Ana Paula Arnaut, professora catedrática da Universidade de Coimbra e especialista em José Saramago, diz-se "chocada" com a proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais que tira o Nobel português da lista de escritores obrigatórios no 12.º ano. A Associação de Professores de Português defende o "mestre da ironia" Mário de Carvalho, eventual substituto, mas não descarta recuar se a consulta pública aos autores assim o ditar
Um “disparate” que a deixa “chocada”. É assim que reage Ana Paula Arnaut à proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais enviada às escolas pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), na última sexta-feira, e lançada para consulta pública, de retirar José Saramago da lista de autores obrigatórios no 12.º ano de escolaridade. A docente da Universidade de Coimbra e especialista em José Saramago teme que o autor de “Memorial do Convento” e de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” esteja de novo a ser alvo de “censura”, mais de 30 anos depois.
“O que me parece estar aqui em cima da mesa é um tipo de censura semelhante àquilo que foi feito em 1991, aquando da publicação de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, tendo em conta o ateísmo conhecido de José Saramago”, diz Ana Paula Arnaut à CNN Portugal.
A professora universitária tenta adivinhar as razões por trás da proposta: “Se a ideia era retirar a obrigatoriedade de Saramago, porque era difícil para os alunos, vão dificultar ainda mais a vida de alunos e professores, porque o romance de Mário de Carvalho proposto em alternativa é extremamente denso e complexo.”
Com obra escrita sobre José Saramago e teses também sobre Mário de Carvalho, Ana Paula Arnaut faz questão de “não retirar o mérito” ao autor de “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde” (o romance dado na proposta como alternativa a “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”). “Mário de Carvalho é um autor riquíssimo e os alunos têm muito a ganhar com o estudo de Mário de Carvalho. Mas podem acrescentar a Saramago, em vez de o dar como alternativa. Até porque os alunos estão habituados a que lhes deem pouco para ler”, sublinha.
“Será um grande prejuízo para a formação dos nossos alunos. O Memorial do Convento porque permite uma revisitação da História, que leva os alunos a refletir sobre a forma como a História tem sido ensinada, que é uma história dos grandes e não é a perspetiva do povo”, defende.
A especialista acrescenta ainda que, “se Saramago fosse vivo, escreveria com a mesma veemência sobre as mentalidades do nosso país com que o fez em 1991” ou então, “habituado que estava a estas perseguições, estaria a rebolar a rir”.
"Saramago é um prémio Nobel e Mário de Carvalho um autor premiadíssimo"
A proposta de retirar a obrigatoriedade de se lecionar José Saramago no Português do 12.º ano, dando como alternativa o romance “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho, resulta de uma sugestão assinada pela Associação de Professores de Português (APP) e da Associação Nacional de Professores de Português (ANPROPORT), depois de consultados especialistas do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL), da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O objetivo, diz João Pedro Aido, presidente da APP, é facilitar a articulação entre o romance estudado e outros estilos literários introduzidos na proposta como obrigatórios, nomeadamente o Teatro.
“A obra de Mário de Carvalho é um romance extenso, que recria uma cidade imaginária na Lusitânia do século II depois de Cristo, no período do Império Romano. Tem ligação com algumas das peças de teatro propostas para o 12.º ano, como a Antígona, de Sófocles”, argumenta João Pedro Aido, sublinhando que “Mário de Carvalho é um mestre da ironia” que pode enriquecer os alunos que o estudarem, assim se consiga facilitar a “apropriação da obra” por parte dos estudantes.
“O mais importante de tudo é saber o que os alunos vão fazer com as obras. Saramago é um prémio Nobel e Mário de Carvalho um autor premiadíssimo. O importante é fazer com que os alunos consigam apropriar-se das obras e fazer um trabalho mais pessoal com os autores estudados”, acrescenta o presidente da APP.
José Pedro Aido diz que “não se pode simplesmente aumentar o número de obras a estudar”, acrescentado Mário de Carvalho a José Saramago como autores obrigatórios, como sugere Ana Paula Arnaut, “porque os alunos deixariam de ter tempo para fazer esse trabalho pessoal de apropriação das obras” e “relacioná-las com outras disciplinas e até com outras obras estudadas”.
O dirigente da APP não descarta a hipótese de dar um passo atrás, se os resultados da consulta pública contrariarem a proposta das associações de professores de Português. “Imagine que os resultados da consulta pública ditam que Saramago é incontornável e não pode ser dado em alternativa. Se esse for o sentido da consulta pública, não temos qualquer problema em recuar”, assegura João Pedro Aido.
As obras de José Saramago "Memorial do Convento" e o "Ano da Morte de Ricardo Reis" vão deixar de ser de leitura obrigatória no 12.º ano, conforme consta da proposta de revisão do documento das Aprendizagens Essenciais para os ensinos básico e secundário, divulgada pelo Governo na última sexta-feira. De acordo com o documento enviado às escolas, os professores de português terão de escolher entre um dos dois romances do Nobel da Literatura português e outro do autor Mário de Carvalho, "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde".
A consulta pública da proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais decorre até 28 de abril. O objetivo passa por recolher contributos da comunidade educativa, de especialistas e da sociedade, tendo em vista o reforço "da qualidade da revisão curricular", diz o Governo.
As duas questões da Fundação José Saramago
A Fundação José Saramago (FJS) reagiu esta segunda-feira à possibilidade que está em cima da mesa, lançando duas questões. "Qual o critério para esta alteração? Se esta alteração também abrangerá outros autores que integram o cânone da Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória?", escreve em comunicado.
Para a FJS, que destaca no seu comunicado a frase com que José Saramago terminou o discurso de agradecimento do Nobel a 10 de dezembro de 1998 - "E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar" -, o mais importante seria "agregar" e não "comparar" os dois autores em causa.
"Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra 'ou' pela palavra 'e', juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores", propõe.