vida.

Se a Mariana pudesse corrigir uma ideia errada que as pessoas têm sobre ‘estar bem’, qual seria?

Mariana: Há muitas pessoas que acreditam que estar bem é não sentir ansiedade, tristeza ou dúvidas. Mas, na verdade, estar bem é conseguir viver com aquilo que sentimos, mesmo quando não é confortável.

Depois do podcast e do livro, mudaram a forma como vocês enfrentam dias difíceis?

Mafalda: Não diria depois do Podcast e do Livro, porque acredito que são prolongamentos do nosso trabalho terapêutico, mas sim depois da terapia. Ao termos consciência sobre os nossos gatilhos, aquilo que nos pode fazer explodir, o que vivemos e não ficou bem resolvido, o que não dissemos e queríamos ter dito, o que não fizemos… toda essa bagagem pesada, se não vamos tirando de cima dos nossos ombros, torna-se muito difícil carregá-la. A terapia ajuda a sermos melhores, connosco e com os outros.

Existem dias perfeitos ou são só uma espécie de utopia?

Mafalda: Acho que os dias perfeitos são mais uma ideia do que uma realidade. Porque mesmo nos dias que correm bem, há sempre algo que falha, que não corresponde exatamente ao que imaginámos. E isso faz parte. E, muitas vezes, quando deixamos de procurar a perfeição, começamos a conseguir estar mais presentes no que o dia realmente é.

Há uma tendência crescente para falar de saúde mental. Sentem que isso tem sido feito de forma correta?

Mariana: Acho que há algo muito positivo a acontecer: nunca se falou tanto de saúde mental como agora. E isso permite que mais pessoas se reconheçam, façam perguntas e procurem ajuda. Ao mesmo tempo, há desafios. Por vezes, a saúde mental é comunicada de forma muito simplificada, quase como se existissem respostas rápidas para processos que são, por natureza, complexos. E isso pode criar a ideia de que tudo se resolve com pequenas mudanças, quando, na realidade, muitas situações exigem tempo, profundidade e acompanhamento.

Se pudessem dar apenas uma dica para ‘sobreviver a dias imperfeitos’, qual seria?

Mariana: Não lutes contra o dia que estás a ter. Há dias em que não vamos estar no nosso melhor e talvez “sobreviver a dias imperfeitos” seja isso: ajustar as expectativas, abrandar o ritmo e ter muita autocompaixão.

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