Autor de "Versículos Satânicos" foi atacado por um homem com uma faca em agosto de 2022. Esteve quase a morrer, passou por várias cirurgias, perdeu um olho. Depois, escreveu um livro, intitulado "Faca", onde contou tudo o que sentiu naquele período. Deverá voltar a fazê-lo como testemunha no julgamento do seu atacante, um homem americano-libanês de 26 anos ligado a radicais islâmicos
"Às onze menos um quarto de 12 de agosto de 2022, numa soalheira manhã de sexta-feira, na zona norte de Nova Iorque, fui atacado e quase morto por um jovem com uma faca mal subi ao palco do anfiteatro de Chautauqua para para falar sobre a importância de manter os escritores fora de perigo." É assim que Salman Rushdie recorda o momento, logo na primeira frase do livro "Faca": naquele dia o escritor britânico participava numa conferência sobre "a criação na América de espaços seguros para escritores de outros lugares" (veja-se a ironia da situação), quando foi atacado por um elemento do público. "Vejo ainda o momento em câmara lenta. Os meus olhos seguem o homem que corre, saltando do meio do público para se aproximar de mim. Vejo-me a levantar-me para ele. (Continuo de frente para ele. Nunca lhe viro as costas. Não tenho ferimentos nas costas.) Levanto a mão esquerda, num movimento de audodefesa. Ele crava-lhe a faca. A seguir há muitos golpes, no pescoço, no peito, no olho, em toda a parte. Sinto as pernas fraquejarem e caio."
Salman Rushdie foi transportado para o hospital. As primeiras notícias eram ainda pouco precisas, não se saberia se sobreviveria. Sobreviveu. Esteve internado durante bastante tempo, passou por várias cirurgias, exames, tratamentos e terapias. Mas sobreviveu.
Dois anos e meio depois, espera-se que testemunhe no julgamento, que começa finalmente esta terça-feira, de Hadi Matar, o homem americano-libanês de 26 anos, que é acusado de agressão e tentativa de assassínio. O julgamento foi adiado de janeiro de 2023, quando a equipa de defesa de Matar solicitou o manuscrito do livro de memórias de Rushdie, "Knife: Meditations After an Attempted Murder", e novamente em outubro, depois de a defesa de Matar ter apelado para uma mudança de local, argumentando que não seria possível encontrar um júri imparcial no condado de Chautauqua, onde o crime tinha ocorrido. Irá acontecer agora, na pequena aldeia de Mayville, no norte do estado de Nova Iorque.
Depois de recusar um acordo para uma pena de 20 anos, Matar enfrenta também acusações federais relacionadas com terrorismo, incluindo o fornecimento de "apoio material e recursos" ao grupo libanês Hezbollah, apoiado pelo Irão. Matar, que nasceu nos EUA mas tem dupla nacionalidade libanesa, declarou-se inocente de ambas as acusações e foi detido sem fiança na cadeia do condado de Chautauqua. A sua mãe explicou que ele se radicalizou durante uma viagem para ver o seu pai no Líbano em 2018. Os procuradores acreditam que o ataque de Matar não foi aleatório, mas motivado pela fatwa, ou ameaça de morte, emitida pela liderança do Irão contra Rushdie em 1989, devido ao livro Os Versos Satânicos, que muitos muçulmanos consideravam blasfemo.
Um ataque inesperado: "Porquê agora?"
Salman Rushdie sobreviveu para contar como foi e decidiu fazê-lo em forma de livro, que é o que melhor sabe fazer. "Faca", lançado em abril de 2024, é sobre o ataque, mas é também sobre a sua vida, a sua família, a mulher Eliza, os filhos. Sobre ser escritor. Sobre ser imigrante. Sobre religião. Sobre o medo. Sobre a morte. Sobre o amor. Não é um livro sobre vingança nem sobre raiva, embora ela esteja lá, em alguns momentos. Este livro "é a minha maneira de assumir a propriedade do que aconteceu, torná-lo meu, fazê-lo uma obra minha. Que é uma coisa que sei fazer. Tratar de um ataque homicida não é uma coisa que eu saiba fazer. Um livro sobre uma tentativa de homicídio podia ser uma maneira de o quase-assassinado lidar com o acontecimento", explica o autor.
É também uma maneira de dizer: este sou eu agora. Sem um olho, com uma mão paralisada, com cicatrizes no corpo e na mente, traumatizado, sem dúvida. "Um homem olha para o seu reflexo no espelho e não tem a certeza de se reconhecer. Quem és tu?, pergunta à figura no espelho. Conheço-te sequer? Será que a certa altura voltarás a ser eu ou é a isto que estou preço agora, este semi-estranho zarolho de cabelo rebelde?" Terá a faca alterado de forma profunda este homem?
Salman Rushdie sabia bem o que era ser ameaçado. Em 1989, após a publicação de “Versículos Satânicos”, o supremo líder do Irão, Ayatollah Khomeini, considerou o livro uma blasfémia contra o Islão e ordenou uma fatwa, a captura e execução do seu autor. Rushdie tornou-se um fugitivo, viveu na clandestinidade, era permanentemente acompanhado por guarda-costas. Deixou de ter vida social, a sua vida familiar desmoronou-se. “Estive perto de me perder de novo e, por uns tempos, patinei. O perigo era real; a hostilidade generalizada era quase pior do que isso”, recorda. Mas, depois, os anos foram passando, e o escritor foi retomando a sua vida sem estar sempre a olhar por cima do ombro. As muitas ameaças nunca se concretizaram. Nada indicava que iria acontecer.
"Tinham passado 33 anos e meio sobre a célebre sentença de morte do aiatola Ruhollah Khomeini ditada contra mim e contra todos os implicados na publicação de 'Os Versículos Satânicos', e durante esses anos, confesso, imaginara por vezes o meu assassino a levantar-se num ou noutro fórum público e a precipitar-se sobre mim exatamente daquela maneira. Por isso o meu primeiro pensamento ao ver aquela forma homicida levantar-se contra mim foi: Com que então és tu. Eis-te aqui. (...) pareceu-me anacrónica. Foi este o meu segundo pensamento: Porquê agora? A sério? Foi há tanto tempo! Porquê agora, passados tantos anos?"
"Pensei: estou a morrer"
No livro, Rushdie viaja ao seu passado na Índia e fala da relação com os pais, recorda os primeiros tempos na Inglaterra, para onde se mudou para estudar em Cambridge, os livros, os conturbados tempos da fatwa, a mudança para Nova Iorque, o súbito encontro com uma porta envidraçada que o levou para os braços de Eliza, a felicidade de voltar a encontrar o amor e de dizer a alguém: "Tu és a minha pessoa". Naquele dia, em Chautauqua, Eliza não estava com ele. Quando a polícia lhe ligou, dizendo-lhe que Salman tinha sido transportado de helicóptero para um hospital em Erie, na Pensilvânia, ninguém sabia ao certo o que iria acontecer. "Ele não se vai safar", pensou ela. Os filhos, a irmã, toda a família foi avisada pelos médicos para que se preparasse para o pior. Como é perder a pessoa amada?
Quando retomou a consciência, o escritor procurou lembrar-se como tudo se tinha passado.
"Aconteceu muito depressa uma série de coisas e não posso ter a certeza da sequência. Houve um profundo golpe da faca na minha mão esquerda, que seccionou todos os tendões e a maior parte dos nervos. Houve pelo menos mais duas profundas facadas no pescoço e outra mais acima no rosto, também do lado direito. A olhar agora para o meu peito, vejo uma linha de feridas a partir do centro, mais dois golpes na parte inferior direita e um corte na parte superior da coxa direita. E há uma ferida do lado esquerdo da boca, e houve também outra ao longo da raiz do cabelo. E houve a faca no olho. Foi o golpe mais cruel e a ferida foi profunda. A lâmina penetrou até ao nervo ótico, o que significava que não haveria possibilidade de salvar a visão. Fora-se."
O ataque durou 27 segundos - em 27 segundos pode recitar-se o pai nosso ou dizer um dos sonetos de Shakespeare, Salman Rushdie não fez nada. "Eu estava simplesmente ali de pé, a fitá-lo, pregado ao chão como um pateta de um coelho encadeado pelos faróis", recorda. "Porque não lutei? Porque não fugi? Fiquei ali especado como um saco de pancada e deixei-o estraçalhar-me”. “Ele limitava-se a esfaquear desvairadamente, a esfaquear e a retalhar, a faca a malhar em mim como se tivesse vida própria."
Mas as pessoas à sua volta reagiram imediatamente. Os seus colegas, no palco, e as pessoas sentadas na plateia, conseguiram imobilizar o agressor. "Não lhes vi os rostos e não sei os seus nomes, mas foram as primeiras pessoas a salvar-me a vida. Nessa manhã de Chautauqua experimentei tanto o melhor como o pior da natureza humana, quase simultaneamente." Henry Reese, cofundador da Cidade de Asilo de Pittsburgh, que concedeu refúgio a escritores exilados sob ameaça de perseguição, e a quem Rushdie atribuiu o mérito de ter ajudado a salvar a sua vida, deverá também ser uma das testemunhas no julgamento.
“Recordo-me de estar deitado no chão a ver alastrar o charco de sangue que saía do meu corpo. É muito sangue, pensei. E a seguir pensei: estou a morrer.”
Rushdie relata então todo o complexo e lento processo de reabilitação, acompanhado por pesadelos e muitos receios, muitas noites simplesmente acordado a pensar em tudo o que se passou e no que tinha agora pela frente. "Podia dar-me por vencido e admitir a derrota. Talvez fosse esta a mensagem da faca." Talvez fosse a altura de afixar um post-it no computador dizendo: "a luta terminou".
Escrever é uma forma de lidar com o trauma
Também teve muito tempo para pensar no seu atacante, que no livro é apenas referido como A. pois Salman Rushdie recusa-se a nomeá-lo.
"Uma faca é uma arma de proximidade e os crimes que comete são encontros íntimos", explica Rushdie. Na altura em que escreveu o livro, sentia-se ligado a esse homem, sabendo no entanto que entre eles existe um mundo de diferenças. Chegou até a estar em frente da prisão onde ele se encontra detido, mas não quis vê-lo, quis apenas tomar consciência da sua existência. O confronto aconteceu apenas na sua cabeça, uma tentativa vã para entender porque é que ele tinha feito aquilo. Rushdie garante que não busca vingança, quer apenas que a justiça faça o seu trabalho. “Não me importo consigo, nem com a sua ideologia que alega representar e que tão mal representa. Tenho a minha vida e o meu trabalho, e há pessoas que me amam. Importam-me essas coisas”. As forças do amor tinham sido mais fortes do que as forças do ódio, conclui.
O dia em que saiu do hospital e atravessou Manhattan para ir para casa foi um dos dias mais felizes da sua vida. Desde então, tem tentado aproveitar o melhor possível esta segunda oportunidade que a vida lhe deu. "Eliza e eu decidimos que não pensaríamos a longo prazo. Seríamos gratos por cada dia de bambúrrio e vivê-lo-íamos o melhor que pudéssemos. (...) o curto-prazismo tornou-se a nossa filosofia. O horizonte estava demasiado distante. Não conseguíamos ver tão longe."
"Não sei se poderei voltar a escrever", disse um dia, ainda durante a convalescença, ao agente e amigo Andrew Wylie. "Hás-de acabar por escrever sobre isto com certeza", retorquiu ele. E assim foi. Depois de saradas as cicatrizes, a escrita impôs-se, sem pedir licença, ainda que não fosse fácil. "É difícil escrever sobre o transtorno de stress pós-traumático em qualquer altura (...). E é realmente difícil fazê-lo com um só olho e uma mão e meia porque o lado físico da escrita, a sua dificuldade, nos lembra a cada digitação a causa da nossa dor. A mão parece estar dentro de uma luva e como que estala quando é movimentada. O olho… é uma ausência com uma presença imensamente poderosa."
O tempo que passou, a terapia e, por fim, a escrita deste livro, intitulado simplesmente "Faca", foram decisivos para que a recuperação fosse completa, admite. "Escrever seria a minha maneira de possuir o que acontecera, assumir o seu controlo, torná-lo meu, recusar-me a ser uma mera vítima”, explica. “Responderia à violência com a arte. Não gosto de encarar a escrita como uma terapia - escrita é escrita, terapia é terapia -, mas havia ali uma boa probabilidade de que contar a história tal como a via pudesse fazer-me sentir melhor."
Na Gala Pen de 2023, concluiu a sua intervenção com "uma velha palavra de ordem marxista: o terror não deve aterrorizar-nos. A violência não deve deter-nos. A luta continua." Afinal, a luta continua. Para Salman Rushdie, de 77 anos, a publicação de "Faca" como que encerrou este capítulo, mas ele tem ainda muitas perguntas sobre que escritor será depois de tudo isto. "Tornei-me uma ave rara, famoso não tanto pelos meus livros como pelos percalços da minha vida. Portanto, a resposta correta à pergunta 'como afetará isso a sua escrita?' é: afetará a maneira como a minha escrita é lida. Ou não lida. Ou ambas as coisas." Iremos sabê-lo em breve, pois Salman Rushdie anunciou que está já a trabalhar em novas obras de ficção: três novelas, cada uma de cerca de 70 páginas, sobre a Índia, a Inglaterra e a América.