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Demência pode chegar uma década mais cedo em homens com alto risco desta doença comum

CNN , Sandee LaMotte
15 dez 2024, 15:00
Barriga
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Um novo estudo descobriu que os homens com risco de doença cardíaca podem desenvolver demência até uma década antes do que as mulheres com um risco semelhante.

“A influência da doença cardiovascular na demência em homens uma década antes do que [o verificado] nas mulheres não era conhecida”, começa por dizer, numa resposta enviada por e-mail, o principal autor do estudo, o médico Paul Edison, também professor de neurociência no Imperial College London.

“Esta é uma descoberta nova com implicações significativas para a saúde”, vinca.

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, e as doenças cardíacas são a principal causa de morte nos Estados Unidos há mais de 100 anos, sendo também das principais causas de morte, mobilidade e invalidez em Portugal.

Os fatores de risco para doenças cardíacas incluem obesidade, diabetes, tensão arterial alta e colesterol, além do tabagismo, do consumo de muito álcool e não de se fazer exercícios adequados e dormir o suficiente, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA. Todas essas condições podem levar à doença dos pequenos vasos, o que pode afetar o fornecimento de oxigénio ao cérebro.

O impacto prejudicial do risco cardiovascular foi tão evidente em pessoas que não carregavam o gene APOE ε4 quanto naquelas que carregavam o gene, descobriu este novo estudo. O gene APOE ε4 é considerado o fator de risco mais forte para o desenvolvimento futuro da doença de Alzheimer em pessoas com mais de 65 anos. Ter uma ou mesmo duas cópias deste gene não garante que o Alzheimer se desenvolva, dizem os especialistas, por isso, manter um estilo de vida saudável pode ser extremamente importante.

“Modificar o risco cardiovascular pode prevenir a doença de Alzheimer”, adianta Edison, que também é chefe do Memory Research Centre no Imperial College London. “Os nossos resultados sugerem que isso deve ser feito uma década antes em homens do que em mulheres, independentemente se elas carregarem os genes de risco (APOE ε4) para a doença de Alzheimer”.

As descobertas do estudo são consistentes com a literatura existente, que mostra que níveis mais altos de risco cardiovascular podem estar associados a resultados neurocognitivos negativos, adianta, também numa resposta por e-mail, o epidemiologista Jingkai Wei, professor assistente de Medicina Familiar e Geral no Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, em Houston.

Wei, que não esteve envolvido neste novo estudo, fez uma investigação semelhante e descobriu que uma década de convivência com risco cardíaco estava associada ao baixo desempenho em testes cognitivos que mediam a função executiva, a velocidade de processamento e a memória imediata e tardia em homens e mulheres com mais de 60 anos.

Os resultados do novo estudo complementam os seus e sugerem que “uma saúde cardiovascular mais precária está associada tanto à pior função cognitiva quanto à patologia cerebral, ambas preditivas de demência”, explica Wei.

Barriga e gordura corporal aumentam o risco

O estudo, publicado na revista científica Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, analisou dados de mais de 34.000 homens e mulheres com idades entre 45 e 82 anos que forneceram exames abdominais e cerebrais ao UK Biobank, uma base de dados para estudos de saúde longitudinais sediada no Reino Unido.

Alguns participantes também foram submetidos a uma técnica de neuroimagem chamada morfometria baseada em voxel, ou VBM, para identificar a influência da gordura abdominal e visceral, que envolve os órgãos do corpo, na neurodegeneração cerebral.

“O uso do VBM tornou as descobertas do estudo mais objetivas. Primeiro, evita especificar regiões de interesse com antecedência. Em vez disso, analisa o cérebro inteiro, o que torna os resultados menos tendenciosos”, acrescenta Wei.

Os resultados mostraram que os fatores de risco cardiovascular - juntamente com níveis mais altos de gordura abdominal e visceral - estavam associados a um menor volume de matéria cinzenta cerebral em todo o córtex cerebral em homens e mulheres. A matéria cinzenta é responsável por processar e interpretar informações, como explica Paul Edison, um dos mentores deste novo estudo.

As regiões mais vulneráveis ​​do cérebro, de acordo com o estudo, foram aquelas envolvidas na audição, visão, processamento de informações emocionais e memória - todas as áreas do cérebro que são afetadas no início do desenvolvimento da demência e da doença de Alzheimer.

Quando se trata de prevenir o declínio cognitivo, o momento certo pode ser fundamental, continua Wei, que continua: “Alguns estudos observacionais mostraram que fatores de risco vascular na meia-idade, como hipertensão, colesterol alto e obesidade, estão associados a um risco maior de demência, mas não na terceira idade”.

“Isso sugere que a meia-idade pode ser a janela de tempo chave para o desenvolvimento da demência e terapêutica para a prevenção da demência”, acrescenta, adiantando ainda que, por isso mesmo, “abordar os fatores de risco vasculares da meia-idade pode ser uma abordagem importante para reduzir o risco de demência”.

Como resultado, é essencial começar cedo e manter um estilo de vida saudável que reduza os fatores de risco vasculares ao longo da meia-idade. Isso significa controlar a tensão arterial, o colesterol e os açúcares no sangue, ter uma dieta saudável, manter-se fisicamente ativo e parar ou evitar beber muito e fumar.

“Além disso, as pessoas podem participar em atividades que exigem o envolvimento cognitivo. A chave é começar todas essas ações preventivas de forma proativa e cedo, e não esperar até à terceira idade”, acrescenta Wei.

A disparidade de género

Os homens pareciam ser mais suscetíveis a fatores de risco cardíaco entre as idades de 55 e 74, enquanto as mulheres são mais suscetíveis uma década depois, entre 65 e 74, descobriu este estudo. Mas porque é que isso acontece?

“Pode haver várias razões”, aponta Wei. “Estudos já feitos mostraram que, em comparação com as mulheres, os homens são mais propensos a ter um perfil mau de fatores de risco cardiovascular (hipertensão e colesterol alto) na meia-idade, e o nível tem sido suficiente para ser associado a uma saúde cerebral mais precária. Os homens também podem ser menos propensos a tratar fatores de risco vasculares”, acrescenta Jingkai Wei, médico e professor assistente de Medicina Familiar e Geral.

Diferenças nas hormonas sexuais também podem desempenhar um papel, acrescenta Edison, esclarecendo que nos homens a testosterona está ligada a níveis mais altos de lipoproteína de baixa densidade, ou LDL, e níveis mais baixos de lipoproteína de alta densidade, ou HDL, que aumentam as probabilidades de ter um ataque cardíaco.

“Os homens também têm níveis mais altos de hormonas que causam inflamação e uma probabilidade maior de desenvolver coágulos sanguíneos que podem contribuir para uma probabilidade maior de desenvolver doenças cardíacas, bem como acidente vascular cerebral”, explica Edison.

Os estrogénios nas mulheres, no entanto, “tem efeitos protetores, que reduzem os níveis de LDL enquanto aumentam os níveis de HDL”, continua Edison. “Após a menopausa, o risco de ter problemas cardíacos começa a aumentar nas mulheres. O efeito protetor do estrogénio pré-menopausa pode explicar porque é que as mulheres enfrentam problemas uma década depois do que os homens”.

Os homens também são mais propensos do que as mulheres a consumir dietas ricas em gorduras saturadas, sal e carne vermelha, bem como a consumir tabaco e álcool mais do que as mulheres, como diz o autor do estudo. Depois, há ainda a maneira como homens e mulheres carregam gordura nos seus próprios corpos.

“Os homens têm mais gordura (acúmulo) a revestir os órgãos internos [a chamada gordura visceral], enquanto as mulheres têm mais gordura ao redor da anca [a gordura subcutânea]”, diz Edison, alertando que “a gordura visceral está ligada a maiores probabilidades de ter um ataque cardíaco”.

Por todas estas razões, os homens podem precisar de abordar os fatores de risco cardiovascular, a gordura corporal e o peso mais cedo do que as mulheres, atira o investigador, em tom de conselho.

“A influência de problemas cardíacos e obesidade na degeneração das células cerebrais é sustentada e mais aparente ao longo de vinte anos em homens do que em mulheres”, esclarece ainda Edison, deixando um conselho final: “Modifique a sua dieta e estilo de vida para reduzir o risco de desenvolver problemas cardíacos e obesidade; isso reduzirá a probabilidade de desenvolver demência”.

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