A difícil arte de educar um filho sem "receitas prontas". "O ser humano é tecido por fios muito finos e delicados"

25 jan, 08:00
Catarina Perpétuo

Entre a culpa, a dúvida e a avalanche de informação sobre parentalidade, muitos pais sentem-se perdidos e insuficientes. Em "Filhos, Haja Quem os Entenda!", a psicóloga e psicanalista Catarina Perpétuo propõe um caminho diferente: menos respostas rápidas e mais compreensão profunda do desenvolvimento infantil, das relações e do mundo interno de pais e filhos

O que significa, no mundo de hoje, ser pai ou mãe num mundo acelerado, exigente e cheio de vozes contraditórias sobre como educar uma criança? Para Catarina Perpétuo, autora de "Filhos, Haja Quem os Entenda!", a parentalidade é um território inevitavelmente marcado pela dúvida, pela culpa e pela imperfeição. E isso, garante, não é um sinal de falha, mas de envolvimento.

A psicóloga clínica, doutorada em Psicologia do Desenvolvimento e psicanalista em formação, com trabalho clínico com crianças, adolescentes e famílias, escreve um livro dirigido aos pais que querem compreender melhor os filhos (e a si próprios enquanto pais) sem cair na armadilha das “receitas prontas”.

Numa conversa com a CNN Portugal, Catarina Perpétuo fala sobre as diferentes fases do desenvolvimento, sobre os mitos da parentalidade perfeita, sobre o impacto da cultura contemporânea e sobre a importância de pensar, em vez de agir por automatismo, e de sentir culpa na parentalidade. “Não é possível, nem desejável, eliminar a culpa por completo. A culpa pode ter uma função importante se for usada de forma construtiva: como um sinal que permite refletir, limar alguns aspetos e fazer diferente numa próxima ocasião, em vez de se transformar num sentimento paralisante ou num julgamento permanente sobre o próprio valor enquanto pai ou mãe”, diz a especialista.

"Filhos, Haja Quem os Entenda!" é, diz Catarina Perpétuo, um livro que não promete soluções mágicas, mas oferece algo talvez mais valioso: pensamento, palavras e confiança para educar em tempos de incerteza.

Em "Filhos, Haja Quem os Entenda!", Catarina Perpétuo não dá "receitas prontas", mas apela à reflexão individualizada dos pais (Imagem Divulgação)

O que é que a levou a escrever este livro?

Enquanto psicólogos que trabalham com crianças e adolescentes, o nosso papel é multifacetado. Precisamos de escutar as preocupações dos pais, oferecer-lhes suporte para que se sintam menos sobrecarregados e mais seguros e intervir terapeuticamente no melhor interesse da criança ou jovem que chega até nós com uma história, uma personalidade e sofrimentos específicos. Entre todas estas tarefas, acabamos por ter poucas oportunidades de aprofundar certos conhecimentos mais teóricos com os pais, sobre o desenvolvimento típico da criança e do adolescente. Isso cria a necessidade, por vezes, de ter livros de leitura próxima e acessível que lhes possamos recomendar.

Como psicólogos e psicanalistas, passamos muito tempo a ler, a estudar e a discutir, entre nós, livros escritos por outros psicólogos e psicanalistas sobre estes temas. No entanto, esses livros, escritos para profissionais da área, têm uma linguagem técnica complexa e pouco acessível ao público em geral. Ao longo dos anos, em várias conversas entre colegas, vinha surgindo a ideia de que a existência de um livro desta natureza seria útil para as famílias: por um lado suficientemente enraizado e rigoroso do ponto de vista teórico, mas por outro lado escrito numa linguagem acessível e prática, dirigida a pais. Essa foi a maior motivação subjacente à elaboração do livro, que se aliou de forma natural e espontânea ao convite feito pela Contraponto editores, em janeiro de 2023.

De todas fases (bebé, infância, adolescência), há alguma que acha mais desafiadora para os pais da atualidade? Porquê? E há alguma que seja mais fácil?

Uma vez que todas as fases têm os seus desafios, não considero que exista um período universalmente mais desafiador para todos os pais. Aquilo que é vivido pelos pais como mais desafiador varia em função das suas características, do momento da vida de cada um e daquilo que foi vivido na sua própria infância, com os seus pais. Desta maneira, pais para quem depender dos adultos da sua infância foi mais difícil por diversas razões, poderão sentir a dependência total inicial do bebé como um grande desafio e viver os primeiros meses com maior ansiedade. Não ter podido depender saudavelmente de um cuidador pode fazer com que seja difícil ser um cuidador de quem o bebé possa depender. Nos anos pré-escolares, a autonomia crescente e a necessidade intensa de exploração, quase sempre descuidada, da criança pode ser um grande desafio para pais muito preocupados com a segurança. Pais para quem a solicitação constante por atenção, a omnipotência infantil e a competição da criança com os adultos ou a necessidade de estabelecer limites claros for mais complicada, poderão também considerar esta fase um grande desafio. Pais que se angustiem mais com a falta de controlo, para quem a arrogância seja vista como um ataque ou para quem o afastamento seja sentido como uma ameaça à relação, terão mais dificuldades na altura da adolescência. Alguns pais lidam tranquilamente com a dependência total do bebé e ficam mais ansiosos quando a criança se começa a autonomizar. Para outros, a dependência é mais exigente e a autonomia é incentivada e recebida com maior serenidade.

Regra geral, a idade escolar (ou “idade da latência”), que vai dos 6/7 anos aos 10/11, é mais pacífica porque os conflitos relacionais diminuem na sua intensidade, a criança está investida nas rotinas e na aquisição de competências escolares, tem gosto por ser bem-comportada e valorizada por amigos, professores e familiares. Esta é a idade em que os papéis dos pais e dos filhos tendem a ser mais estáveis e previsíveis, sendo comummente vivida de um modo mais tranquilo.

No livro, afirma que “não oferece soluções rápidas para problemas complicados”. Isso conduz-me a três questões imediatas: Então, o que oferece este livro, porque os pais o devem comprar e em que os vai ajudar?

Este livro oferece aos pais dois pontos de apoio, a meu ver fundamentais. O primeiro é o “dar voz” ou “atribuir palavras” às suas angústias, dúvidas e questionamentos. Este processo de traduzir por palavras alguma coisa que é da ordem da angústia ou da dúvida é muito importante porque permite delimitar a incerteza, o que em si mesmo é tranquilizador. Ao delimitar a incerteza, ela fica identificada e perde o seu carácter difuso e (tão) intenso. O segundo ponto de apoio é oferecer de uma compreensão psicológica informada sobre essas dúvidas, como se fosse um mapa do mundo interno. Essa compreensão surge sempre com referência à dança relacional que marca o desenvolvimento conjunto dos pais e dos filhos, para que os pais possam tomar decisões informadas, conscientes e adaptadas à sua família.

Por que fez essa escolha de não dar “receitas prontas”? Porque não as há, na verdade?

Mais do que uma escolha, o “não dar receitas prontas” anuncia-se como a única possibilidade. O ser humano é tecido por fios muito finos e delicados, é altamente específico, sensível e permeável a um sem fim de influências. Saber disto contradiz a possibilidade de formular receitas ou instruções. Em primeiro lugar, porque induz as pessoas em erro acerca do papel do psicólogo, principalmente se for um psicólogo psicanalítico ou um psicólogo que também é psicanalista. O nosso papel é ajudar a pessoa a ser capaz de pensar de um modo profundo e dinâmico sobre as suas questões, num processo que facilita a autonomia e a constituição do papel parental, ao invés de pensar por ela. Em segundo lugar, porque aquilo que funciona num caso pode não funcionar no outro, porque todas as personagens envolvidas são diferentes: os pais, os filhos e as relações entre eles.

Vou dar alguns exemplos. Se eu desse, por exemplo, um conjunto de estratégias práticas para terminar rapidamente uma birra (nem sei se isso existe!), confrontar-me-ia desde logo com um problema: o de não saber o que os pais entendem por “birra”. Se a criança estiver, efetivamente, desregulada física e emocionalmente, pode ser benéfico introduzir um limite para que não se prolongue esse estado de ativação psicofisiológica por muito tempo. Mas essa criança, que está a fazer uma birra aos olhos dos pais, pode também estar simplesmente zangada, furiosa, e ser importante para ela poder viver essa zanga de uma certa maneira. Ou pode estar a comunicar um descontentamento mais profundo e tirar-lhe essa possibilidade é tirar-lhe a possibilidade de se expressar. Ou pode ainda estar a usar a fúria como uma forma estratégica de negociar com os pais. Algumas questões a abordar seriam: “De que birra estamos a falar?”, “Que criança é esta que faz a birra?”, “Para que está a servir a birra?”, “Que pais são estes que estão ali presentes?”.

Este exemplo é apenas o primeiro de infinitos outros. Se eu dissesse que as crianças devem aprender a pedir desculpa quando transgridem, isso poderia ser interessante para o desenvolvimento se eu tivesse a certeza de que a criança internamente experienciou a transgressão como tal e entende que deve pedir desculpa. Mas ensinar a pedir desculpa como uma fórmula universal pode ensinar a criança a dizer a palavra “desculpa”, o que não é o mesmo que pedir desculpa, se ela não o sentir. Se eu dissesse que é bom que as crianças só brinquem depois de fazer os trabalhos de casa, isso poderia ser organizador para algumas crianças; mas, para outras, com menor tolerância à frustração ou muito sobrecarregadas, pode ser sentido como uma tortura.

Cada situação é diferente. Pretender dar receitas aos pais seria como dar instruções a alguém por escrito sobre como construir uma casa sem saber em que terreno, em que espaço, com que materiais e com que ajudas na obra a pessoa a quereria construir. Não é um bom princípio. O trabalho do psicólogo é pensar e oferecer possibilidades de pensamento, não apresentar instruções fixas.

Como conciliou a linguagem técnica e científica com uma abordagem acessível aos pais leigos?

A questão da linguagem é muito importante quanto se trata de assuntos tão próximos de cada um de nós como as relações entre pais e filhos. Especialmente porque palavras como “ego”, “inconsciente”, “mania”, “complexo”, “ansiedade”, “trauma”, “fobia”, etc., que entram no vocabulário comum, têm outros significados na psicologia e na psicanálise. Estas palavras têm usos diversos nos dias de hoje, em que muitas pessoas diferentes - muitas sem autoridade científica ou prática - têm acesso a plataformas digitais para comunicar com o público.

Assim, torna-se fundamental falar com rigor e seriedade sobre estes assuntos, desfazendo equívocos, mas usando uma linguagem percetível e com a qual o público se possa relacionar. No caso de Filhos, haja quem os entenda!, esse exercício foi natural por ser ensaiado repetidamente nos diálogos com estudantes das licenciaturas em Psicologia e Educação Básica (ISPA) e com pessoas que não pertencem à “comunidade psi”, como pacientes, pais e famílias de pacientes, ou profissionais de outras áreas (Medicina, Educação, etc.), o que ajudou sem dúvida a agilizar a tradução do saber técnico em linguagem percetível.

Que mudanças culturais, sociais ou tecnológicas considera que mais influenciam os desafios da parentalidade atualmente?

A meu ver há três aspetos fundamentais, podendo haver outros ainda. O primeiro é o da centralidade da criança na vida familiar e social. Atualmente, a infância ocupa um lugar muito mais visível e valorizado do que em outras épocas no imaginário coletivo, o que se traduz num olhar familiar e social mais atento às necessidades das crianças. Existe uma preocupação crescente em compreender melhor o que é adequado a cada fase do desenvolvimento, desde o tempo e a importância do brincar, às formas de estabelecer limites, à questão dos castigos físicos, ao sono e à alimentação. Esta maior atenção reflete um maior investimento no bem-estar físico e psicológico das crianças. Ao mesmo tempo, porém, coloca também novos desafios aos pais, que se confrontam com uma grande quantidade de informação dispersa e proveniente de fontes não identificáveis, sendo necessário fazer um filtro dessa mesma informação.

O segundo aspeto nem sempre facilita a concretização do primeiro: a precariedade laboral e os ritmos de trabalho dos adultos na nossa sociedade. No geral, os pais vivem muito ocupados e preocupados com as exigências profissionais e com a estabilidade económica da família, o que reduz significativamente o tempo disponível para estar com os filhos. Este cenário é agravado pelo facto da família alargada, como os avós, estar hoje menos disponível, seja porque continua ativa no mercado de trabalho, seja porque, quando chega à reforma, a idade já não permite uma presença tão próxima e participativa como acontecia em gerações anteriores. Perante esta realidade, recorre-se frequentemente a centros de atividades, a atividades extracurriculares ou a diferentes formas de entretenimento, numa tentativa de compensar aquilo que é, em grande medida, irrecuperável: o tempo partilhado.

O terceiro aspeto relaciona-se com a forma como o tempo é hoje vivido de um modo muito imediato e com a valorização crescente de atributos externos. Privilegia-se o ter em detrimento do ser, a corporalidade em vez do pensamento, a ação em vez da reflexão, a exposição em vez da privacidade e aquilo que é confirmado externamente em vez do que é vivido internamente. Esta orientação cultural tem, a meu ver, um impacto significativo no desenvolvimento das crianças e dos jovens, influenciando a forma como constroem a sua identidade, regulam as emoções e atribuem sentido à experiência interna.

Na sua experiência clínica, quais são os erros mais comuns que os pais cometem atualmente?

O que se encontra na clínica com maior frequência diz respeito aos erros que os próprios pais acreditam estar a cometer. O desenvolvimento infantil e as relações familiares são muito complexos, o que torna difícil e muitas vezes redutor falar em termos de certo e errado. Muitos pais chegam à consulta com um sentimento persistente de insuficiência: receiam não ser suficientemente firmes e, ao mesmo tempo ou pelo contrário, de não serem suficientemente flexíveis e permissivos. O trabalho clínico passa, muitas vezes, por explorar estes receios e estas ideias de erro, que tendem a revelar medos mais profundos, como o de perder o amor dos filhos, de os frustrar em excesso ou de prejudicar o seu desenvolvimento emocional.

Mais do que corrigir comportamentos parentais específicos, parece-me fundamental ajudar os pais a compreender o que está em jogo nessas angústias, a tolerar a incerteza e a encontrar uma posição parental mais segura e ajustada à relação concreta que têm com os seus filhos.

Dizem que quando nasce um filho, nasce também a culpa dos pais. Na verdade, culpa e parentalidade andam de mãos dadas. Qual é o papel da culpa e da autoexigência na parentalidade moderna? E, já agora, como se lida com isso?

A ideia de que, quando nasce um filho, nasce também a culpa dos pais remete para a responsabilidade total que os adultos passam a sentir face a um ser profundamente dependente e para a intuição, muitas vezes muito viva, de que os cuidados prestados têm um impacto profundo no desenvolvimento da criança. Tornar-se pai ou mãe é, simultaneamente, uma experiência maravilhosa e aterradora. Na ausência de referências claras - ou, pelo contrário, na presença de referências muito rígidas e idealizadas sobre o que é “ser um bom pai” ou “uma boa mãe” - tendem a construir-se níveis elevados de autoexigência, frequentemente sob a forma de ideais inalcançáveis. Quando esses ideais não são atingidos, o que é inevitável, surge a culpa.

Muitas vezes essa culpa organiza-se em torno da sensação de se estar a repetir exatamente os modelos parentais da geração anterior ou, pelo contrário, de se estar a fazer tudo ao contrário do que os próprios pais fizeram.

Lidar com a culpa passa, antes de mais, por compreender de onde ela vem e por ajustar expetativas. Não é possível, nem desejável, eliminar a culpa por completo. A culpa pode ter uma função importante se for usada de forma construtiva: como um sinal que permite refletir, limar alguns aspetos e fazer diferente numa próxima ocasião, em vez de se transformar num sentimento paralisante ou num julgamento permanente sobre o próprio valor enquanto pai ou mãe.

Acha que existe um “mito dos pais perfeitos” que alimenta uma certa ansiedade parental em que vivemos? Como desconstruí-lo?

Creio que esse mito existe sempre. As pessoas constroem as suas próprias mitologias sobre o que é ser um “bom pai” ou uma “boa mãe” a partir da sua história pessoal, atravessada pelos seus medos, desejos e experiências precoces. Esses mitos não são necessariamente negativos: têm uma função organizadora, dão orientação e oferecem um sentido de direção. O problema surge quando se tornam rígidos ou idealizados, alimentando uma ansiedade constante. Desconstruir esse mito não passa por eliminá-lo, mas por torná-lo mais humano e flexível, aproximando-o da ideia de pais “suficientemente bons” de D. Winnicott, em vez de pais perfeitos.

Para reduzir os seus efeitos negativos, é importante construir uma confiança básica de que, apesar dos erros e das falhas inevitáveis, as coisas podem correr suficientemente bem. Isso implica reconhecer a própria subjetividade e a da criança, aceitar que cada relação é única e procurar compreender, ainda que de forma simples, como funciona a mente - a dos pais e a dos filhos.

 Finalmente, trata-se de aprender a tolerar a insegurança de não saber, sustentando a confiança de que o vínculo e o amor sobreviverão às imperfeições, aos conflitos e às inevitáveis frustrações do caminho.

Até que ponto os pais devem adaptar expetativas em relação aos filhos? E quando devem manter limites e exigências?

As expetativas dos pais podem ser muito benéficas quando ajudam a criança a ancorar-se na realidade, a compreender limites e a construir gradualmente a sua identidade. Elas funcionam como referências seguras, permitindo que a criança perceba o que é socialmente adequado e desenvolva competências importantes.

No entanto, essas expetativas deixam de ser saudáveis quando a criança sente (inconscientemente) que precisa de corresponder a desejos (inconscientes) dos pais ou de desempenhar funções que não lhe pertencem para se sentir amada. Por exemplo, sentir que não pode estar triste para não entristecer os pais; sentir que tem de ser boa em tudo para assegurar o amor dos pais; sentir que tem de ser a fonte de amor inesgotável dos adultos ou que tem de salvar a família da separação; sentir que não se pode zangar porque a zanga não é tolerada. Este tipo de exigência pode levar à construção de um “Falso Self”, ou de uma “personalidade como se”, que age de acordo com o esperado em vez de refletir o que sente realmente. O resultado é um sofrimento muito grande, um escasso autoconhecimento e escolhas de vida não alinhadas com aquilo que realmente a criança ou o jovem é, mas com o que acha que tem de ser para merecer o amor dos outros.

Por isso, é importante que os pais mantenham limites e exigências de uma forma equilibrada, permitindo que a criança expresse as suas emoções, individualidade e necessidades. Limites claros e consistentes, aliados a sensibilidade e apoio emocional, ajudam a criança a desenvolver a autonomia, segurança e um sentido de identidade sem se sentir obrigada a ser o que os adultos desejam que ela seja.

Como perceber atempadamente os sinais de sofrimento emocional em crianças ou adolescentes? Quando é urgente procurar ajuda?

Para perceber atempadamente os sinais de sofrimento emocional em crianças ou adolescentes, é fundamental estar atento ao que é característico de cada idade e às mudanças de comportamento que surgem na sequência de eventos difíceis (como a mudança de escola, o nascimento de um irmão, doença ou morte de familiar ou divórcio dos pais). Estas alterações que não se resolvem naturalmente com o tempo podem ser sinais de alerta.

Também é importante observar sinais corporais, já que o corpo muitas vezes comunica aquilo que a palavra não consegue expressar. Por exemplo, uma criança que alimenta muitas doenças somáticas (asma, infeções, inflamações, crises alérgicas), alterações na alimentação, no sono ou nas funções de eliminação (como urinar ou defecar) pode estar a manifestar sofrimento emocional.

Além disso, devemos estar atentos a sinais emocionais e comportamentais mais evidentes que muitas vezes são habilidosamente ocultados pelas crianças, tais como medos paralisantes, raivas descontroladas, angústia intensa de separação, grande agitação psicomotora, tédio e aborrecimento acentuados, isolamento social ou falta de interesse em interações com outras crianças da mesma idade, assim como insucesso escolar acentuado ou recusa escolar.

Perceber estes sinais atempadamente permite que se procure ajuda antes de se tornar urgente, o que é sempre preferível. A procura de apoio deve tornar-se urgente quando os sintomas são graves, persistentes ou interferem significativamente na vida diária da criança ou adolescente, quando há risco de autoagressão ou comportamentos de risco, ou quando os problemas começam a afetar a dinâmica familiar e social de forma intensa.

As famílias têm o apoio suficiente da escola, da comunidade, da sociedade e do Estado para educar os filhos?

Na minha experiência clínica, quando os pais procuram ajuda, os problemas que apresentam raramente se relacionam com a falta de apoio da escola, da comunidade, da sociedade ou do Estado. O que trazem refere-se, sobretudo, a dificuldades específicas na relação com os filhos, muitas vezes ligadas ao seu próprio mundo interno, às suas inseguranças e à forma como lidam com os desafios da parentalidade.

Claro que um ambiente externo de apoio faz diferença: uma escola atenta às necessidades das crianças, uma comunidade sólida com que se possa contar, uma sociedade que valorize o tempo em família e políticas públicas que permitam aos pais acompanhar de forma mais tranquila o crescimento dos filhos são fatores que ajudam significativamente. No entanto, os problemas parentais surgem, na maior parte das vezes, de fatores proximais - a dinâmica imediata da relação pais-filhos e a maneira como os pais interpretam, sentem e reagem a essas situações.’

Mesmo num contexto social e institucional ideal, a qualidade da relação e a forma como os adultos conseguem “digerir” as experiências e emoções ligadas à parentalidade são determinantes para o bem-estar da criança e para a eficácia educativa.

Que estratégias práticas recomenda para pais que sentem que perdem contacto com os filhos adolescentes, sobretudo quando vivemos num mundo minado pelas tecnologias e distrações?

Julgo que é importante perceber pelo menos duas coisas sobre a adolescência. Primeiro, trata-se de uma fase onde ocorre um enorme abalo identitário: as referências infantis perdem-se, porque os pais, que antes eram vistos como “super-heróis”, vão gradualmente assumindo um estatuto mais realista. Segundo, ocorre uma transformação corporal intensa, marcada pela emergência da sexualidade adulta. Neste contexto, algum afastamento dos pais não só é necessário como também inevitável.

As tecnologias e outras distrações não são responsáveis pelo afastamento, mas antes se oferecem como solução a um afastamento necessário. Os pais, então, precisam de compreender e aceitar este processo, mantendo uma supervisão à distância e renegociando os níveis de proximidade tolerados, tanto pelos pais quanto pelos filhos. Estratégias práticas incluem sobreviver às variações de humor, oferecer disponibilidade emocional mais do que uma presença física constante e encontrar um equilíbrio entre não se afastar demasiado (o que facilmente é sentido como um abandono) e o não se aproximar em excesso (o que facilmente é sentido como uma intrusão).

Aceitar que o adolescente precisa de espaço e autonomia, sem que os pais se sintam pouco amados ou demasiado zangados, é crucial para manter uma relação de confiança durante esta fase de desenvolvimento.

Que mensagem gostaria de deixar a pais e mães que vão ler o seu livro e se sentem perdidos?

Gostaria de dizer aos pais que sentir-se perdido é normal e faz parte do ofício de ser mãe ou pai. Ser pai significa, em grande parte, ser capaz de sobreviver a essa sensação de incerteza e de não ter todas as respostas. O livro pode ajudar a perceber onde se perderam e a compreender melhor os desafios que enfrentam.

Também serve para lembrar que não precisam de estar sozinhos nesse caminho. É possível procurar apoio profissional: psicólogos e psicanalistas qualificados estão disponíveis para orientar e acompanhar os pais. Por exemplo, a Sociedade Portuguesa de Psicanálise disponibiliza online uma lista de profissionais integrantes e seus contactos, todos com formação rigorosa e polivalente, que podem oferecer apoio confiável e ajudá-los a navegar pelas dificuldades da parentalidade. Pedir ajuda é uma forma de cuidar de si próprio e de oferecer aos filhos um acompanhamento mais seguro e atento.

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