A aterragem foi tão suave que a Ship 40 permaneceu aparentemente estanque e ficou a flutuar no oceano, em vez de afundar, como aconteceu com os protótipos anteriores
Os entusiastas da exploração espacial têm acompanhado a viagem inédita do mais recente protótipo Starship da SpaceX, que acabou por ficar a flutuar no Oceano Índico após o mais recente voo de teste da empresa. Agora, satélites captaram imagens impressionantes de embarcações a trabalhar para rebocar o foguetão de volta a terra.
A história da Ship 40 — como é designado este protótipo específico da Starship — começou a 24 de julho, com o lançamento do 13.º voo de teste totalmente integrado do sistema de foguetão, que inclui a nave superior, ou “ship”, bem como o propulsor Super Heavy, a parte inferior do foguetão responsável por lançar a nave da plataforma e colocá-la em direção ao espaço.
A SpaceX tem procurado aperfeiçoar a forma de fazer regressar a nave superior a uma aterragem controlada após o voo — uma capacidade considerada essencial para os planos da empresa de recuperar e reutilizar rapidamente estes veículos, o que poderá reduzir drasticamente os custos dos lançamentos.
A SpaceX não esperava recuperar a Ship 40.
No entanto, durante o voo de teste de julho, o veículo apresentou uma melhoria significativa em relação aos protótipos anteriores, mantendo operacionais os seis motores, conservando o controlo durante o violento processo de reentrada na atmosfera terrestre e realizando a aterragem na água mais suave de sempre no local previsto, segundo o porta-voz da SpaceX, Dan Huot. A amaragem foi um “cenário de sonho”, afirmou Huot durante a transmissão em direto da empresa.
A aterragem foi tão suave que a Ship 40 permaneceu aparentemente estanque e ficou a flutuar no oceano, em vez de afundar, como aconteceu com os protótipos anteriores. Um navio de recuperação da SpaceX, o Go Australis, permaneceu inicialmente junto do veículo.
A 28 de julho, o diretor-executivo da SpaceX, Elon Musk, confirmou que a empresa iria recuperar o veículo. Mais dois navios, os rebocadores noruegueses Normand Ranger e Skimmer Tide, juntaram-se entretanto à operação.
Imagens de satélite captadas no domingo e na segunda-feira pela Vantor, uma empresa de inteligência geoespacial sediada no Colorado, mostram a operação de recuperação, com uma pequena embarcação posicionada junto da Starship e um cabo preso ao nariz da nave. Não é possível perceber pelas imagens se o reboque já começou, mas dados de rastreamento marítimo da MarineTraffic indicavam, na segunda-feira, que o Skimmer Tide e o Normand Ranger navegavam a cerca de um nó e transmitiam que tinham capacidade de manobra limitada. O Go Australis separou-se dos restantes navios e regressa sozinho à Austrália.
A acompanhar o escudo térmico da Ship 40
A SpaceX fez um esforço concertado para analisar a Ship 40 em todas as fases da sua viagem. A empresa chegou mesmo a adiar o lançamento para garantir que as condições meteorológicas permitiam captar imagens detalhadas do aspeto da nave durante a descolagem.
Grande parte da atenção da SpaceX tem estado centrada na recolha de dados sobre o escudo térmico do veículo, um revestimento composto por mosaicos cerâmicos hexagonais concebido para proteger a Starship das temperaturas extremas a que as naves espaciais estão sujeitas durante a reentrada na atmosfera terrestre depois de atingirem velocidades orbitais, que podem ultrapassar os 28.000 quilómetros por hora.
Embora Musk tenha elogiado as melhorias no desempenho do escudo térmico, a SpaceX continua a enfrentar desafios de engenharia significativos para conseguir que o veículo permaneça intacto e pronto para ser lançado novamente num curto espaço de tempo.
Atualmente, nenhum foguetão no mundo dispõe de uma nave superior reutilizável de forma rápida. E o vaivém espacial da NASA demonstrou bem as dificuldades de voltar a utilizar rapidamente veículos que viajaram até ao espaço e regressaram.
Ainda assim, Musk indicou que o último voo de teste da Starship, em julho, foi tão promissor que a SpaceX poderá tentar recuperar a nave superior em terra firme já na próxima missão de teste. Não é claro quando ocorrerá esse voo, tendo Musk salientado que uma tentativa desse tipo dependerá da análise dos dados recolhidos.
Os grandes planos da Starship
Até ao momento, o programa de desenvolvimento da Starship da SpaceX acumulou uma combinação de sucessos e falhas explosivas — algumas delas potencialmente perigosas — ao longo dos últimos três anos.
Ao longo de 13 voos de teste, a SpaceX tentou fazer voar a Starship aproximadamente pela mesma trajetória suborbital, ao mesmo tempo que foi ajustando, redesenhando e encontrando soluções para os vários problemas identificados durante a campanha de testes.
O foguetão Starship — de longe o veículo de lançamento mais potente alguma vez construído, embora ainda não esteja operacional — já proporcionou conquistas impressionantes. Em 2024, por exemplo, a SpaceX conseguiu guiar o propulsor Super Heavy para uma aterragem segura nos enormes braços metálicos da torre de lançamento, marcando um passo decisivo na estratégia da empresa para recuperar e reutilizar todas as partes do foguetão.
Outros momentos representaram sérios contratempos: em 2025, duas naves Starship explodiram perto de ilhas habitadas a leste da Florida.
Mesmo depois de a SpaceX conseguir recuperar tanto o Super Heavy como a nave superior, continuarão a existir desafios importantes, incluindo encontrar uma forma de reabastecer o veículo enquanto este permanece em órbita.
A Starship é considerada fundamental para os planos de negócio de longo prazo da SpaceX. A empresa pretende desenvolver uma versão lunar da nave que possa ser utilizada pela NASA para colocar astronautas na Lua. Entre os restantes objetivos futuros para este sistema de lançamento contam-se o transporte de satélites Starlink e de centros de dados de inteligência artificial, bem como, futuramente, levar os primeiros seres humanos até Marte, segundo Elon Musk.
