Imagine "Cem Anos de Solidão" a cruzar-se com "Keeping up with the Kardashians": a entrevista em que o neto de Fidel Castro apela ao capitalismo livre

CNN , Patrick Oppman, Abel Alvarado
31 mar, 19:25
Sandro Castro (CNN Newsource)

Ao contrário do resto dos seus familiares, intensamente reservados e muitas vezes secretos, Sandro Castro procura abertamente a fama e a notoriedade, ousando até mesmo provocar o governo comunista da ilha

"A maioria dos cubanos quer ser capitalista": por que motivo o neto influencer de Fidel Castro é a favor de um acordo com Trump

por Patrick Oppman e Abel Alvarado, CNN

 

Se os Castro são — como alguns cubanos se referem a eles — 'a família real' da ilha, então Sandro Castro parece estar a candidatar-se ao papel de bobo da corte.

Num país onde o acesso regular à Internet ainda é considerado um luxo, Sandro Castro – neto do falecido líder Fidel Castro e proprietário de uma discoteca cubana – acumulou mais de 150 mil seguidores no Instagram com atitudes escandalosas e muitas vezes bizarras que parecem uma audição para um inevitável reality show sobre um herdeiro perdulário de uma dinastia revolucionária.

Imagine "Cem Anos de Solidão" a cruzar-se com "Keeping up with the Kardashians".

Ao contrário do resto dos seus familiares, intensamente reservados e muitas vezes secretos, Sandro procura abertamente a fama e a notoriedade, ousando até mesmo provocar o governo comunista da ilha.

Mas numa entrevista exclusiva a altas horas da noite, durante um dos frequentes apagões que assolam a ilha, o jovem de 33 anos disse à CNN que é incompreendido.

"Estou a fazer vídeos sobre uma situação tensa e triste", diz Castro, referindo-se às crescentes tensões entre a ilha e a administração Trump, que aceleraram ainda mais o colapso económico de Cuba.

"Pelo menos estou a tentar fazer as pessoas felizes", afirma Castro. "Para lhes arrancar um sorriso. Eu nunca gozaria com uma situação com a qual também sofro."

Uma vida de privilégios em Cuba

As publicações de Castro oferecem um raro vislumbre de uma vida de privilégios inimaginável para a maioria dos cubanos, ao mesmo tempo que lançam críticas ocasionais aos burocratas comunistas que sucederam ao seu avô, falecido em 2016, e ao seu tio-avô Raúl, que se demitiu do cargo de presidente em 2018.

Um vídeo recente no Instagram mostrava um ator com uma peruca mal colocada e torta, fingindo ser Donald Trump, a chegar à porta de Castro e a tentar comprar-lhe Cuba.

"Podemos fazer negócios porque és um showman e um homem de negócios como eu", diz o falso Trump ao verdadeiro Castro.

"O que é que queres comprar!?" responde Castro. "Acalma-te!"

Gozar com a ameaça de Trump de tomar Cuba e com a crise económica cada vez mais grave do país pareceria insensível, se não perigoso, numa nação que alertou os seus cidadãos para que se preparassem para a guerra.

É difícil imaginar alguém que não se chame Castro a safar-se com uma proeza semelhante.

Mas Sandro Castro diz que é tal como muitos outros cubanos, farto do rumo que o país está a tomar.

"É tão difícil", lamenta Castro sobre a crise que se agrava e que levou alguns cubanos a protestar contra o governo e outros a vasculhar contentores do lixo à procura de comida.

"Sofres milhares de problemas. Num dia pode não haver eletricidade nem água. Os bens não chegam. É tão difícil, mesmo muito difícil", afirma Castro enquanto o seu empresário lhe entrega outra cerveja gelada.

É noite, mas Sandro Castro está de óculos de sol de marca durante a entrevista, que decorre no seu apartamento no isolado bairro de Kohly, em Havana, onde residem muitos oficiais militares e dos serviços secretos cubanos.

"A indignação gera 'likes'"

No meio de uma crise energética que assola toda a ilha, o debate sobre o quanto Sandro Castro está realmente a sofrer enquanto bebe cervejas Cristal cubanas geladas e alimenta o seu moderno apartamento de solteiro com um gerador a bateria EcoFlow provavelmente só irá aprofundar a controvérsia em torno de um descendente da família mais famosa de Cuba. Castro afirma que não é "rico como no Dubai", que a sua família não possui mansões nem iates e diz que nem sequer tem gasolina para o carro. Mas num país onde o salário médio é inferior a 18 euros por mês, Castro parece estar a viver mais do que bem. Mesmo que a economia de Cuba esteja em colapso, para Castro e os seus amigos a festa nunca acaba.

Ele é talvez a figura mais rara em Cuba: alguém que une os dois extremos políticos que têm lutado pelo futuro da nação há quase 70 anos no seu desprezo comum por ele.

Para os exilados cubanos que fugiram da revolução de 1959, Sandro Castro é um símbolo de hipocrisia total, um dos descendentes de um líder comunista que proibiu a indústria privada durante décadas e defendeu a austeridade mas eles próprios desfrutam do capitalismo.

Para os defensores ferrenhos da revolução cubana, Sandro Castro é um traidor da classe proletária, lucrando com a sua linhagem revolucionária em troca de cliques e gostos.

"Ele está a aproveitar-se de o odiarem", afirma Ted Henken, professor de sociologia e antropologia no Baruch College, em Nova Iorque, que estudou a difusão da Internet em Cuba. "As Kardashians, a Paris Hilton e ele próprio também estão a aproveitar-se dessa inveja ou do 'olhem para o meu estilo de vida fabuloso'."

"Não dá para desviar o olhar. A indignação atrai os 'likes' e os seguidores."

Sandro Castro nega ser milionário e rejeita a possibilidade de que as suas ligações familiares o protejam ou tornem a sua vida mais fácil do que a de outros cubanos. A sua discoteca numa avenida principal de Havana "apenas" lhe custou 44 mil euros, disse – uma quantia que ultrapassa a imaginação mais louca da maioria dos cubanos.

"O pouco que tenho deve-se ao meu esforço, ao meu sacrifício", garante Castro.

Ajuda ser um Castro em Cuba? “O meu nome é o meu nome. Tenho orgulho no meu nome, logicamente. Mas não vejo essa ajuda de que falas. Sou apenas mais um cidadão”, refere.

Durante a entrevista, Castro também se pergunta em voz alta como pode obter um visto para os EUA para “visitar amigos em Miami” e pede desculpa pelo seu inglês rudimentar.

“É como o do Maduro”, diz Sandro Castro com um sorriso malicioso, referindo-se ao líder venezuelano detido pelos EUA em janeiro.

"A maioria dos cubanos quer ser capitalista"

Sandro Castro é um dos netos de Fidel Castro e Dalia Soto del Valle, alegadamente uma professora do centro da ilha que viveu discretamente com o líder cubano durante décadas.

O casal teve cinco filhos: Alexis, Alex, Alejandro, Antonio e Angel. Fidel Castro, quer por querer proteger a privacidade da sua família, quer para manter a aura de um revolucionário que só tinha tempo para o seu país, nunca revelou publicamente a sua família.

Alexis Castro Soto del Valle, pai de Sandro e engenheiro de telecomunicações, também se aventurou nas redes sociais. Publicou no X memórias da sua infância na famosa família, bem como críticas veladas às recentes decisões económicas do governo cubano.

Mas, em 2024, Alexis Castro publicou que estava a fazer "uma desintoxicação digital" e deixou de publicar na sua conta do X. Sandro estava ao telefone com o pai a preparar os pontos a abordar quando a CNN chegou para a entrevista.

Não há, no entanto, sinais de que Sandro Castro tenha qualquer intenção de abrandar a sua enxurrada de vídeos, apesar de ter admitido à CNN que a sua família, por vezes, lhe pede para remover as suas publicações controversas, nas quais ridicularizou os cortes de energia e a escassez de combustível.

"Estou apenas a brincar", diz, apesar de influencers pró-governo terem apelado à sua detenção.

Castro afirma à CNN que quer produzir a sua própria cerveja e comprar mais discotecas e carros, mas sente-se frustrado com a burocracia que envolve todo o comércio em Cuba, em resultado do sistema que o seu avô implementou.

"Temos de abrir o modelo económico, eliminar a burocracia", queixa-se, sem ironia.

"Sou um revolucionário, mas um revolucionário de ideias, de progresso, de mudança", afirma, referindo-se ao slogan de "continuidade" do atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.

"Não diria que ele está a fazer um bom trabalho. Para mim, ele não está a fazer um bom trabalho", afirma Castro sobre Diaz-Canel, que é o primeiro chefe de Estado cubano que não se chama Castro desde a revolução e que contou com o apoio expresso tanto de Raúl como de Fidel Castro ao longo dos anos.

Sandro Castro diz que os seus vídeos e críticas ao sistema levaram a Segurança do Estado cubana a chamá-lo para interrogatório. Foi libertado apenas com uma advertência, conta, não por causa do seu apelido famoso mas porque nunca apelou à violência ou à mudança de regime.

Embora elogie o seu avô Fidel e o seu tio-avô Raúl, Sandro Castro recusa-se a dizer se a revolução que eles lideraram melhorou a vida na ilha.

"Nasci depois de 1959, por isso não posso dizer", responde.

Mostrou-se mais franco sobre como um acordo com Trump pode revolucionar a economia da ilha. Na sua mais recente sátira em vídeo, apresenta o ator que interpreta o presidente dos EUA com um hotel "Trump Tower" a erguer-se sobre o horizonte de Havana.

"Há muitas pessoas em Cuba que pensam de forma capitalista. Há muitas pessoas aqui que querem praticar o capitalismo com soberania", afirma.

"Penso que a maioria dos cubanos quer ser capitalista, não comunista", conclui Castro.

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