Saleem Haddad acaba de lançar "Guapa" em Portugal, pela editora Vírgula D’Interrogação. No seu romance de estreia, escrito há uma década, o escritor de ascendência palestino-libanesa e iraquiano-alemã conta a história de um homem gay num país árabe em contexto de turbulência política e social. A obra, reflexo de um momento em que o autor procurava o seu "próprio lugar no mundo como homem árabe e queer", mantém-se mais atual do que nunca
É a partir dela que, num momento de conflito no Médio Oriente, falamos de uma minoria que tende a ser esquecida pela guerra. “O que mais me inquieta não é só a violência em si, mas a forma como ela é narrada”, diz Saleem Haddad. Para lembrar que, quando a guerra se impõe, “desaparecem” os espaços onde as pessoas LGBTQIA+ “poderiam encontrar algum grau de segurança ou expressão”.
É também a prova, reitera o escritor, de que há “formas de resistência e redes de cuidado”, que muitas vezes são “invisíveis” do exterior. O autor vive, atualmente, em Lisboa, onde se torna “desconcertante” o contraste com a realidade dos pais, que “vivem em Beirute sob bombardeamentos israelitas”.
O Médio Oriente está, de novo, a viver um período de grande tensão e violência. Como alguém que acompanha de perto a realidade desta região, como olha para este momento histórico?
Parece-me ser, em simultâneo, uma rutura e uma continuidade. Por um lado, a escalada de violência que estamos a testemunhar é devastadora e difícil de processar. Por outro, insere-se numa história muito mais longa de conflitos por resolver, de legados coloniais e de ciclos de impunidade. O que mais me inquieta não é só a violência em si, mas a forma como ela é narrada: de que vidas se faz luto, que mortes são justificadas, quão rápido populações inteiras são reduzidas a abstrações. Isto cria uma espécie de entorpecimento moral que, à sua maneira, é tão perigoso como a própria violência. Contudo, sinto que esse entorpecimento moral é algo que todos temos a obrigação de combater. Ser humano é, neste momento, estar em agonia.
Em tempos de guerra ou de crise humanitária, a sobrevivência física tende a ocupar todo o espaço. Nessas circunstâncias, questões de identidade — como a orientação sexual ou a identidade de género — ficam suspensas? Ou tornam-se ainda mais vulneráveis?
Não creio que a identidade alguma vez se suspenda. Ela só se enreda em modos mais urgentes e precários. A questão de quem consegue sobreviver, de como o faz e em que condições, é sempre moldada pela identidade – não apenas política e económica, mas também de género e de sexualidade. Para as pessoas LGBTQIA+, os espaços onde poderiam encontrar algum grau de segurança ou expressão, muitas vezes, desaparecem durante os conflitos. Em momentos de bombardeamentos em massa indiscriminados, como temos visto em Gaza e no Líbano, as comunidades juntam-se de formas bonitas e solidárias, mas também são dilaceradas e separadas de formas terríveis.
Do seu ponto de vista, como é que a guerra e o colapso político afetam especificamente as pessoas LGBTQIA+ no Médio Oriente?
Existe, muitas vezes, uma tendência de separar “violência política” de “questões sociais”. Contudo, para as pessoas LGBTQIA+, as duas estão profundamente interligadas. Em momentos de colapso, as instituições que poderiam oferecer uma proteção, mesmo que mínima, desaparecem. Além disso, sob pressão, as comunidades podem tornar-se mais conservadoras ou desconfiadas. As pessoas queer podem tornar-se bodes expiatórios. Ou, pura e simplesmente, serem empurradas ainda mais para as margens. Não podemos pensar numa libertação queer sem pensar na libertação de toda a comunidade – não apenas das mulheres, mas no caso da Palestina, por exemplo, de todas as pessoas.
Ao mesmo tempo, acho importante que não reduzamos as vidas LGBTQIA+ na região a narrativas de pura vitimização. Existem formas de resiliência, redes de cuidado e maneiras de navegar estas realidades, que muitas vezes são invisíveis a partir do exterior. Elas existem sob uma enorme pressão – e a guerra intensifica essa pressão de formas muito reais. Penso que o meu romance “Guapa” procura demonstrar isso mesmo: como as nossas histórias de opressão e dor estão profundamente entrelaçadas com histórias de solidariedade, prazer, alegria e comunidade.
Pode a identidade queer tornar-se uma forma adicional de exílio? E a invisibilidade, pode ser uma forma de sobrevivência?
Sim, absolutamente. Uma das ideias centrais em “Guapa” é a de que o exílio não é apenas geográfico. Pode ser emocional, social, interno até. Podemos estar na nossa própria casa, na nossa própria cidade, e, ainda assim, sentirmo-nos estranhos. A invisibilidade pode tornar-se uma forma de sobrevivência, mas tem um custo. Exige uma negociação constante do eu: o que se revela, o que se esconde e como nos movemos pelo mundo. Com o tempo, pode criar-se uma espécie de fragmentação. Sobrevive-se, mas não se vive necessariamente em pleno. Para alguns, esta manobra, que é uma espécie de sala de espelhos, é fácil de fazer. Há até algumas pessoas queer que preferem viver dessa forma. Vemo-lo em todo o lado: homens casados com mulheres que mantêm relações homossexuais em segredo, por exemplo. Pessoalmente, quando era mais novo, descobri que esta experiência de múltiplos “eus” era muito desorientadora para mim.
Quando escreveu “Guapa”, imaginava que o livro continuaria a ser tão relevante quase uma década depois?
É algo em que nunca teria pensado. Sinto-me muito honrado por os leitores continuarem a conectar-se com a história e com as personagens. Escrevi-o também num momento em que estava a tentar encontrar o meu próprio lugar no mundo como homem árabe e queer. Penso que esta procura por um sentido de identidade e de paz interior continua a ressoar em todo o mundo.
Há muitos leitores que se perguntam até que ponto "Guapa" é autobiográfico. Como responde a essa curiosidade?
Costumo dizer que é emocionalmente autobiográfico em relação a um determinado período da minha vida, quando estava a negociar a minha identidade e a tentar encontrar o meu lugar no mundo como homem árabe queer. Contudo, não é autobiográfico no sentido de os acontecimentos do livro terem acontecido comigo ou de espelhar diretamente a minha vida.
Pode a literatura criar espaços de liberdade que não existem na realidade política? É um lugar de resistência?
Penso que a literatura pode abrir espaços de imaginação que nos permitem ver para lá das limitações do presente. Pode acolher contradições, complexidades e ambiguidades de formas que o discurso político muitas vezes não consegue. Pode ajudar-nos a ver para lá de um mundo moderno que está quebrado e oferecer algum consolo. A insistência da literatura na plenitude da experiência humana pode ser uma forma de resistência.
Ao mesmo tempo, mantenho a cautela, para não exagerar aquilo que a literatura pode fazer. Não para bombas nem mudar leis de um dia para o outro. Mas pode alterar a forma como nos compreendemos uns aos outros e como narramos as nossas vidas – e isso tem o seu próprio poder silencioso.
Como imagina que podia ter sido a sua vida se tivesse vivido em permanência num país do Médio Oriente sendo um homem gay?
É difícil dizer. Importa também referir que não deixei a região só por causa da minha sexualidade. É certo que o desejo de viver uma vida mais aberta foi um fator que pesou na minha decisão, mas houve também fatores económicos e políticos que me levaram a sair do mundo árabe. Ganhei muito com isso, sobretudo através da liberdade e das oportunidades que um passaporte ocidental proporciona. Ainda assim, de certa forma, lamento a pessoa que podia ter sido se tivesse ficado. E lamento o facto de ter vivido a maior parte da minha vida longe da minha família, mesmo que os veja com frequência.
O Ocidente tende a olhar para a região do Médio Oriente como um espaço homogéneo de repressão. É uma visão simplista?
Claro que é. E também serve um propósito político muito claro. Quando se pinta uma sociedade como bárbara e retrógrada, está-se a desumanizar essas pessoas. Com o tempo, é algo que conduz a uma aceitação generalizada quando essas pessoas perdem as suas vidas, as suas casas e as suas comunidades devido a bombas e a exércitos estrangeiros. É o objetivo de políticas como o pinkwashing, que apresentam o mundo árabe como uma sociedade uniformemente homofóbica, em contraste com a ideia de Israel como um refúgio para pessoas LGBTQIA+. A realidade é muito mais complexa, mas esta homogeneização serve um propósito político, muitas vezes à custa das próprias pessoas queer no mundo árabe.
Vive agora em Lisboa. De que forma a cidade tem sido um espaço seguro para si?
Sinto-me, sem dúvida, mais confortável a andar de mão dada com meu parceiro em Lisboa do que alguma vez me senti quando vivia em Londres, por muito estranho que isso possa parecer. A ameaça de violência homofóbica, aqui, parece-me muito menor do que em Londres, onde as pessoas são muito mais imprevisíveis. Ainda assim, além da questão da homofobia e da violência homofóbica, o sentimento geral de segurança que sinto em Lisboa pode ser bastante desconcertante, perturbador até, quando faço a comparação com a guerra no Médio Oriente. Porque o meu coração continua com os meus amigos e familiares, sobretudo os meus pais, que vivem em Beirute sob bombardeamentos israelitas.
Acredita que, no futuro, poderá existir um lugar de plena aceitação para pessoas LGBTQIA+ no Médio Oriente?
Claro, a tolerância está em constante mudança, avança e recua. Não podemos tomar certas liberdades como garantidas, nem devemos assumir que lugares menos acolhedores para pessoas LGBTQIA+ vão continuar a ser sempre assim. Basta olhar para o aumento do sentimento e da legislação anti-LGBTQIA+ em partes dos Estados Unidos e da Europa. Não importa onde estejamos: o único ponto certo é que as coisas vão mudar. Quanto ao Médio Oriente, continuo esperançoso.