Chocados, devastados e preocupados. Como o mundo está a reagir ao esfaqueamento de Salman Rushdie. Jornal iraniano regozija com “o Diabo a Caminho do Inferno"

CNN , Kara Fox e Lauren Said-Moorhouse
13 ago, 19:27
Salman Rushdie atacado em palco (Joshua Goodman/AP)

Mensagens de indignação e apoio estão a chegar de todos os cantos do globo, depois do escritor Salman Rushdie ter sido esfaqueado num local no norte do estado de Nova Iorque, onde estava previsto falar esta sexta-feira

O autor britânico nascido na Índia, que recebeu ameaças de morte pelo seu livro de 1988, "Os Versículos Satânicos", está ligado a um ventilador depois de ter sido esfaqueado pelo menos duas vezes, uma delas no fígado. Segundo o seu agente, espera-se que ele perca um olho.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, escreveu num tweet estar "horrorizado" com o incidente e expressou apoio à recuperação de Rushdie.

"Chocado por Sir Salman Rushdie ter sido esfaqueado enquanto exercia um direito que nunca deveríamos deixar de defender. Neste momento, os meus pensamentos estão com os seus entes queridos. Todos esperamos que ele esteja bem", escreveu Johnson na sexta-feira.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, também escreveu no Twitter o seu apoio a Rushdie após o ataque.

"[Durante] 33 anos, Salman Rushdie encarnou a liberdade e a luta contra o obscurantismo. Acaba de ser vítima de um ataque cobarde das forças do ódio e da barbárie. A sua luta é a nossa luta; é universal. Agora, mais do que nunca, estamos ao seu lado", escreveu Macron.

O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, também condenou o ataque, chamando-lhe "repugnante e cobarde".

"Esta violência sem sentido contra um autor celebrado é também um ataque à liberdade de expressão global e merece uma condenação inequívoca. Que ele tenha uma recuperação total", acrescentou Albanese.

O romancista de 75 anos - filho de um empresário muçulmano de sucesso na Índia - foi educado em Inglaterra, primeiro na Escola Rugby e mais tarde na Universidade de Cambridge, onde obteve um mestrado em História.

Passou mais tarde uma década sob proteção britânica, depois de o seu quarto romance, "Os Versículos Satânicos", levar o líder supremo do Irão, Ayatollah Ruhollah Khomeini, a emitir um decreto religioso, ou fatwa, apelando à sua morte.

A recompensa contra Rushdie nunca foi levantada. Contudo, em 1998, o governo iraniano procurou distanciar-se da fatwa, comprometendo-se a não tentar levá-la a cabo.

Mas em fevereiro de 2017, o líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei, reafirmou o édito religioso.

E em 2019, Khamenei escreveu no Twitter que a fatwa de Khomeini contra Rushdie era "sólida e irrevogável", o que levou a rede social a colocar uma restrição à sua conta.

O político alemão nascido no Irão Bijan Djir-Sarai culpou o governo iraniano pelo ataque, escrevendo num tweet sexta-feira: "O regime dos mullahs iranianos é também responsável por este ataque cobarde. Quem quiser ter relações normais com este regime deve saber isto".

O suspeito no ataque foi identificado como sendo Hadi Matar, de Fairview, New Jersey, EUA. Ainda não houve qualquer reação oficial do Irão ao ataque.

No entanto, vários jornais iranianos de linha dura elogiaram Matar no sábado, incluindo o jornal conservador Kayhan, cujo diretor é nomeado por Khamenei.

"Um milhar de bravos, uma centena de Deus-abençoe. A sua mão deve ser beijada. Bravo ao guerreiro e ao homem obediente que atacou o Apóstata e o perverso Salman Rushdie. A mão do guerreiro tem de ser beijada. Ele rasgou a veia do pescoço do Rushdie", escreveu o jornal.

Outro jornal da linha dura, o Khorasan, publicou como manchete "O Diabo a Caminho do Inferno", mostrando uma imagem de Rushdie numa maca.

A notícia tem agitado autores de todo o Sul da Ásia e da diáspora, incluindo a escritora do Bangladesh Taslima Nasreen, que disse ter ficado "chocada" com a notícia.

"Nunca pensei que isto pudesse acontecer. Ele tem vivido no Ocidente, e tem estado protegido desde 1989", disse Nasreen, conhecida pelos seus escritos sobre a opressão feminina, e que teve alguns dos seus livros proibidos no Bangladesh.

"Se ele é atacado, qualquer um que seja crítico do Islão pode ser atacado. Estou preocupada", disse ela.

Aatish Taseer, escritor e jornalista anglo-americano que viu o seu cartão de Cidadão Estrangeiro da Índia  - uma forma de residência permanente disponível para pessoas de origem indiana – ser revogado pelo primeiro-ministro Narendra Modi em 2019, disse que ficou "devastado" com as notícias.

"Devastado com as notícias sobre Salman Rushdie. Ele foi o primeiro escritor que conheci e a sua determinação em defender a sua liberdade (e a dos outros) face ao extremismo religioso tem sido uma inspiração constante. Eu sei que ele vai ficar bem. Ele tem de estar", disse Taseer.

Escritores e organizações americanas também ficaram abaladas com o ataque. Rushdie tem estado a viver nos Estados Unidos nos últimos anos.

O grupo de Liberdade de Imprensa PEN America afirmou numa declaração de sexta-feira que a organização "ficou abalada com o choque e o horror" após o ataque de sexta-feira.

"Não podemos pensar em nenhum incidente comparável ao de um ataque público a um escritor literário em solo americano", afirmou a CEO, Suzanne Nossel.

"Salman Rushdie tem sido um alvo por causa das suas palavras durante décadas, mas nunca vacilou nem faltou", disse Nossel. "Ele dedicou uma energia incansável à assistência a outros que são vulneráveis e ameaçados".

Nossel afirmou ainda que, horas antes do ataque, Rushdie lhe tinha enviado um e-mail a pedir ajuda para encontrar refúgio seguro para "escritores ucranianos que precisam de abrigo contra os perigos graves que enfrentam".

E.U.A.

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