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Legal and Human Resources Director na Astrazenaca Portugal

Gender pay gap: o custo silencioso da desigualdade salarial nas empresas

20 abr, 14:55

No debate económico contemporâneo, a desigualdade salarial deixou de ser apenas um tema social ou reputacional. É uma variável de governação, com impacto direto na criação de valor, na retenção de talento e na exposição a risco regulatório. Ainda assim, continua a ser tratada em muitas organizações como um exercício formal associado a uma data simbólica ou a um relatório de sustentabilidade.

O problema é estrutural: a desigualdade não desaparece com compromissos públicos. Desaparece com processos.

A maioria das empresas já dispõe de dados suficientes para avaliar diferenças remuneratórias. O que frequentemente falta é disciplina analítica e responsabilidade ao nível do topo da gestão. Publicar uma diferença salarial média entre homens e mulheres é um primeiro passo, mas é insuficiente. Médias agregadas misturam funções, níveis e trajetórias distintas. Servem para sinalizar, mas não para corrigir.

Se a equidade salarial for encarada como matéria estratégica, o processo tem de ser mais exigente.

O primeiro passo é garantir arquitetura organizacional sólida. Sem uma estrutura de funções clara, com critérios objetivos de responsabilidade, impacto no negócio e complexidade, qualquer comparação será frágil. Funções mal definidas ou títulos inflacionados criam espaço para arbitrariedade.

O segundo passo é análise ajustada. Comparar salários exige controlo de variáveis objetivas: função, nível, antiguidade, desempenho, escassez de competências no mercado e localização. Só isolando estes fatores é possível identificar diferenças que não têm justificação económica ou funcional. Essa análise deve incluir remuneração fixa, variável e benefícios, sobretudo nos níveis mais elevados da organização.

O terceiro passo é assumir que os desvios não se resolvem por inércia. Quando são identificadas diferenças estatisticamente relevantes e não explicadas por fatores objetivos, a decisão tem de ser concreta: ajustar, corrigir, reequilibrar. E essa decisão não pode ficar circunscrita à área de Recursos Humanos. Tem de ser validada e acompanhada pelo topo da gestão. Sem esse patrocínio, a equidade torna-se um exercício técnico sem consequência estratégica.

Há uma ideia confortável, mas incorreta, de que a desigualdade salarial resulta sobretudo de discriminação explícita. Na realidade, surge quase sempre por acumulação. Propostas iniciais ligeiramente diferentes. Negociações salariais desiguais. Promoções adiadas. Menor exposição a projetos críticos. Avaliações de desempenho influenciadas por enviesamentos inconscientes. Pequenas assimetrias que, ao longo de uma década, produzem diferenças estruturais.

Do ponto de vista económico, isto tem custos tangíveis. Organizações que não monitorizam e corrigem estes desvios enfrentam maior rotatividade, perda de talento qualificado e fragilização da sua proposta de valor. Num mercado onde a escassez de competências é estrutural, ignorar estes fatores é um erro de gestão. Acresce o risco reputacional e regulatório, num contexto europeu em que a transparência salarial tende a reforçar-se e a pressão pública aumenta.

O que aprendemos com as organizações que conseguem reduzir diferenças injustificadas?

Primeiro, que equidade salarial é um tema de controlo interno. Tal como o risco financeiro ou o risco operacional, deve ser monitorizado com indicadores claros, metodologia consistente e reporte regular.

Segundo, que a responsabilização altera comportamentos. Quando métricas de equidade são acompanhadas ao nível do topo da gestão, deixam de ser uma iniciativa pontual e passam a integrar o sistema de avaliação global da organização.

Terceiro, que transparência interna é determinante. Quanto mais claros forem os critérios de remuneração, progressão e elegibilidade para funções críticas, menor é o espaço para decisões casuísticas.

O que continua a ser difícil?

Persistem desafios estruturais. A sub-representação feminina em determinadas áreas técnicas ou funções com elevada mobilidade internacional reduz o universo comparável nos níveis mais altos. Interrupções de carreira e desigual distribuição de responsabilidades familiares continuam a influenciar trajetórias profissionais. E existe ainda um obstáculo cultural: falar de remuneração permanece desconfortável em muitas organizações.

Mas reconhecer complexidade não pode servir de justificação para inação.

Num ambiente empresarial cada vez mais orientado por métricas, capital humano e reputação, a desigualdade salarial não é um detalhe estatístico. É um indicador da maturidade do sistema de governação.

Organizações que tratam o tema como formalidade cumprem calendário. As que o integram nos seus mecanismos de decisão protegem valor, reforçam confiança interna e reduzem risco futuro.

A igualdade salarial não é um exercício de sensibilização. É disciplina de gestão. E começa onde as decisões estratégicas são tomadas: no topo da gestão.

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