Há 33 anos a desafiar uma sentença de morte, Rushdie nunca se arrependeu do livro que a originou: "É um dos melhores que já escrevi"

12 ago, 22:30
Salman Rushdie (Grant Pollard/AP)

No dia 17 de setembro, o premiado autor internacional tem uma visita marcada na Livraria Lello, para uma conversa com a escritora e crítica literária Isabel Lucas

Salman Rushdie é um autor britânico nascido na Índia, cujos livros abordam temas como religião, política e questões sociais. É conhecido pela sua luta pela liberdade de expressão e "sofreu muito por causa dela", como conta Cecília Andrade, da editora Dom Quixote, que publica as obras Rushdie em Portugal.

O premiado autor internacional foi atacado esta sexta-feira, em Nova Iorque, em pleno palco, quando se preparava para dar uma palestra no Instituto Chautauqua. Em declarações à CNN Portugal, Cecília Andrade diz esperar que o ataque desta sexta-feira "seja apenas mais um episódio na vida dele". E que vida.

Salam Rushdie, de 75 anos, nasceu em Bombaim, dois meses antes da independência da Índia da Grã-Bretanha. Aos 14 anos, mudou-se para Inglaterra, onde entrou para a Rugby School, uma das escolas públicas mais antigas do Reino Unido. Entretanto, foi galardoado com um diploma com honras em história pelo Kings College, em Cambridge. 

Tornou-se depois cidadão britânico e trabalhou brevemente como ator no Cambridge Footlights, um clube de teatro amador. Foi então que começou a escrever os primeiros romances. O primeiro, Grimus, foi publicado em 1975.

Hoje, Rushdie, de 75 anos, é autor de 21 livros, dos quais se destaca Os Filhos da Meia-Noite, a sua segunda obra, publicada em 1991, que lhe valeu prémios como o Booker Prize, em 1981, o Booker of Books, em 1993, e o Best of the Booker, em 2008. 

Os seus romances foram muito elogiados pelo público e pela crítica literária, mas o quarto livro, Os Versículos Satânicos, publicado em 1988, foi alvo de várias críticas, ao ponto de ser ameaçado de morte. A justificação seria porque algumas das passagens do livro retratam um personagem inspirado no profeta Maomé, o que não foi bem recebido pela comunidade muçulmana.

A obra foi mesmo banida do Irão, em 1989, ano em que foi declarada como uma blasfémia pelo Aiatola Ruhollah Khomeini, que emitiu ainda uma fátua, um decreto religioso, a pedir a morte do autor, afirmando que as palavras ali escritas eram um insulto ao Islão e ao profeta Maomé. O livro foi queimado e alguns tradutores da obra foram atacados, como aconteceu com Hitoshi Igarashi, que o traduziu para japonês, e que foi assassinado em 1991.

O escritor, de 75 anos, tem a cabeça a prémio com o valor de cerca de três milhões de euros prometido para quem o mate. Salman Rushdie passou uma década sob proteção do Reino Unido e chegou a adotar o pseudónimo Joseph Anton.

Mesmo enquanto estava sob proteção da Polícia Metropolitana de Londres, Rushdie nunca deixou de escrever. Cecília Andrade diz que esta é a prova da luta do autor pela "prevalência da importância de escrever e de afirmarmos a nossa liberdade".

Em 1998, o governo iraniano anunciou que a fátua tinha terminado. Apesar da decisão, o decreto nunca foi revogado e o livro Os Versículos Satânicos continua proibido no Irão e noutros países.

O melhor livro que já escreveu

Numa entrevista ao jornal italiano La Stampa, Rushdie, que foi nomeado cavaleiro pelo Reino Unido em 2007, foi questionado sobre se alguma vez se arrependeu de ter escrito Os Versículos Satânicos, ao que respondeu: "Há 23 anos que respondo da mesma forma: não. Na verdade, acho que é um dos melhores livros que já escrevi. As pessoas apreciam."

Porém, não há ninguém melhor que o próprio Salman Rushdie para descrever como têm sido estes anos de luta pela liberdade. E foi precisamente isso que o autor fez, num livro de memórias publicado em 2012 e intitulado Joseph Anton - Uma Memória, no qual Salman Rushdie conta a sua história na terceira pessoa.

"É um livro extraordinário, que começa com alguém a dizer-lhe que ele tinha sido vítima de uma fátua e como é viver com isso. É um livro absolutamente notável e de uma coragem imensa", assinala Cecília Andrade. 

Salman Rushdie já esteve várias vezes em Portugal. A última vez foi em 2016, por ocasião do Festival Literário Internacional de Óbidos (FOLIO), mas antes já esteve no Porto e em Lisboa.

No dia 17 de setembro, o premiado autor internacional tinha uma visita marcada na Livraria Lello, para uma conversa com a escritora e crítica literária Isabel Lucas. 

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