O petróleo russo foi um problema? Imagine-se então o gás natural

31 mai, 14:31
Nord Stream 2 (Stefan Sauer/dpa via AP)

Enquanto a União Europeia está centrada no sexto pacote de sanções à Rússia, é no sétimo que se pode tocar no ponto ultrassensível da Rússia (e de alguns países europeus, o que pode dificultar tudo de uma maneira ainda mais acentuada do que já se verificou a propósito do petróleo)

A União Europeia (UE) vai cortar em 90% a importação de petróleo da Rússia até ao final do ano, naquela que é a medida mais forte do sexto pacote de sanções a aplicar ao regime de Vladimir Putin por causa da invasão à Ucrânia. O especialista em diplomacia da União Europeia Francisco Pereira Coutinho não acredita que a UE fique por aqui e antecipa já um possível sétimo pacote de sanções, no qual poderá já ser incluído um embargo ao gás natural - o qual define como “a medida mais eficaz porque a Rússia não teria forma de vender a mais ninguém”, uma vez que ficaria obrigada a construir novos gasodutos.

“Existe uma dificuldade acrescida da dependência em relação ao gás natural da Rússia. O exemplo do petróleo vai ser repetido em relação ao gás, possivelmente num embargo num sétimo pacote de sanções”, afirma, lembrando que esse mesmo embargo pode ter algumas exceções, consoante as possibilidades dos diferentes Estados-membros. A República Checa, por exemplo, continua a depender a 100% de combustíveis fósseis que chegam da Rússia.

Em sentido contrário, Francisco Pereira Coutinho recorda que há países que já deixaram de consumir gás natural russo, seja por imposição da Rússia, como os casos dos Países Baixos ou da Finlândia, seja porque há países que abandonaram a importação daquela fonte energética, como fizeram os países do mar Báltico.

"O embargo ao gás natural da Rússia é a mais eficaz sanção mas também a mais difícil de executar porque as consequências sobre alguns Estados-membros seriam enormes", afirma, apontando o caso específico da Alemanha, país altamente dependente do gás natural russo. Atento a isso, o primeiro-ministro português já acenou ao chanceler alemão com a possibilidade de exportar gás natural a partir do porto de Sines.

O especialista em diplomacia refere, por isso, que “todos os Estados-membros estão a reduzir a sua dependência da energia russa”, pelo que se trata cada vez mais de “uma decisão política”: “Mas é preciso perceber que os efeitos se vão sentir de forma assimétrica, o que obriga a que as decisões não sejam as que a Comissão Europeia pretendia inicialmente”. Caso da República Checa mas também da Hungria, ou até da Áustria, que já se mostraram altamente reticentes em cortar a importação de gás natural.

No caso austríaco, por exemplo, houve mesmo uma conversa entre o chanceler, Karl Nehammer, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, onde o fornecimento de gás natural foi um dos temas centrais, com o lado russo a garantir que iria cumprir os acordos realizados.

Mas um sétimo, um oitavo ou até um nono pacote de sanções pode vir a existir, refere Francisco Pereira Coutinho, que diz que tudo depende da duração da guerra: “Se tivemos seis pacotes em três meses, certamente haverá um sétimo, um oitavo, um nono…”.

No entanto, e precisamente por causa da maior resistência de alguns Estados-membros ao embargo da energia russa, quanto mais duras forem as sanções mais difíceis e demoradas serão de aprovar: “Se este sexto pacote demorou um mês a ser concluído, o sétimo demorará mais”.

Sobre esse mesmo sexto pacote, que ainda não foi aprovado, Francisco Pereira Coutinho lembra que a proposta inicial não chegou a ser apresentada, uma vez que a intenção era impor um embargo total: “A estimativa é uma redução de 90% de petróleo até ao final do ano, mas em relação aos outros 10% não há certezas”.

"A decisão está tomada, e a decisão é eliminar a dependência energética da Rússia, o que está a ser atingido a um ritmo bastante grande", sublinha Francisco Pereira Coutinho.

Rússia sofre mais a curto prazo

Francisco Pereira Coutinho não acredita em grandes efeitos destas novas sanções a curto prazo, mas refere que a Rússia vai sofrer primeiro: "As consequências virão, mais tarde ou mais cedo. Vai ter menos receitas no seu orçamento e terá de encontrar forma de escoar o petróleo para outros mercados".

Por isso existe outra possibilidade, que passa pela aplicação de sanções secundárias, nomeadamente a países que possam vir a beneficiar do gás natural russo e que fiquem fora da União Europeia. Casos do Irão, China ou Turquia, por exemplo, países que podem vir a ser alvo de sanções europeias como forma indireta de pressionar a Rússia.

A concertação europeia na adoção deste tipo de medidas é, para o especialista em diplomacia, um símbolo da vontade que os 27 têm em diminuir a dependência em relação à Rússia, sabendo-se que 45% do gás natural consumido pela União Europeia vem de Moscovo.

"Isto mostra bem o estado de dependência da Europa em relação à Rússia", diz, sinalizando que a Rússia já recebeu cerca de 44 mil milhões de euros em energia desde o início da guerra.

Ainda assim, Francisco Pereira Coutinho vê a Rússia como a economia mais preocupada num cenário de sanções, voltando a referir que os países possivelmente mais afetados podem vir a ser ajudados, admitindo um cenário excecional para esses Estados - que devem continuar a receber petróleo, segundo o sexto pacote de sanções ainda por aprovar.

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