Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

Os níveis de dióxido de carbono estão mais altos do que em qualquer momento vivido pelos seres humanos. Isso pode estar a alterar a química do nosso sangue

CNN , Laura Paddison
5 abr, 09:00
Sangue (Getty)

De acordo com uma nova investigação, o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera pode estar a alterar a química do nosso sangue

À medida que os seres humanos queimam combustíveis fósseis e libertam dióxido de carbono para a atmosfera, estão a aquecer o planeta. Mas há outro efeito alarmante desta poluição climática: pode estar a alterar a química do nosso sangue.

Quando, há alguns anos, um colega sugeriu ao fisiologista respiratório Alex Larcombe que analisasse os impactos do aumento dos níveis de dióxido de carbono no corpo humano, ele ficou cético. “Pensei: ‘Isto soa estranho’”, disse Larcombe, que dirige a área de saúde ambiental respiratória no The Kids Research Institute Australia.

Ainda assim, decidiu investigar o tema, e aquilo que encontrou é profundamente preocupante.

Larcombe e o seu colega Philip Bierwith, investigador associado emérito da Universidade Nacional Australiana, analisaram mais de duas décadas de dados de saúde dos Estados Unidos e descobriram alterações na química do sangue das pessoas que parecem acompanhar a subida do dióxido de carbono na atmosfera.

Os cientistas recorreram ao US National Health and Nutrition Examination Survey, que recolheu uma vasta gama de informações de saúde de cerca de 7.000 norte-americanos de dois em dois anos, entre 1999 e 2020. É, disse Larcombe, “de longe o conjunto de dados mais abrangente no que toca à química do sangue”.

O que procuravam eram marcadores no sangue intimamente ligados à quantidade de dióxido de carbono que as pessoas inspiram.

Os seres humanos evoluíram numa atmosfera em que o dióxido de carbono se mantinha relativamente estável, em cerca de 300 partes por milhão, ou ppm. Mas a queima de combustíveis fósseis fez disparar esses níveis para mais de 420 ppm atualmente — acima de qualquer valor registado em toda a história da humanidade.

À medida que o dióxido de carbono atmosférico aumenta, os seres humanos não têm alternativa senão respirar mais desse gás, o que aumenta a acidez do sangue. O organismo tem formas de compensar isso, incluindo a produção e retenção de mais bicarbonato pelos rins, substância que desempenha um papel fundamental no controlo da acidez sanguínea.

Os níveis médios de bicarbonato no sangue aumentaram 7% desde 1999, acompanhando de perto a subida do dióxido de carbono atmosférico no mesmo período, segundo o estudo, publicado no mês passado na revista Air Quality, Atmosphere and Health.

Se estas tendências se mantiverem, o bicarbonato no sangue humano poderá “atingir níveis pouco saudáveis” nos próximos 50 anos, concluiu o estudo.

Os cientistas analisaram também os níveis de cálcio e fósforo. Uma das formas de o organismo lidar com o sangue ligeiramente mais ácido é os ossos absorverem parte do excesso de dióxido de carbono e fixarem-no sob a forma de carbonato de cálcio e fosfato de cálcio. Os rins também podem tornar-se menos eficazes a reter cálcio.

Com o passar do tempo, os níveis circulantes de ambos podem descer, e foi isso que a investigação encontrou. Os níveis de cálcio no sangue diminuíram 2% e os de fósforo cerca de 7% no mesmo período.

Se estas descidas continuarem, os níveis de cálcio e fósforo poderão cair abaixo dos valores saudáveis até ao final do século. O estudo refere que estas são “alterações permanentes e crescentes na química do sangue humano”.

Embora os dados apontem para uma ligação entre o aumento do dióxido de carbono e as alterações na química do sangue, os autores sublinham que é necessário mais trabalho para o confirmar.

O estudo não teve em conta outros fatores que podem influenciar estes resultados, incluindo a alimentação das pessoas, a medicação, a função renal, as taxas de obesidade ou a quantidade de tempo passada em espaços interiores, onde os níveis de CO2 tendem a ser mais elevados.

“Não podemos dizer com certeza que estas alterações que estamos a observar se devem a 100% às alterações climáticas”, disse Larcombe. Mas, acrescentou, se os resultados se confirmarem, isso será mais uma prova de que a subida da poluição por dióxido de carbono deve ser vista não apenas como um problema ambiental, mas também como uma questão de saúde pública a longo prazo.

A grande questão é perceber exatamente de que forma os seres humanos serão afetados por estas alterações na química do sangue. E a verdade é que não é fácil responder, até porque existe muito pouca investigação nesta área.

Alguns estudos sugerem que o nosso organismo conseguirá lidar com aumentos do dióxido de carbono sem impactos negativos, mesmo em cenários extremos de aquecimento global, respirando mais e aumentando a produção de bicarbonato.

Mas Larcombe afirmou que este argumento não tem em conta as implicações a mais longo prazo de exposições acumuladas ao longo de toda a vida de uma pessoa. O estudo refere que há um conjunto crescente de investigação em animais que aponta para impactos mensuráveis, incluindo danos neuronais e alterações do ritmo cardíaco.

Nos seres humanos, a exposição de mais curta duração a concentrações de dióxido de carbono normalmente encontradas em espaços interiores tem sido associada a uma redução das capacidades cognitivas e de tomada de decisão.

“Há estes pequenos indícios que se vão acumulando, mostrando que poderá realmente estar aqui a passar-se alguma coisa”, disse Larcombe. Está particularmente preocupado com os possíveis impactos nas crianças, que serão as que terão a exposição cumulativa mais prolongada.

Kristie Ebi, professora de saúde global na Universidade de Washington e que não participou no estudo, disse que “esta questão é levantada de poucos em poucos anos, por isso não é nova”, mas que tem havido pouco seguimento de estudos anteriores. Acrescentou que os estudos em humanos citados no relatório sugerem que, mesmo com níveis de dióxido de carbono superiores aos atualmente projetados, não haveria “impactos evidentes na saúde”, embora isso, ressalvou, “não exclua consequências para grupos particularmente vulneráveis”.

“Ainda estamos numa fase muito inicial”, disse Larcombe, e é necessária muito mais investigação, mas, à medida que os seres humanos continuam a fazer subir os níveis de dióxido de carbono, torna-se cada vez mais importante compreender os impactos na saúde.

A mensagem deste estudo “não é que vamos todos morrer e que isto é catastroficamente mau”, disse Larcombe; é antes: “há qualquer coisa a acontecer, e queremos explorá-la melhor.”

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Saúde

Mais Saúde