Crianças usam o smartphone cada vez mais cedo. O que os pais devem saber antes de lhes dar um

7 nov, 08:00
Aplicações

Há crianças que começam a usar smartphone nos primeiros anos de vida, mas isto pode ter consequências no desenvolvimento cerebral e social. Com que idade as crianças devem ter o primeiro smartphone? Qual o limite de horas que devem passar junto ao ecrã? Que regras os pais devem implementar? Os especialistas respondem

Um estudo do ano passado mostra que 95% das crianças portuguesas com 10 ou mais anos já têm o seu próprio smartphone e que, abaixo dessa idade, 34% dos menores também já receberam este dispositivo. Os dados foram obtidos pela empresa de estudos de mercado Boutique Research para a cadeia de lojas de artigos tecnológicos Hubside.Store e confirmam aquilo que já se suspeitava: seja para acederem a redes sociais, para jogarem ou simplesmente para verem vídeos no Youtube, há cada vez mais crianças e de mais tenra idade a usarem o smartphone com regularidade.

Uma realidade que é preocupante: “Há crianças de cinco e seis anos a quem lhes é atribuído um smartphone próprio”, nota o psicólogo João Nuno Faria, em declarações à CNN Portugal. O especialista é perentório: “Antes dos 10 anos não existe necessidade de ter um smartphone". Mesmo que a criança possa jogar ou visualizar vídeos através das plataformas digitais, o psicólogo lembra que antes dos 10 anos isto deve acontecer através dos dispositivos dos pais. "A criança pode aceder habitualmente ao dispositivo de uma figura parental, com mediação”, completa.

Para a psicóloga Catarina Lucas, os 10 anos são uma boa idade para receber o primeiro telemóvel porque “coincide com a entrada das crianças no segundo ciclo” e, por vezes, há necessidade de "contacto com os pais". Além disso, destaca, já há uma “capacidade cognitiva” para se “perceber os perigos no uso do telemóvel”. “Uma criança de cinco ou seis anos tem dificuldade em compreender os perigos", alerta a psicóloga.

"Os telemóveis são usados em fases muito precoces. E quando vamos a restaurantes, por exemplo, vemos isso. Quando a criança não está com o telemóvel é claro que ela precisa de atenção, mas isso é normal”, frisa Catarina Lucas.

Neste sentido, a especialista explica à CNN Portugal que os telemóveis são muitas vezes usados pelos pais "como uma ferramenta para entreter os filhos". “Os pais chegam ao fim do dia cansados e têm uma necessidade de desligar, de parar um bocadinho”, acrescenta a psicóloga, para de imediato ressalvar que, com isto, não quer culpabilizar os pais, mas chamar a atenção para as dinâmicas da sociedade e do trabalho que acabam por gerar estes comportamentos.

As consequências do smartphone nos primeiros anos de vida

Sendo certo que há cada vez mais crianças a utilizarem o smartphone com poucos anos de vida, a questão impõe-se: que consequências este uso precoce pode gerar no desenvolvimento das crianças?

"Se for utilizado numa idade precoce, ainda existem muitas dúvidas sobre qual o impacto no desenvolvimento da própria arquitetura cerebral", começa por dizer João Nuno Faria.

Por isso é que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define limites "muito claros para a utilização do telemóvel" e recomenda “a não aproximação das crianças de um ecrã portátil antes de um ano, um ano e meio de vida", completa o especialista, sublinhando que, aqui, “o maior receio é naturalmente o impacto negativo”.

Há já, no entanto, "um impacto sobejamente conhecido", afirma o especialista: "está relacionado com a luz azul de um dispositivo móvel”. Ora, a luz azul é emitida pelos dispositivos eletrónicos como ecrãs de televisão, computadores, tablets e smartphones e sabe-se que ela “interfere com o processo de sono porque adia a libertação da melatonina" - a melatonina, recorde-se, é uma hormona e a principal responsável pela indução do sono.

Por outro lado, o facto de estar demasiado tempo ao telemóvel pode significar para a criança “não interagir com os colegas, não sair para a rua, estar fechada dentro de casa”, começa por dizer Catarina Lucas. E quando “começa a existir este isolamento", acrescenta, "o desenvolvimento de competências sociais é afetado”. 

"A criança está completamente focada no telemóvel, que é um dispositivo pequeno, e fica alheada de tudo. Passa a conhecer o mundo através de um telemóvel e não porque o explora”, frisa.

A psicóloga vai mais longe do que as recomendações oficiais da OMS e defende que a utilização do smartphone nem deve existir nos três primeiros anos de vida. A partir desta idade, o uso deve ser supervisionado: os pais devem saber “que aplicações estão instaladas", devem "estar atentos aos horários das refeições" e "quando a criança vai para a cama não a deixar levar o dispositivo".

João Nuno Faria defende que, no que diz respeito à atribuição de um smartphone e à sua utilização, os pais devem adotar uma "trajetória gradual, que vá de encontro ao desenvolvimento das crianças". Mas que trajetória seria essa? Tendo em conta as recomendações dos especialistas e da própria OMS, seria mais ou menos assim:

  • Até um ano / um ano e meio de vida

Por causa do desconhecimento que ainda existe sobre o impacto no desenvolvimento cerebral, os bebés até um ano e meio de vida não devem ter qualquer contacto com ecrãs. Os bebés devem ser entretidos com brinquedos específicos para a sua idade ou até com música.

  • Um ano e meio / 2 anos -  até aos 5

A partir desta fase e até aos cinco anos, as crianças podem ter contacto com ecrãs, sejam smartphones ou tablets, mas sempre mediados por adultos. O tempo passado com estes dispositivos não deve ser superior a uma hora, mas o ideal é mesmo que seja inferior. Os especialistas sublinham que a partir dos três anos já é importante ter algumas horas de atividade física - pelo menos três - que podem ser geridas conforme os interesses da criança: um desporto que goste, aprender a andar de bicicleta ou de patins ou um simples passeio em em família.

  • Dos 5 aos 10 anos

Nesta fase, as crianças já podem mexer em ecrãs com mais regularidade, embora a recomendação continue a ser para que não se exceda uma hora de utilização - sempre supervisionada. Por outro lado, a OMS recomenda que os conteúdos não sejam sempre iguais, ou seja, que a criança não jogue sempre o mesmo jogo ou veja sempre os vídeos do mesmo canal. A atividade física é fundamental para o desenvolvimento das capacidades motoras e a interação com outras crianças fundamental para as competências sociais. 

  • Dos 10 aos 12 anos

Aos 10 anos, a maioria das crianças portuguesas recebe um smartphone próprio. Apesar de, com esta idade, terem maior autonomia e uma capacidade cognitiva que lhes permite estarem mais atentas aos perigos da Internet, os controlos parentais continuam a ser preponderantes: "Não numa forma de policiamento, mas do ponto de vista da utilização: que apps são utilizadas, que redes sociais são mais frequentes”, vinca João Nuno Faria. O psicólogo explica que é necessário estabelecer “um contrato de confiança” entre pais e filhos que, por vezes, é difícil de negociar. O especialista ressalva que, dependendo das características da própria criança, também poderá haver uma "maior ou menor cedência".

Por outro lado, nesta fase em que o telemóvel começa a ser usado com maior autonomia, é importante estabelecer regras como a não utilização do dispositivo às refeições. E aqui, a psicóloga Catarina Lucas tem um recado para os pais: “É difícil implementar regras como a não utilização dos telemóveis à refeição se os pais ficam com o telemóvel. Uma criança retém muito mais o que vê do que o que lhe é dito”.

O telemóvel também deve ser desligado pouco antes de a criança se ir deitar, uma vez que a luz azul pode prejudicar a qualidade de sono e os estudos mostram que, na adolescência, os jovens têm uma necessidade de horas de sono superior à dos adultos. Uma má qualidade de sono pode afetar diretamente o desempenho das crianças na escola.

Youtube só o "Kids", TikTok nunca antes dos 16

Os pais devem supervisionar a utilização do smartphone e garantir algumas medidas de segurança. O especialista em cibersegurança Nuno Mateus-Coelho explica à CNN Portugal que há "aplicações que já permitem essa moderação, que aplicam limites aos conteúdos que as crianças veem, como é o caso do Youtube".

Ainda assim, o especialista refere que esta moderação tem as suas limitações porque a identificação "para maiores de 18" é apenas isso, "uma identificação", e neste momento o Youtube é um negócio, com conteúdos "totalmente desenvolvidos por adultos, que têm fins lucrativos".

"Enquanto que há dez anos o conteúdo ainda era tímido, nos dias de hoje a plataforma é feita para ganhar dinheiro. Os pais ainda não perceberam que o Youtube que há agora é diferente do que havia há dez anos, as pessoas que estão lá são mais excêntricas para terem visualizações. E muitas vezes usam uma linguagem de adultos com palavrões e expressões de adultos", salienta.

Nuno Mateu-Coelho frisa que os criadores estão cada vez mais a "dramatizar os seus conteúdos", falando mesmo numa espécie de "circo", que tem como objetivo ganhar visualizações, seguidores e subscrições. O facto de os autores serem adultos que muitas vezes utilizam uma linguagem de adultos cria sérios problemas noutros contextos: "Quando depois um adulto fala desta forma, a criança já não vai estranhar o tom de voz e este tipo de expressões e facilmente cria uma ligação", vinca.

Por isso, mesmo com essa moderação ativada, o especialista em cibersegurança não tem dúvidas: é preciso garantir sempre uma supervisão. "Os pais têm de estar sempre atentos quando a criança usa [o dispositivo], as crianças não podem estar isoladas e com auscultadores", acrescenta.

Nuno Mateus-Coelho nota que há uma diferença entre conteúdos "que são aptos para crianças e conteúdos que são especificamente desenhados para crianças". E no caso concreto do Youtube, o especialista aconselha os pais a recorrerem desde cedo ao Youtube Kids, a versão para crianças, que deve ser usada até aos 10 anos e que disponibiliza apenas "conteúdos desenhados para crianças e por autores fidedignos".

Mas se o Youtube capta as atenções na faixa abaixo dos 10 anos, a partir daí e na adolescência são as redes sociais que se começam a tornar mais relevantes, com o TikTok desde logo à cabeça. E Nuno Mateus-Coelho é perentório: "O TikTok é a rede social mais perigosa do momento". O especialista alerta para os perigos dos desafios que se tornam virais nesta rede social, marcada por "conteúdo extremamente sexualizado", "polarizado", com mensagens violentas e "xenófobas". Nuno Mateus-Coelho considera que o TikTok "é um barril de pólvora" e não deve ser permitido antes dos 16 anos.

Nomofobia e FOMO, dois problemas que os pais podem ajudar a evitar

Apesar das possibilidades de supervisão e controlo parental, a verdade é que as novas gerações já nasceram num mundo altamente tecnológico e os especialistas alertam que é muito difícil dissociar o desenvolvimento dos menores desse ambiente digital. "A tecnologia está entre nós e pode ser muito positiva. O importante é o equilíbrio que é preciso ir fazendo", nota Catarina Lucas.

Na mesma linha, João Nuno Faria refere que a tecnologia também produz benefícios: “Existem linhas que nos mostram que a interação eletrónica até pode promover as competências sociais”. “Para indivíduos com espectro de autismo, por exemplo, é muito mais fácil a comunicação escrita do que a comunicação cara a cara”, explica.

No entanto, é preciso que a “introdução da tecnologia" seja feita "de uma forma consciente" e "se a interação eletrónica for uma entre múltiplas atividades” evitam-se problemas de dependência e adição no futuro. João Nuno Faria esclarece que a dependência do smartphone “enquanto categoria clínica, ainda não está identificada”, como “existe a dependência do jogo, do videojogo e das redes sociais”. No entanto, vinca, o smartphone é um meio para os conteúdos que podem causar esses comportamentos aditivos.

E nos últimos tempos, muito se tem ouvido falar de nomofobia, a incapacidade de estar longe dos aparelhos eletrónicos, e de FOMO (Fear Of Missing Out, que significa “medo de perder alguma coisa”),“uma experiência que impede o indivíduo de se afastar das redes sociais”, nota o psicólogo. Se o contacto com a tecnologia for estruturado num “modelo em que há uma posição muito regrada e consciente do ponto de vista parental”, dificilmente se tornará num problema.

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