Ana Jorge volta a deixar dúvidas sobre legalidade dos negócios da Santa Casa no Brasil

Agência Lusa , AM
16 mai, 06:08
A provedora exonerada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), Ana Jorge (LUSA/António Pedro Santos)

Provedora exonerada diz que seria difícil o sucesso, numa área do país onde o jogo não é regulado

A provedora exonerada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Ana Jorge, voltou esta noite a deixar dúvidas sobre os negócios no Brasil, considerando mesmo que podiam envolver “parceiros não confiáveis”.

Ana Jorge, no programa “Grande Entrevista” da RTP3, voltou a explicar os motivos que a levaram a cancelar os investimentos no projeto de expansão para o Brasil, e disse haver uma ata, de uma reunião de 2022, segundo a qual os então responsáveis admitiam que “os negócios no Brasil não eram nem nunca seriam rentáveis”.

Nas palavras da responsável seria difícil o sucesso, numa área do país onde o jogo não é regulado, e uma esperança que houve em Brasília também não se concretizou, pelo que, disse, a melhor opção foi a Santa Casa retirar-se, negando no entanto que tenha saído de forma abrupta, até porque as empresas criadas estão a funcionar.

Ana Jorge disse que considerou que os custos de sair eram menores do que continuar, afirmou que a intenção do antigo provedor até podia ser boa mas que o que encontrou foi uma “complicação”, e que a Santa Casa de Lisboa “a única coisa que fazia era dar dinheiro para o Brasil”.

Em determinado momento, referiu, a situação teve de ser entregue às autoridades judiciais, até porque há “envolvimentos com parceiros que podem não ser confiáveis”.

Na entrevista ao jornalista Vitor Gonçalves Ana Jorge desvalorizou o investimento da anterior administração em imagens digitais (as chamadas NFT), de cerca de 500 mil euros, disse que é preciso dar nova vida aos jogos, e admitiu a preocupação com dependência de jogos (raspadinha).

Sobre o processo de exoneração pelo atual governo confessou-se surpreendida, porque na primeira reunião com a ministra da tutela disse que estava disponível para continuar e que esta lhe disse que confiava e até lhe perguntou quantos lugares vagos havia para colocar pessoas e se queria ficar com todos (da mesa).

Sobre declarações da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Ramalho, de que os gestores se tinham aumentado a si próprios Ana Jorge negou, disse que pela lei tal não era possível e que os aumentos que existiram não dependeram dos gestores.

Ana Jorge disse também que não está a pensar processar o ministério pela situação, e não considerou que a sua saída seja um “saneamento político”.

A administração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa foi exonerada a 29 de abril passado.

Esta situação levou na quarta-feira Ana Jorge a ser ouvida no parlamento e hoje é a vez da ministra Maria do Rosário Ramalho dar explicações aos deputados.

Iniciativa Liberal propõe comissão de inquérito

A Iniciativa Liberal propôs hoje a constituição de uma comissão parlamentar de inquérito à gestão financeira e à tutela política da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), considerando imperativo investigar os “investimentos ruinosos” feitos desde 2015.

Em declarações à agência Lusa, a líder parlamentar da Iniciativa Liberal (IL), Mariana Leitão, afirmou que o partido decidiu avançar com esta proposta por considerar que as várias audições que têm sido feitas no parlamento sobre a SCML não têm “clarificado muita coisa”.

“O que percebemos é que, apesar nenhum dos intervenientes e de todas as pessoas que foram às várias audições solicitadas até agora poderem dizer que não têm responsabilidades, nenhum assumiu as responsabilidades relativamente a este processo”, afirmou.

Mariana Leitão considerou que, na SCML, se verifica um “triângulo perverso”, composto por “investimentos ruinosos”, que têm causado “prejuízos avultados”, uma “estrutura de custos completamente desfasada do que se espera de uma instituição com uma gestão eficiente”, e a permeabilidade “a interferências político-partidárias, nomeadamente por conta das nomeações e das várias chefias que existiam”.

Nesse âmbito, a IL decidiu apresentar uma comissão parlamentar de inquérito à “gestão financeira e à tutela política da SCML”, cobrindo um período que começa em 2015, no final do executivo do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, e vai até ao executivo atual, liderado por Luís Montenegro.

Mariana Leitão explicou que a IL optou por este período por ser precisamente em 2015 que começou uma política de “investimentos ruinosos”, em particular através de um investimento em apostas hípicas, quando Pedro Santana Lopes era provedor da SCML, que “deu prejuízos de vários milhões”.

“Queremos perceber não só esse investimento, como depois todo o processo de internacionalização, os vários investimentos que foram feitos em infraestruturas da Saúde”, disse, acrescentando que essa gestão da SCML é “transversal a vários governos e também é da responsabilidade de vários provedores que foram gerindo a Santa Casa”.

A líder parlamentar da IL considerou imperativo perceber que avaliações de risco estiveram por detrás desses investimentos, o que é que os motivou e quais são os prejuízos que causaram à SCML, “de forma também a perceber o que é que é preciso corrigir”.

“A verdade é que, ao longo destes anos, estas decisões foram sendo tomadas, os alarmes foram soando, mas nunca houve uma ação efetiva, concreta, com planeamento de médio, longo prazo, para resolver as questões financeiras”, afirmou.

Questionada sobre quem é que a IL admite chamar caso a comissão de inquérito seja aprovada, Mariana Leitão respondeu que deverão ser ouvidos “os provedores responsáveis por todos estes investimentos e os vários ministros da tutela” desde o XIX Governo Constitucional, de Passos Coelho.

“Esses parecem-me óbvios. Os primeiros-ministros dependerão também da informação e do nível de detalhe que se consiga chegar e, se se justificar, obviamente que tomaremos essa decisão de os chamar”, disse.

Interrogada sobre como é que espera que esta proposta seja acolhida junto dos restantes partidos, Mariana Leitão recordou que os requerimentos para audições sobre a SCML foram aprovados com os votos favoráveis de vários partidos.

“Portanto, estamos confiantes de que, eventualmente, os restantes partidos também estarão disponíveis para que se faça esse escrutínio que é tão importante”, disse, recusando adiantar desde já se a IL vai procurar recolher as 46 assinaturas necessárias para impor este inquérito parlamentar.

“Logo veremos quais serão os próximos passos, de acordo também com aquilo que for a situação desta primeira discussão e votação”, disse.

Mariana Leitão defendeu que este inquérito parlamentar é importante do “ponto de vista da defesa do dinheiro dos contribuintes”, para perceber “o volume de prejuízos” que estes investimentos causaram ao Estado, mas também porque a SCML é “uma instituição extremamente importante pelo papel social que tem e que é preciso salvaguardar”.

“E a melhor forma de salvaguardar a instituição é garantir que chegamos ao fundo da verdade relativamente a todos estes investimentos que foram feitos, aos prejuízos que já causaram, para se conseguir também corrigir e permitir que a SCML tenha uma saúde financeira que lhe permita ter prosperidade”, afirmou.

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