Mais de 50 anos depois da morte de Salazar, o tema do Estado Novo continua a vir ao de cima. Para uns "o tempo de Salazar é que era bom", para outros muito pelo contrário. Mas quais são os motivos para esta aparente nostalgia?
(CNN Autárquicas 2025) - "Antigamente é que era". "No tempo de Salazar é que era bom". "Antes isto não acontecia". Já todos ouvimos alguém usar estas expressões. A desilusão com o presente ou a nostalgia do passado são duas razões para explicar o porquê destas comparações. Enquanto uns evocam Salazar e a sua ditadura como um tempo de ordem, disciplina e valores sólidos, outros lembram-se de um regime que suprimiu liberdades, impôs censura e perpetuou desigualdades.
O sociólogo Filipe Montargil considera que “há gerações que viveram o Estado Novo que têm boas memórias de infância, da juventude, do período que era o período de Salazar, mas isso não quer dizer que há propriamente uma nostalgia do Estado Novo”, assegura, adiantando, que o que existe é apenas “uma nostalgia da juventude”.
Já para o jornalista e escritor Fernando Dacosta não se trata tanto de um saudosismo político ou de uma defesa do salazarismo, mas sim da reação a uma desilusão com o presente: “As pessoas, nos últimos tempos, olham para o futuro e não perspetivam nada, há um vazio em relação ao futuro. Quando é assim, as pessoas têm tendência a voltarem-se para o passado”.
A historiadora Irene Flunser Pimentel analisa as coisas de outra forma e diz que a nostalgia em torno do salazarismo resulta, em grande parte, de desconhecimento ou esquecimento. “Esse apego ao passado é de quem não viveu nada disso ou de quem viveu e esqueceu-se porque já tem uma certa idade”.
António de Oliveira Salazar nasceu há mais de 130 anos no Vimieiro, Santa Comba Dão, e foi presidente do Conselho de Ministros entre 1933 e 1968, sendo uma figura de destaque e promotor do Estado Novo.
Segundo Fernando Dacosta, o antigo ditador entendeu que “as pessoas escolhem a segurança em vez da liberdade, porque a liberdade serve de pouco sem segurança”. Mas o sociólogo Filipe Montargil frisa que “saber se estamos numa sociedade mais ou menos segura não é assim tão linear”.
Salazar era por muitos visto como uma figura paternal, no sentido daquilo que era a figura tradicional do pai – mais distante e autoritária. “Falava relativamente pouco. Mas quando falava, ditava uma sentença. Dizia como é que era. É uma coisa quase divina. É um bocadinho como Deus. Deus não se manifesta sempre”, afirma o sociólogo.
“Diz-se muito que no tempo do Salazar é que era bom”, recorda Irene Pimentel, lembrando, no entanto, que o Estado Novo esteve longe de ser uma época dourada, antes pelo contrário, foi marcado por desigualdades, pobreza e repressão. “Muitas pessoas tiveram uma vida horrível. Desde logo, os que tiveram de ir à guerra e correr o risco de serem mortos. Os que tiveram de emigrar, os que não puderam estudar e tiveram de trabalhar logo em criança.” Durante o Estado Novo, a taxa de analfabetismo era uma das maiores na Europa, principalmente nas mulheres - os Censos mostram que apenas uma em cada quatro sabia ler nos anos 60.
O regime, lembra a historiadora, sustentava-se em dois pilares: a polícia política, para reprimir aqueles que se revoltavam, e a censura. Esta última não se limitava à política, mas moldava a própria perceção da realidade: "Casos de adultério, de aborto ou de assassinatos. Tudo isso era censurado porque queriam dar a imagem de que isto era um paraíso onde tudo funcionava bem”.
Para Irene Pimentel, a persistência do saudosismo alimenta-se de narrativas políticas que exploram medos contemporâneos - a insegurança, a corrupção, a desordem. Mas alerta que se trata de uma construção enganadora: “Claro que há crimes, há crimes em todo o lado, mas a narrativa da falta de segurança é também uma arma de propaganda política”. “O esquecimento e a ignorância possibilitam que a extrema-direita diga que as coisas eram maravilhosas e que agora é tudo mau”, sublinha a historiadora.
Filipe Montargil lembra, por outro lado, que as redes sociais, desde logo pela falta de regulação, são um espaço onde “o discurso negativo, o discurso de ódio e o discurso crítico tem muito mais eco e esse é um dos motivos pelo qual a comunicação da extrema-direita funciona melhor nestes novos média”. Acerca do esquecimento do salazarismo refere que “a memória coletiva não é eterna e que como não temos essa memória, de certa maneira, é mais fácil voltarmos a embarcar em discursos que não são necessariamente iguais, mas que em alguns elementos são muito próximos”.
Depois da queda do Estado Novo, em 1975, os partidos de esquerda dominavam a assembleia da república com 60,8% dos mandatos existentes. Em 2024 o paradigma já é bastante diferente, sendo a maioria dos deputados de direita, cerca de 57%.
Dacosta reconhece as limitações do regime - “não havia liberdade de expressão, havia censura, as ideias não circulavam, havia a repressão policial e política” - mas lembra também que, no meio das dificuldades, existia uma vida social mais coesa que permitia às pessoas resistir às dificuldades da época: “O Estado Novo apresentou um período de grande estabilidade, em que a ajuda das pessoas era bastante positiva e bastante generalizada”.
Seja pelo esquecimento denunciado por Irene Pimentel ou pela melancolia sublinhada por Fernando Dacosta, a historiadora deixa bem claro que “o sentimento nostálgico é um entrave ao progresso”.
Entre a repressão e a solidariedade, entre a censura e a estabilidade, a memória do salazarismo divide opiniões. Mas para Irene Pimentel, a História serve precisamente para iluminar escolhas: "É melhor saber História do que não saber, dá o conhecimento dos vários caminhos que houve no passado e, se calhar, ajuda-nos a pensar nos caminhos que queremos ou não queremos para o futuro”.