O Gabinete do Médico Legista Chefe de Massachusetts concluiu que a morte foi um suicídio. Mas, para a família, nada disso fazia sentido
Sandra Birchmore planeava anunciar a sua gravidez no Dia dos Namorados.
A 1 de fevereiro de 2021, enquanto um nevão assolava o leste de Massachusetts, EUA, a jovem de 23 anos refugiou-se no seu apartamento em Canton, um subúrbio de Boston. Estava grávida de cerca de 10 semanas e tinha partilhado a notícia apenas com algumas pessoas. Daí a duas semanas, pretendia publicar nas redes sociais um cartaz rosa e azul decorado com pequenas pegadas. “Estou à espera de um novo bebé para amar”, dizia o cartaz. “O meu pequeno Valentim chega em setembro de 2021.”
Com a neve a acumular-se lá fora, Birchmore ficou quase sempre em casa a preparar-se para a maternidade. Enviou uma mensagem a uma amiga sobre roupa para recém-nascidos, procurou mobiliário para o quarto do bebé e escolheu um fotógrafo especializado em gravidez. Às 17:33, uma câmara de vigilância captou imagens dela a sair para ir buscar uma escova de limpar o pára-brisas, vestindo leggings turquesa e um casaco acolchoado escuro, com o cabelo preso num coque alto.
São as últimas imagens conhecidas de Sandra com vida.
A polícia encontrou o seu corpo três dias depois, numa posição sentada, no chão do quarto. Uma alça do saco de viagem estava enrolada à volta do pescoço e amarrada à maçaneta da porta do roupeiro. O seu telemóvel estava a poucos centímetros do corpo e tinha sido bloqueado às 21:13 do dia 1 de fevereiro, segundo investigadores federais.
O Gabinete do Médico Legista Chefe de Massachusetts concluiu que a sua morte foi um suicídio. Mas, para a família, nada disso fazia sentido.
Sandra queria ser mãe. Já tinha comprado macacões. Estava a fazer planos. “Era só disso que ela falava. Quer dizer, estava mesmo, mesmo entusiasmada”, recorda a sua prima, Angelique Pirozzi. “Era um objetivo dela. Estava radiante.”
Poucos dias após a morte de Sandra, Angelique ligou às autoridades locais e instou-as a investigar mais a fundo o que aconteceu no apartamento da prima naquela noite de inverno. “Disse à polícia que ninguém na vida da Sandra acreditava que ela se tivesse suicidado”, conta. “Mas ninguém parecia interessado em considerar a possibilidade de que isto pudesse não ser um suicídio.”
Mais de três anos depois, os investigadores federais intervieram. E, em agosto de 2024, um grande júri federal lançou uma bomba: alegou que um agente da polícia matou Birchmore para a impedir de revelar uma relação sexual que tinha começado quando ela tinha 15 anos.
O agente, Matthew Farwell, trabalhava no Departamento de Polícia de Stoughton, nas proximidades, e a sua esposa estava grávida do terceiro filho na altura. Ele acreditava que o filho que Sandra Birchmore carregava na barriga era seu, mas, de acordo com um depoimento federal, um teste de ADN realizado após a morte dela determinou que ele não era o pai.
Farwell declarou-se inocente das acusações de ter matado uma testemunha ou vítima e de ter violado a lei federal que protege os bebés por nascer. Os seus advogados recusaram-se a comentar, uma vez que o caso ainda está em curso. No passado dia 26 de maio, o tribunal recusou o pedido de fiança e determinou que Farewell permanecerá na prisão até ao julgamento, agendado para 5 de outubro.
Os advogados de Farwell argumentam que os diários de Sandra Birchmore sugerem que ela estava a pensar em suicídio. Mas os investigadores federais afirmam que o colar, com um pingente em forma flamingo, encontrado partido no chão do quarto de Birchmore, conta uma história diferente. Além disso, as imagens de videovigilância mostram uma figura mascarada e encapuzada a entrar no seu prédio naquela noite e a sair 29 minutos depois.
Este relato do último dia de Sandra Birchmore – e da sua trágica vida – baseia-se em registos judiciais e entrevistas com a sua família e as autoridades policiais, bem como em dados recuperados do seu iPhone e computador portátil. Revelam uma infância difícil, uma alegada relação ilícita com um mentor adulto e uma causa de morte contestada que acabou por levar o médico legista a alterar o veredicto oficial.
“O que aconteceu a Sandra Birchmore foi uma tragédia profunda que nunca deveria ter ocorrido”, afirma a chefe da polícia de Stoughton, Donna McNamara. “Ela era uma jovem que merecia ser protegida, não explorada.”
A mãe achava que ela precisava de um modelo masculino
Sandra foi criada principalmente pela mãe, Denise Birchmore, que lutava contra a doença cardíaca, enfisema e asma. Sendo filha única, Sandra assumiu responsabilidades de cuidadora ainda muito jovem e teve de crescer depressa, conta a sua prima, Angelique Pirozzi.
A mãe e a avó adoravam-na. Durante as animadas reuniões familiares na casa da avó, Sandra absorvia o barulho e o caos, feliz por ter outras crianças por perto. “Ela tinha uns olhos azuis lindos e brilhantes e sardas na ponte do nariz”, recorda Pirozzi. “Estava entusiasmada, risonha e encantada por ter todos aqueles convidados em casa.”
Com o pai da jovem ausente, a mãe queria que ela tivesse modelos masculinos positivos. Na primavera de 2010, quando Sandra tinha 12 anos, a mãe inscreveu-a no programa de exploradores do Departamento de Polícia de Stoughton – uma iniciativa que dá a conhecer aos jovens as carreiras nas forças policiais. “Era suposto ser algo positivo… para crianças que pudessem precisar de um modelo adicional na sua vida”, explica Pirozzi.
Dois anos depois, Matthew Farwell ingressou no Departamento de Polícia de Stoughton e tornou-se instrutor do programa.
Nessa altura, Sandra parecia estar a dar-se muito bem como exploradora da polícia. Publicava fotos com o seu uniforme preto e o crachá de exploradora da polícia. Em junho de 2013, anunciou no Facebook que tinha alcançado o posto de sargento. Mas, nesse momento, segundo os procuradores, Farwell já estava secretamente a aliciá-la. Conquistou a confiança da adolescente e da sua família ajudando-a nos trabalhos de casa, conta a prima.
Em pouco tempo, passaram a encontrar-se no carro de patrulha dele ou na sua carrinha para terem relações sexuais, por vezes enquanto Farwell ainda estava de serviço. Ocasionalmente, ela faltava às aulas – e até faltou ao baile de finalistas – para estar com ele.
Os autos do tribunal federal alegam que Farwell teve relações sexuais com Birchmore desde os 15 anos dela até à sua morte, aos 23. Em Massachusetts, a idade de consentimento é de 16 anos. “Farwell usou a sua autoridade e acesso para seduzir, explorar sexualmente e, por fim, abusar sexualmente de Birchmore, então com 15 anos… até a ter matado”, escrevem os investigadores.
Os familiares de Sandra Birchmore sabiam que Farwell se tinha interessado em ajudá-la com os trabalhos escolares. Mas não sabiam que as coisas tinham tomado um caráter sexual, garante Pirozzi.
Outros agentes também abusaram dela
A mãe de Sandra Birchmore morreu após um AVC em maio de 2016. Cerca de um mês depois, a sua avó faleceu, deixando-a subitamente sem uma rede de apoio. A jovem mergulhou numa depressão pouco tempo depois, diz a sua família.
Segundo os procuradores federais, nessa altura, vários outros agentes da Polícia de Stoughton mantinham relações sexuais com Birchmore, incluindo o irmão gémeo de Farwell, William, que também trabalhava na Polícia de Stoughton.
“Assim que eles puseram as suas garras nela, ela não teve hipótese”, comenta Pirozzi.
William Farwell não respondeu ao pedido de comentário da CNN. No entanto, o seu advogado, David M. Bae, nega que o seu cliente tivesse mantido relações sexuais com Birchmore quando ela era menor de idade. “Nunca houve a mínima prova de que o meu cliente tivesse tido relações sexuais com SB enquanto ela era menor”, afirmou numa audiência por má conduta policial na sequência das acusações federais. Apenas Matthew Farwell foi acusado criminalmente.
A chefe da Polícia de Stoughton, Donna McNamara, ordenou uma investigação dos assuntos internos após a morte de Birchmore. “A investigação revelou que, desde a adolescência de Sandra, havia um padrão de abuso e de comportamento geralmente inadequado e abominável por parte de vários homens que, em diferentes momentos, estiveram ao serviço do Departamento de Polícia de Stoughton”, disse McNamara à CNN num comunicado.
Quatro agentes, incluindo os irmãos Farwell, foram demitidos e estão impedidos de trabalhar nas forças policiais do estado.
Entretanto, nos meses que antecederam a morte de Birchmore, começaram a surgir rumores sobre a sua relação com Matthew Farwell. Os investigadores federais acreditam que Farwell ficou cada vez mais alarmado. No final de janeiro, um amigo de Sandra Birchmore ligou para o Departamento de Polícia de Stoughton e notificou-os da existência da relação sexual com Matthew Farwell.
O agente ficou furioso quando descobriu. Os documentos federais revelam que enviou mensagens de texto repletas de palavrões a Sandra Birchmore. “Meu, a m***a da tua amiga ligou para o meu trabalho, Sandra, WTF", dizia uma delas.
Ela queria um filho e fez-lhe um ultimato
Pirozzi diz que os familiares alertaram Sandra sobre Farwell. “Ela estava a receber muitos conselhos de pessoas que lhe diziam para ter cuidado com este tipo", conta a prima. “Mas a manipulação não deixa espaço para outras vozes.”
Pirozzi estava preocupada com o facto de a sua jovem prima ter de assumir a maternidade sozinha. Uma das últimas mensagens que Sandra lhe enviou foi uma mensagem privada no Facebook a pedir recomendações sobre carrinhos de bebé. “Eu disse-lhe: ‘Fico feliz por estares feliz, mas sabes que há aqui uma questão mais importante… Tens de pensar muito bem se estás pronta para isto’”, recorda Pirozzi. “Estava a tentar encorajá-la a pensar no que estava a fazer. O que eu pensava era: ‘Que carrinho deves comprar? Estás a fazer as perguntas erradas.’”
Na altura, Sandra Birchmore trabalhava numa escola primária local como auxiliar e tinha começado a frequentar aulas para se preparar para a escola de enfermagem ainda nesse ano, diz Barb Wright, prima da sua mãe. Era uma jovem que estava a construir a sua pequena família, e a sua vida parecia estar a encaixar-se, conta.
Mas os seus familiares descobriram mais tarde que, meses antes, em outubro, Birchmore tinha dado um ultimato a Farwell: se ele concordasse em ter relações sexuais desprotegidas para conceber um filho, ela não revelaria a relação deles.
De acordo com as mensagens de texto citadas nos documentos federais, Sandra sabia que ter relações sexuais com um menor é crime e, por isso, ameaçou revelar a relação deles. Relutante, Matthew Farwell acabou por concordar em tentar engravidar, dizem os procuradores, e Sandra enviou-lhe o seu calendário de ovulação. “Os dois começaram a discutir o momento certo para as suas relações sexuais em torno de datas específicas do ciclo de Birchmore", lê-se no depoimento.
Em dezembro, Birchmore enviou uma mensagem a Farwell a dizer que estava grávida e enviou-lhe uma foto do cartaz que tinha feito para comemorar. “Parabéns, vamos ser pais”. Também lhe enviou uma mensagem com uma lista de expectativas. Queria que a criança tivesse o apelido dele. Também queria que ele estivesse presente no parto e durante alguns dias por volta do Natal e da Páscoa. “Sinto que estou a tentar ser o mais justa possível. E quero que estejas presente no (meu) parto… Nisso não vou ceder”, escreveu na mensagem.
Mas os procuradores afirmaram que Farwell parecia descontente com o bebé. Quando ela lhe mostrou a ecografia, ele reagiu dizendo: “Esse não é meu filho”, e empurrou-a, contou Birchmore a uma amiga.
Por vezes, Farwell pedia-lhe para apagar as conversas. Numa troca de mensagens sobre o bebé, disse a Sandra que ela estava a pedir mais do que alguma vez tinha pedido antes. “E ainda assim menos do que qualquer outra rapariga pediria”, respondeu ela.
Mensagens de texto detalham o percurso da relação
Os dados do iPhone e do portátil de Sandra Birchmore ajudaram os investigadores federais a reconstituir momentos-chave da sua relação com Matthew Farwell. As mensagens de texto criaram um registo detalhado das suas comunicações e movimentos nos meses, dias e horas que antecederam a sua morte.
O rasto digital remonta a vários anos. Mostra que Farwell lhe tinha enviado um pedido de amizade no Facebook em outubro de 2012, quando tinha 26 anos, de acordo com o depoimento federal. Ao longo dos anos, o casal fez referências ao início da sua relação, incluindo mensagens de Birchmore sobre ter sentido “borboletas no estômago” no dia em que ele lhe tirou a virgindade, quando ela tinha 15 anos.
No final de janeiro – dias depois de um amigo de Birchmore ter ligado para o local de trabalho de Farwell – ele pediu-lhe as chaves do apartamento e disse que iria passar por lá para lhe “dar uns abraços”. Durante uma das suas últimas visitas ao apartamento dela, Sandra Birchmore enviou uma mensagem a um amigo a dizer que o tinha visto a inspecionar o armário e a casa de banho e que achava aquilo “muito estranho”.
Os investigadores alegam que ele estava a inspecionar o apartamento à procura de um local para encenar a morte dela.
Às 21:08 do dia 1 de fevereiro de 2021, Matthew Farwell enviou uma mensagem a Sandra Birchmore a perguntar se podia passar por lá. Ela disse-lhe que deixaria a porta destrancada.
Foi a última mensagem enviada do telemóvel dela. Segundo o depoimento, Farwell chegou quatro minutos depois, vestindo um casaco com capuz escuro e uma máscara médica.
As imagens de videovigilância mostram-no a sair do prédio dela às 21:43 - cerca de meia hora depois de o iPhone dela ter sido bloqueado e deixado de registar movimento.
O caso surge na sequência de outra morte que teve grande repercussão em Canton
O corpo de Sandra Birchmore foi encontrado depois de ela não ter aparecido no trabalho na escola primária e de os seus colegas terem solicitado uma verificação de bem-estar.
Pirozzi afirma que começou a alertar a polícia local e estadual sobre Matthew Farwell poucos dias depois de ter tomado conhecimento da morte de Sandra. “Era realmente importante que eles (a polícia) compreendessem que a Sandra mantinha uma relação íntima e duradoura com um agente da polícia de Stoughton, casado, que não estava contente com a gravidez dela”, diz Pirozzi. “Era muito importante garantir que as pessoas não pudessem fingir que não sabiam.”
Mas Farwell só foi detido três anos e meio depois, o que deu origem a protestos dos residentes locais contra a falta de ação por parte das autoridades. Um porta-voz do Ministério Público Federal em Boston recusou-se a comentar o que motivou a investigação federal ou por que razão demorou tanto tempo.
Uma fonte das forças da ordem disse à CNN que o atraso na detenção de Farwell aponta mais para um “trabalho policial de má qualidade” do que para qualquer encobrimento por parte da polícia local. Até ao momento, os investigadores federais não encontraram provas de tal encobrimento, disse a fonte.
Sandra Birchmore morreu em Canton, uma cidade que enfrenta um intenso escrutínio sobre a forma como a polícia lida com investigações de mortes de grande visibilidade. Quase um ano após a morte de Birchmore, o agente da polícia de Boston John O’Keefe foi encontrado morto na neve, no exterior de uma festa numa casa em Canton, em janeiro de 2022.
A sua namorada, Karen Read, foi acusada - e posteriormente absolvida - de homicídio, após dois julgamentos que tiveram grande repercussão a nível nacional. Os críticos desse caso afirmam que os investigadores ignoraram provas cruciais e cometeram erros graves, preocupações partilhadas pela família de Birchmore.
O chefe da Polícia de Canton, Michael K. Daniels, que assumiu o comando do departamento em dificuldades no início deste ano, garante que os agentes locais responderam à chamada no apartamento de Birchmore juntamente com a Polícia Estadual de Massachusetts e a Procuradoria Distrital, e que depois o Gabinete do Médico Legista determinou a causa e a forma da morte.
“Esta não foi uma investigação liderada pela Polícia de Canton, nós desempenhámos um papel de apoio. Essa estrutura é consistente com a forma como investigações como esta são conduzidas em comunidades como a nossa, onde as agências têm autoridade jurisdicional e recursos especializados”, explica Daniels à CNN por e-mail. “O nosso papel é responder, isolar o local, recolher informações e documentar as observações iniciais. Qualquer informação preliminar comunicada no início de uma investigação não deve ser interpretada como uma conclusão definitiva.”
Nos autos judiciais, os procuradores federais afirmam que o médico legista não enviou patologistas estatais ao apartamento de Sandra Birchmore, mas confiou nas autoridades locais, que partilharam informações incompletas ou imprecisas. Segundo os documentos federais, a Polícia de Canton enviou um único parágrafo ao médico legista “afirmando de forma conclusiva que a morte de Birchmore foi um suicídio por enforcamento”.
Daniels, o chefe da polícia de Canton, diz à CNN que compreende que as pessoas queiram respostas, mas recusa-se a especular sobre decisões ou intenções passadas das agências enquanto o caso continua em aberto. “O meu foco é ser o mais transparente possível dentro dos limites da lei e garantir que correspondemos às expectativas da comunidade”, afirma.
A Polícia Estadual de Massachusetts remeteu as perguntas sobre o caso Birchmore para a Procuradoria do Condado de Norfolk. Um porta-voz da Procuradoria disse à CNN por e-mail que os procuradores dedicaram um tempo significativo a investigar a morte de Birchmore em conjunto com parceiros estatais e salientou que o gabinete do médico legista era responsável por determinar a causa oficial da morte.
O gabinete do médico legista afirma que as suas conclusões iniciais se basearam na informação disponível na altura e recusa-se a comentar mais, invocando o processo criminal em curso.
Numa medida invulgar, a agência atualizou no mês passado a certidão de óbito de Birchmore, alterando a conclusão inicial de suicídio. Agora, a certidão indica asfixia como causa da morte e a forma de morte como “indeterminada”.
Donna McNamara, a chefe da Polícia de Stoughton, explica à CNN que o seu departamento se concentrou em determinar se os agentes violaram as normas nas suas interações com a vítima, e diz que entregou as suas conclusões aos investigadores estaduais e federais.
As repercussões do caso levaram a exigências de mudança e responsabilização. Na sequência de uma votação dos residentes de Canton, uma auditoria independente de 2025 recomendou reformas profundas no departamento de polícia da cidade, incluindo formação alargada e revisões obrigatórias de todas as investigações de morte por parte do pessoal de supervisão.
Michael K. Daniels confirma que o departamento está a trabalhar nessas recomendações como parte de um esforço mais amplo para reconstruir a confiança do público.
Advogados de Farwell argumentam que Birchmore tinha tendências suicidas
Matthew Farwell, de 40 anos, esta na prisão desde a sua detenção em agosto de 2024. Os seus advogados solicitaram a sua libertação sob fiança depois de o teste de ADN ter excluído que ele fosse o pai do bebé de Sandra Birchmore. Os investigadores não revelaram quem é o pai. Mas os procuradores afirmam que Farwell acreditava que a criança era sua na altura da morte de Birchmore.
“É o facto de Farwell ter acreditado nisso - e não o facto de estar enganado - que será mais relevante no julgamento”, escreveram os procuradores num memorando de abril de 2026 contra a libertação sob fiança de Farwell.
No mesmo memorando, os procuradores afirmaram que o ADN de Farwell foi encontrado na roupa interior de Birchmore e na alça do saco de viagem que ela tinha ao pescoço.
No entanto, os advogados de Farwell argumentam que o seu era um dos quatro perfis de ADN encontrados no apartamento dela, na roupa interior e na alça. “Não se pode afirmar que misturas complexas correspondam a um indivíduo específica”, disse a sua advogada, Joanne Daley, ao tribunal na audiência de detenção.
Os advogados de Farwell argumentaram em documentos judiciais que Birchmore era suicida e tinha um historial de problemas de saúde mental que remontava a 14 anos. Mas os procuradores afirmam ter falado com os seus familiares, amigos e terapeuta, que concordaram que ela não era suicida.
“Birchmore passou partes da sua vida deprimida e ansiosa. Isso não é segredo. E talvez isso se deva, em parte, ao facto de ela ter sido explorada por um agente da polícia local desde a infância, forçada a encenar fantasias de violação”, escreveram os procuradores federais nos documentos judiciais. “Depressão e ansiedade não equivalem a ideias suicidas.”
Barb Wright, prima da mãe dela, afirma que Sandra Birchmore lutava com a dor da perda das matriarcas da família, mas não era suicida.
Em 1 de fevereiro de 2021 - o dia em que morreu -, Birchmore pesquisou no Google: “De que cor é a fita do suicídio?” [referia-se à fita amarela de sensibilização para a prevenção do suicídio] A defesa afirma que isto constitui uma prova de que ela pensava em suicidar-se, mas o procurador diz que ela estava apenas curiosa depois de ter visto fitas semelhantes nas redes sociais . A defesa alega também que no seu diário ela tinha listado formas de cometer suicídio, incluindo o uso de uma corda.
Na audiência de fiança, os advogados de Farwell afirmaram que ele não nega ter ido ao apartamento dela naquela noite. “Ele esteve lá nesse dia. Eles tiveram uma discussão, ele terminou a relação com ela, disse-lhe que não era o pai e foi-se embora”, disse Daley ao tribunal.
Os procuradores contestaram essa versão. “Uma vez lá dentro, ele matou-a e manipulou o corpo e o apartamento para fazer parecer que Birchmore tinha morrido por suicídio", afirmaram.
Os procuradores dizem que o colar partido e os ganchos de cabelo espalhados dela apontam para uma luta. Mas a defesa contestou essa interpretação, argumentando que o ADN de Farwell não foi encontrado debaixo das unhas de Birchmore.
Manifestantes acompanham o caso de perto
Na audiência de fiança, em abril, os procuradores e os advogados de defesa apresentaram retratos diametralmente opostos de Matthew Farwell.
A defesa descreveu-o como um veterano condecorado do Exército dos EUA que serviu no Afeganistão e ganhou medalhas como agente da polícia por salvar vidas. Mas os procuradores federais apelidaram Farwell de homem “perigoso” e alertaram que ele faria tudo o que fosse preciso para evitar a pena de prisão perpétua.
No exterior do tribunal federal em Boston, um pequeno grupo de manifestantes reuniu-se durante muitos dos dias do processo judicial de Farwell - tal como fizeram nas audiências de Karen Read. Seguravam cartazes azuis com a inscrição “Justiça para Sandra Birchmore”, ao lado de uma grande fotografia do rosto dela.
A ativista Melissa Berry conta à CNN que começou a acompanhar o caso em setembro de 2022, quando a chefe da polícia McNamara divulgou o relatório interno sobre os agentes da Polícia de Stoughton que mantiveram relações sexuais com Birchmore. “Estava no meu quarto a dobrar roupa e aparece esta notícia na televisão e eu fico a gritar para a televisão, tipo: ‘O quê? Como é que isto acontece num departamento de polícia?’”. Pouco depois, estava a conduzir desde a sua casa nos subúrbios de Boston para protestar em frente ao tribunal federal durante as audiências de Farwell. Com a permissão da família de Birchmore, criou um grupo no Facebook, “Justiça para Sandra Birchmore”, que conta com cerca de 20.000 apoiantes que partilham informações e discutem as provas.
Berry diz que pensa na mãe de Birchmore e em como ela acreditava estar a fazer o que era melhor para a filha, sem perceber o impacto devastador que o programa de exploradores da polícia teria na sua vida. Uma pergunta continua a repetir-se na sua mente: “A quem podes recorrer quando a polícia está a abusar de ti?”
A 13 de maio, Berry e outros manifestantes reuniram-se em Stoughton para assinalar o que teria sido o 29.º aniversário de Sandra Birchmore.
Entretanto, para a família de Birchmore, o fardo emocional persiste. O médico legista notificou-os da alteração na certidão de óbito, conta Wright. Ela sente-se aliviada por já não constar que a sua prima em segundo grau morreu por suicídio.
Após anos de espera e com o processo federal em curso, os familiares de Birchmore acreditam que a justiça está ao seu alcance. “Todos estão meio que a suster a respiração”, diz Pirozzi.
Sandra Birchmore também tinha planeado revelar o sexo do seu bebé no Dia dos Namorados. Estava grávida de um menino.
