Salman, o grande

25 jun, 09:01
Escritor Salman Rushdie (AP)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

CRÓNICA de Luís Costa Ribas, que entrevistou Salman Rushdie em Nova Iorque, antes da visita do escritor a Portugal para a apresentação do seu último livro

Salman Rushdie chegou sozinho, para a nossa entrevista, ao edifício da CNN em Nova Iorque. Não trouxe assistente, nem assessor, nem guarda-costas.

Quatro anos após uma brutal tentativa de assassínio, em que dezena e meia de golpes de faca o deixaram às portas da morte, o lendário novelista britânico-indiano vive nos seus termos.

O ataque cumpriu uma ameaça velha de décadas. Um dos livros de Rushdie – Versículos Satânicos – ofendeu milhões de muçulmanos e o então líder religioso do Irão, aiatola Ruhollah Khomeini, condenou o escritor à morte e ofereceu 3,4 milhões de dólares pela sua cabeça.

Proscrito, Rushdie passou à clandestinidade e a viver sob proteção policial, em 1989, sujeito ao dia a dia miserável de um fugitivo. Mudou frequentemente de residência e deixou de participar em eventos públicos. Essa vida de eremita foi relatada em Joseph Anton, a crónica autobiográfica da sua existência nas sombras.

Dez anos mais tarde, ainda a viver oculto na penumbra do mundo, entrevistei-o. Um pequeno grupo de jornalistas – obrigados a manter segredo sobre o local e o visitado – passaria o fim de semana com ele no Bard College, uma pequena universidade em Annandale-On-Hudson, uma vila no leste do estado de Nova Iorque. O programa incluía uma entrevista, uma palestra aos estudantes e um jantar oferecido pelo reitor, em sua casa, que se transformou em tertúlia, noite fora. Era impossível não notar o prazer com que, arrancado à solidão, convivia com o improvisado grupo. Fiquei tão fascinado com a conversa, como triste com a tragédia de ver um génio agrilhoado, perseguido por uma horda desprezível.

Disse-me, na altura, que não receava ser morto diretamente às ordens do regime iraniano, mas, sim, por um fanático solitário. Profética premonição que viveria sobre o ombro de Rushdie durante 23 anos. “So it’s you. Here you are”, recordaria mais tarde em Faca, o que lhe ocorreu quando o putativo assassino carregava sobre o palco onde se preparava para iniciar uma palestra, no verão de 2022.

O reencontro dos últimos dias em Nova Iorque foi diferente. O Salman animado e gregário deu lugar a um Salman mais reservado, fisicamente debilitado, mas com a mesma chama intelectual.

“Não quero falar do que me aconteceu, nem do passado. Quero falar do meu livro”, disse, à chegada. O livro é O Último Instante, uma colecção de cinco contos, todos sobre a morte e o seu aproximar, três dos quais influenciados pelos eventos de 2022.

Joseph Anton foi a crónica dos dias da clandestinidade. Faca foi a crónica da quase morte e dura e resiliente recuperação. O Último Suspiro, sendo ficção e não uma obra autobiográfica como as duas anteriores, deixa a sensação de uma trilogia finalizada, de um longo capítulo de 37 anos que se encerra.

Mas seria redutor limitar O Último Suspiro a esta observação. Como o autor nos confidencia, na entrevista que convidamos os leitores a ver na íntegra, ele queria “que o [livro] tivesse um toque divertido para que não fosse uma visão sombria sobre o fim da vida”. “Não queria dizer 'meu Deus, vamos todos morrer', porque todos sabemos isso. (...) Pensei que esta é uma boa maneira de escrever sobre a morte: ser engraçado” (...) Interessou-me muito refletir sobre a forma como as pessoas encaram o fim, quer o encarem com serenidade e paz, quer com raiva, desilusão e frustração. As personagens do [livro] debatem-se com esse tipo de ideias.”

Rushdie diz que está sempre mais feliz quando escreve e não sabe o que faria, se não escrevesse. Apesar do que lhe aconteceu, não desiste. Escreveu dois livros nos últimos quatro anos e já começou a trabalhar no terceiro.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Livros

Mais Livros