Uma primeira-ministra não pode dançar? A análise ao caso Sanna Marin e como ele seria visto em Portugal

19 ago, 15:20

Sanna Marin já passou várias vezes uma postura e uma imagem descontraídas, sendo muitas vezes elogiada, mas também criticada. Fomos ouvir especialistas para perceber se este é um caso político ou social - e como seria se acontecesse cá

“Dancei, cantei, celebrei, fiz coisas que são legais”. Esta foi a primeira reação da primeira-ministra da Finlândia após a divulgação de um vídeo em que Sanna Marin aparece descontraída numa festa privada, na qual também participaram outras personalidades do país. Esta não foi a primeira-vez que a primeira-ministra apareceu num contexto pouco comum a um responsável político, depois de ter sido fotografada com um look festivaleiro este verão. Antes, em dezembro de 2021, foi vista numa discoteca de Helsínquia, no dia em que um ministro testou positivo à covid-19: estava só a divertir-se, mas acabou por pedir desculpa

Para Paula do Espírito Santo, especialista em Sociologia Política, não haverá nenhuma estratégia da própria em mostrar-se mais próxima do eleitorado. "Há formas e estilos próprios" de cada pessoa, diz, e a primeira-ministra da Finlândia decidiu transpor a sua personalidade para o cargo que exerce: "Ela gosta de dançar, de se divertir, e a política não implica que as pessoas tenham de refrear aquilo que são e como vivem. Podem continuar a ser felizes."

A também professora de Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) admite que se pode interpretar estes momentos como uma mensagem para a sociedade, após dois anos de confinamento: "Ela está a ampliar e a fazer o que toda a gente está a tentar fazer, procurar a normalidade, a descontração. Ela dá esse sinal e sabe que esse comportamento desencadeia a imitação e a identificação", refere Paula do Espírito Santo, mesmo sabendo que as imagens em questão não foram feitas para vir a público.

"Um político, mesmo entre amigos, corre sempre o risco de as imagens serem divulgadas. Sabe que está sempre exposto em permanência", reforça a especialista, vincando que este comportamento "faz parte de uma imagem, é natural dela", e não algo que Sanna Marin faça para se expor, estando sempre "consciente das consequências que poderá ter".

De resto, Paula do Espírito Santo afirma que, desde que tudo seja feito dentro da legalidade, como a primeira-ministra finlandesa garante, tudo não passará de um caso que desperta alguma curiosidade na sociedade, pouco habituada a ver políticos mais "soltos".

Raquel Abecasis concorda, referindo que "aquilo que é a vida privada das pessoas, sobretudo quando não existem consequências", não passa de um "fait-diver". A especialista em consultoria de comunicação sublinha que esta atitude de Sanna Marin não deve ser censurada: "Claro que um político ou governante não deve ser apanhado em situações ilegais, como conduzir embriagado ou a alta velocidade. Mas não é o caso."

Raquel Abecasis até entende que "as pessoas acham mais aceitável que um primeiro-ministro se divirta com os amigos do que propriamente que tenha aquela fama de estar sempre ao serviço".

E se fosse em Portugal?

Raquel Abecasis acredita que "os portugueses gostam de perceber que têm seres humanos a comandá-los" e que a sociedade portuguesa é "mais tolerante" do que os nórdicos, "que são mais intolerantes com a vida pública dos responsáveis".

"Em Portugal, existe mais tolerância e compreensão. Separa-se bem a vida privada da pública", acrescenta.

Já Paula do Espírito Santo defende que "em Portugal, em abstrato, há sempre uma expectativa de uma conduta mais contida, mais regrada", o que levaria a um maior debate sobre um caso deste género, caso se verificasse. Ainda assim, e desde que não sejam ultrapassados os limites da lei, não vê motivo para que surja algo mais do que curiosidade popular. 

"Estamos a falar de uma geração diferente, um estilo de vida de alguém diferente, que gosta de descontrair e não tem problema em mostrar. No caso português seria sempre mais difícil", sublinha, admitindo que também possa ser uma questão de hábito. Ou seja, quanto mais exposta for a sociedade a este tipo de cenários, mais normal será que eles sejam aceites.

O aproveitamento político (e do que o Chega seria capaz)

A reação de Sanna Marin, mais do que justificativa da situação, foi um sublinhar de que aquelas imagens não deveriam ter sido tornadas públicas, deixando um recado à pessoa que terá feito a compilação dos vídeos e enviado para as redações. “Confiei que, como os vídeos são privados e filmados num evento privado, não seriam publicados", disse.

Mas, como nos vídeos divulgados é possível ouvir alguém gritar "cocaína", o deputado Mikko Kärnä, do Partido do Centro (que faz parte da coligação de governo), pediu a Sanna Marin para fazer um teste de despistagem de drogas e divulgar os resultados. Esta sexta-feira, em conferência de imprensa, a governante finlandesa anunciou que já fez o teste e voltou a frisar que "nunca na vida" usou drogas.

Paula do Espírito Santo e Raquel Abecasis entendem que, se o mesmo acontecesse em Portugal, não haveria aproveitamento político, mas sublinham: a haver, seria do Chega.

"No caso português, seria difícil haver aproveitamento político, mas tudo é suscetível de ser usado como arma de contra-propaganda. No caso do Chega seria aproveitado, não iriam perder essa oportunidade", afirma a professora do ISCSP.

Admitindo que o partido de André Ventura levaria o tema para o debate público, mas também para o político, na Assembleia da República, Raquel Abecasis entende que dificilmente seria vantajoso para qualquer partido embrenhar-se nesta questão, até porque os portugueses "gostam de comentar, mas nunca haveria consequências políticas".

Paula do Espírito Santo lembra que essa utilização do caso também depende da estratégia que a oposição entenda tomar, podendo flutuar de acordo com o "estilo de comunicação" que cada partido queira adotar. Ainda assim, a especialista diz que, além de os portugueses saberem "separar as águas", o plano de comunicação do Governo e do primeiro-ministro teria sempre "capacidade para aligeirar e controlar os efeitos adversos" de uma situação idêntica, que seria "facilmente ultrapassada".

Ser uma mulher faz diferença?

A Finlândia é o segundo país com maior paridade, atingindo, segundo o mais recente relatório do Fórum Económico Mundial, os 86% nesta classificação. Ainda assim, o facto de Sanna Marin ser uma mulher, ainda por cima jovem, pode fazer diferença. 

Paula do Espírito Santo lembra que é necessário fazer uma interpretação da cultura em si, mas também das expectativas que se criam em torno da pessoa, independentemente do seu sexo. Para a socióloga, se este caso tivesse acontecido com um homem "talvez pudesse haver mais crítica", admitindo ainda uma maior censurabilidade por parte do povo nesse cenário, sobretudo aos "olhos dos mais conservadores".

"Ser uma mulher também pode ajudar a perceber melhor que toda a gente tem uma vida privada, mesmo que sejam políticos", acrescenta.

Sanna Marin num festival de rock em julho (Ruisrock Festival)

Raquel Abecasis aponta que a maior diferença até poderá estar relacionada com o estilo de vida. Confessando desconhecer a realidade finladesa, a consultora analisa o caso à luz de Portugal, onde diz que "tendencialmente existiriam mais piadas sobre o assunto" no caso de ser uma mulher.

A "revolução" de Marcelo

A polémica com Sanna Marin, mesmo tendo em conta que o conhecimento do público não foi uma decisão da própria, também levanta a questão da exposição pública dos responsáveis políticos. Em Portugal, os últimos anos foram marcados por dois Presidentes da República com posturas muito diferentes neste aspeto: Cavaco Silva era altamente contido, raramente dava entrevistas e não fazia questão de aparecer em público, muito menos de forma exposta. Já Marcelo Rebelo de Sousa é o oposto, levando Paula do Espírito Santo a falar numa "revolução" com a chegada do atual chefe de Estado a Belém.

"Marcelo Rebelo de Sousa revolucionou a forma como os políticos se relacionam com as pessoas. Incutiu sentido de proximidade com os concidadãos", afirma, falando num bom exemplo de alguém que tem uma grande exposição pública e que com isso consegue, de forma genérica, uma aprovação do eleitorado: após cinco anos de muita presença, os portugueses decidiram premiar o Presidente da República com uma maioria à primeira volta.

Em relação a Sanna Marin, diz a socióloga, Marcelo Rebelo de Sousa assume outro tipo de postura, não sendo tão "arrojado" como a primeira-ministra finlandesa, possivelmente por causa da idade, mas também do contexto. 

As festas de Santana Lopes

Quando Pedro Santana Lopes tinha pouco mais de 15 dias no cargo de primeiro-ministro, em 2004, tirou umas férias na Quinta do Lago, no Algarve, que acabaram por ter grande eco na imprensa, abrindo espaço para uma imagem de bon vivant da qual nunca mais se descolou. Semanas depois decidiu ir para Ibiza, em Espanha, gozando um período de férias durante o qual acabou por ter de trabalhar. “Aproveitei para ter um almoço de trabalho com o presidente do governo das Baleares e trocar mensagens com Zapatero [então primeiro-ministro de Espanha], que também lá estava, naturalmente, de férias com a família num iate”, viria a recordar Santana Lopes no livro “Perceções e Realidade”, publicado em 2006. Aí defende-se que já tinha aqueles “quatro dias” marcados, com férias programadas “num barco de amigos”, e que surgiram numa altura em que estava “extenuado” após um duro processo que o conduziu a primeiro-ministro.

Anos mais tarde, em 2014, o mordomo de São Bento, que serviu Santana Lopes no seu curto período à frente do Governo, viria a contar, numa entrevista à revista Sábado, que o então primeiro-ministro tinha o hábito de receber várias pessoas até altas horas. “Festas não havia. Mas ele recebia pessoas. Às vezes eram 21:00 ou 22:00, apareciam ministros ou pessoas amigas. Ficavam até às 03:00 ou 04:00. Ou 05:00. Era conforme”, contou Fernando Silva, explicando que se servia “whisky, cafés e chás”. “Nessa fase gastava umas duas caixas de whisky JB por mês, de seis garrafas cada uma”, acrescentou, admitindo, na altura, que aquele era um estilo diferente do que estava habituado na residência oficial do primeiro-ministro.

Ficou ainda famoso um outro episódio, quando Santana Lopes, no mesmo dia em que Cavaco Silva publicava o famoso artigo da “má moeda”, decidiu ir a um aniversário numa discoteca em Alcântara. Era uma festa privada, e o atual presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz garantiu, no seu livro de 2006, que não tinha demorado “mais de meia hora”, alegando que se foi deitar cedo para descansar, uma vez que tinha uma longa viagem para Trás-os-Montes às 07:30 do dia seguinte. Independentemente disso, a ida de Santana Lopes à discoteca motivou novas manchetes: a Rádio Renascença, por exemplo, noticiou, ainda de madrugada: “Santana Lopes irrompeu esta noite por uma discoteca de Lisboa com a sua segurança”.

Quando as festas se tornam ilegais

Uma festa aqui, outra festa ali. Uma sucessão de festas, quando as mesmas não eram permitidas no Reino Unido, acabaram por culminar na saída do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Neste caso, os vídeos e as fotografias também não foram divulgados com o seu conhecimento, mas a diferença esteve aqui: as várias festas privadas na sua residência oficial, em Downing Street, aconteceram em plena pandemia de covid-19, quando todo o país era obrigado a ficar em casa com grandes restrições. Boris Johnson ainda tentou abafar o assunto, mas uma pressão crescente de todo o governo, com um recorde de quase 50 (!) demissões, acabou por tornar a situação insustentável.

Menos discretas, mas não menos ilegais, eram as famosas festas do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, conhecido por patrocinar encontros que ficarão para sempre conotados como “festas do bunga bunga”.

Berlusconi era o principal organizador de grandes festas que decorriam na sua luxuosa mansão na cidade de Milão. Nelas participavam várias pessoas, incluindo mulheres que se despiam para os convidados, havendo mesmo suspeitas de que algumas delas seriam ainda menores. Uma suspeita que foi confirmada pela justiça italiana, que entendeu existirem suficientes provas de que Silvio Berlusconi tinha tido relações sexuais com Karima El Mahroug, uma jovem que à data tinha 17 anos, em troco de dinheiro e joias.

O italiano, que agora até procura um regresso à vida política, negou sempre quaisquer crimes, falando nas festas como “jantares elegantes”.

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