Salman Rushdie é um dos escritores mais importantes dos últimos 50 anos. Chegou à ribalta e obteve reconhecimento mundial em 1981 com o livro "Os Filhos da Meia-Noite". Depois disso, tornou-se famoso tanto pelos seus livros como pela sentença de morte que os líderes do Irão decretaram contra ele em 1989. Acabaria por ser alvo de um ataque em 2022, ao qual sobreviveu, e, depois disso, já escreveu dois livros, o último dos quais será apresentado em Portugal. É a apresentação desse livro, e também a participação no evento literário BABELL, que traz Salman Rushdie a Portugal e que serviu de pretexto para uma conversa com ele em Nova Iorque
Muito obrigado por falar com a CNN Portugal. Gostaríamos de conversar sobre o seu livro mais recente, The Eleventh Hour [O Último Instante - Um Quinteto de Histórias], que será publicado em Portugal. Vê este livro como a terceira parte de uma trilogia, com Joseph Anton [Joseph Anton – Uma Memória] primeiro, depois Knife [Faca: Meditações na Sequência de uma Tentativa de Homicídio], e agora The Eleventh Hour, mais ou menos?
Bom, quer dizer, houve vários livros pelo meio, mas acho que “O Último Instante” parece um regresso à ficção, o que é muito gratificante para mim, porque, apesar de já ter escrito a minha quota-parte de não-ficção — como diz, houve um par de livros de memórias e assim —, penso mesmo em mim próprio como um contador de histórias. A razão pela qual me tornei escritor foi para escrever ficção. Por isso, foi muito gratificante poder regressar à ficção e escrever estas histórias.
E como surgiu O Último Instante? Há cinco histórias, todos relacionados com a morte de uma forma ou de outra, algumas mais improváveis do que outros, como morrer por causa da música às mãos de um prodígio. Mas o senhor tem, de qualquer forma, uma imaginação prodigiosa. Portanto, como é que isso surgiu? Tantas histórias sobre a morte, de tantas formas diferentes, com tantas reflexões?
Bom, na verdade, foi algo que se foi desenvolvendo ao longo de vários anos, porque algumas das histórias são mais antigas. A primeira e a última história da coletânea foram escritas há alguns anos. E as três histórias longas que estão no centro do livro foram escritas mais ou menos um ano depois de eu ter terminado o livro de memórias “Faca”. E eu estava mesmo muito ansioso por regressar à ficção. E a primeira história que escrevi foi aquela que é agora a história central da coletânea, a história de fantasmas ”Late” [”Atrasado”]. E depois as outras duas apareceram pouco tempo depois.
Portanto, é uma coletânea que se foi formando aos poucos, ao longo do tempo.
Portanto, não estão necessariamente ligados à tentativa de assassinato de que foi alvo?
Na verdade, não. Estou prestes a fazer 79 anos. E acho que, quando se chega a essa idade, acaba-se por pensar em questões como a mortalidade. Porque percebemos que o tempo que temos pela frente é mais curto do que o tempo que já passou. E depois, sim, é verdade, que eu vi de perto o fim, e isso também nos faz pensar no assunto. Portanto, sim, de certa forma, todas elas — bom, pelo menos as três mais longas — têm algo a ver com a reflexão sobre o que me aconteceu.
Mas eu queria que a coletânea tivesse uma espécie de nota lúdica, sabe, para que não fosse um olhar sombrio sobre o fim da vida. Não queria dizer: “Meu Deus, vamos todos morrer”, porque todos sabemos isso. Queria que fosse um pouco mais travesso e mais lúdico em relação a isso. E espero que as histórias sejam assim. Acho que são engraçadas. E pensei que uma boa forma de escrever sobre a morte é ser engraçado em relação a ela.
Apesar da sua óbvia resiliência física e psicológica depois do que lhe aconteceu, escreveu dois livros em quatro anos. Vai continuar a escrever?
Estou sempre a escrever. Sinto-me sempre mais feliz quando estou a escrever. E estou a meio daquilo que espero que venha a ser um romance. Portanto, não sei bem quando estará terminado. Quer dizer, não será em breve, mas estou a trabalhar.
Quando lemos O Último Instante, há provavelmente alguns elementos daquilo que as pessoas fazem quando pensam que o seu tempo está a chegar. Alguma coisa disso reflete os seus pensamentos sobre o seu legado? De certeza que não quer que o tema das ameaças de morte ofusque as suas realizações literárias. Como é que tenta definir o seu legado nos seus livros?
Uma das coisas que me interessa é a forma como os artistas abordam, por assim dizer, o último ato da vida. E não apenas os escritores, mas também pessoas de outras artes — pintores, músicos, etc. A última fase de Picasso é muito diferente do primeiro Picasso,tem uma certa liberdade e alegria que revelam a sua abordagem a essa fase final. Beethoven tinha muito mau feitio, odiava ser surdo, não gostava de envelhecer. E, no entanto, nessa condição, compôs a sua grande sinfonia, que se baseia na Ode à Alegria. Portanto, embora ele próprio se sentisse zangado, a sua música era alegre.
Por isso, interessou-me muito pensar na forma como as pessoas abordam o fim, se o abordam com serenidade e paz ou com raiva, desilusão e frustração. E, por isso, as personagens da coletânea debatem-se com esse tipo de ideias.
Na verdade, menciona Beethoven e a sua surdez numa das histórias de O Último Instante. E no que respeita à resiliência, existe alguma ligação, na sua vida e na sua escrita, entre amor e resiliência?
Acho que o amor é um poder enorme. Acho que tem um grande poder e que dá um grande poder. Penso que se tivermos a sorte de ser felizes no amor, isso fortalece-nos e dá à nossa vida uma certa forma e dimensão. E, nesse aspeto, sinto-me certamente feliz, então ajudou muito.
Sim, estava a pensar nisso, recordando o que escreveu sobre a sua mulher e a forma como ela o ajudou. Portanto, acha que a Eliza é uma fonte do seu rejuvenescimento depois da tentativa de assassinato de que foi alvo?
Bom, quer dizer, talvez não seja a fonte total, mas é certamente uma grande ajuda. E está muito entusiasmada por vir comigo a Portugal, porque nunca lá esteve. Portanto, estamos ambos entusiasmados por ir. Já estive no Porto uma vez e é tão bonito. Mal posso esperar por voltar.
Também fala muito sobre liberdade de expressão. E está envolvido nessa causa, por razões óbvias, há muito tempo. E tem sido alvo de ataques por motivos religiosos e agora vemos, cada vez mais em todo o mundo, pessoas a serem visadas por razões políticas. Como avalia a liberdade de expressão nos dias de hoje, não apenas em geral, mas particularmente para os escritores?
Para os escritores, para os jornalistas, para qualquer pessoa que diga o que pensa, na verdade. Acho que estamos a passar por período difícil, é difícil neste país, é difícil em todo o mundo. No meu país de origem, a Índia, também está a tornar-se muito difícil para jornalistas e artistas e mesmo para os cidadãos que queiram expressar o seu descontentamento com o governo. Portanto, não é uma coisa nova. A liberdade de expressão tem sido frequentemente atacada ao longo dos anos, mas é uma batalha que temos de travar continuamente. E, neste momento, tem de ser travada com toda a força possível.
Qual é o adversário mais perigoso: a pessoa que ataca por razões religiosas ou a pessoa que ataca — quando digo ataca, digo-o em sentido figurado — por razões políticas?
Não os classifico. Acho que ambos são muito perigosos. Penso que, nos Estados Unidos, o ataque vem de fontes políticas. Noutros países, vem de contextos religiosos. Portanto, não importa qual seja. Ser o alvo é ser o alvo. E temos de defender os escritores e os artistas que o são.
A certa altura, ficou um pouco desiludido com alguns dos seus colegas escritores por não o terem defendido tanto quanto achava que deveriam, na medida em que não estariam apenas a defendê-lo a si, mas a defender um sentido mais amplo da liberdade para escrever o que se quer. Viu isso mudar ao longo dos anos? Os escritores estão mais unidos? E depois da tentativa de assassinato de que foi alvo, sentiu mais solidariedade?
Sim, acho que sim. Esse momento de que está a falar, antes de mais, foi há muito tempo, já passaram quase 40 anos. Hoje em dia, penso que há uma compreensão crescente entre escritores e artistas de que temos uma causa comum e de que é importante mantermo-nos unidos.
E importa-se de dizer qual é o tema do seu próximo livro?
Receio que ainda não esteja pronto para ser revelado. Portanto, vou guardar isso para mim.
Vai ser o último ou vai continuar a escrever?
Não, não tenciono parar. Eu gosto de escrever. Se falar com pessoas que me conhecem, elas dir-lhe-ão que estou sempre mais feliz quando estou a escrever. Portanto, é parte da forma como passo o meu dia. E é uma parte agradável.
Sei que não gosta de falar da tentativa de assassinato de que foi alvo. Mas tenho apenas uma pergunta que está relacionada, de certa forma, com a escrita de livros. Quando eu dizia às pessoas que ia entrevistá-lo, elas perguntavam: “Como é que ele consegue escrever depois de perder um olho e de perder alguma mobilidade?” É fisicamente difícil escrever, ou consegue simplesmente fazê-lo de qualquer forma?
Bom, não há dúvida de que é fisicamente um pouco mais difícil. Sim, quer dizer, sabe, ter um olho não é tão bom como ter dois. E ter a mão esquerda danificada não é tão bom como não ter a mão esquerda danificada. Portanto, isso torna o ato físico de escrever um pouco mais complicado. Mas, sabe, lá conseguimos. Conseguimos.
Não vai desistir?
Não, não. Porque haveria de desistir? Não tenho mais nada para fazer.
Não sei se tem um diário de gratidão. Algumas pessoas têm um diário de gratidão onde escrevem as coisas pelas quais estão gratas.
Oh, não.
O que teria no seu diário de gratidão, se tivesse um?
Não tenho um. Mas, antes de mais, estou grato por ainda estar aqui. E estou grato por ainda estar a fazer o trabalho que amo. E, como lhe disse, estou grato pela família, pelo amor e pelos amigos. E está um dia bonito. Estou grato por isso.
