Empresa anunciou no fim de 2025 o fim da operação para os Açores a partir de 29 de março
A saída da Ryanair dos Açores já está a ter efeitos no turismo, com mais de metade das unidades de alojamento local a registarem taxas de ocupação abaixo dos 50% para a Páscoa e um terço sem reservas, alertou a associação.
Em declarações à agência Lusa o presidente da Associação de Alojamento Local (ALA) dos Açores, João Pinheiro, disse que “a Páscoa será o primeiro teste” ao turismo açoriano, após o fim da operação da companhia aérea de baixo custo Ryanair para os Açores, neste fim de semana.
“Já estamos a ter impactos”, alertou João Pinheiro, sublinhando que haverá unidades que “não vão ter um único cliente” durante o período da Páscoa.
Segundo um inquérito realizado pela ALA, "mais de 50% dos associados têm uma taxa de ocupação abaixo dos 50%" para a Páscoa, enquanto "cerca de um terço não regista qualquer reserva".
A Ryanair anunciou no fim de 2025 o fim da operação para os Açores a partir de 29 de março (domingo), devido às taxas aeroportuárias e à tributação ambiental europeia. Segundo o ‘site’ da companhia, os últimos voos de e para o arquipélago são feitos no sábado (Lisboa – Terceira – Lisboa e Porto - Ponta Delgada – Porto).
João Pinheiro disse à Lusa que a saída da Ryanair terá como consequência direta a redução do número de lugares disponíveis para o arquipélago, afetando não só o alojamento local, mas também restauração, comércio e outros serviços.
Atualmente existem nos Açores 4.600 unidades de alojamento local distribuídas pelas nove ilhas, com um total de 26 mil camas, o que representa 62% da capacidade de alojamento do arquipélago açoriano.
"E, sem este dinamismo económico através do alojamento local, que representa mais de 60% das camas e cria um rendimento extra às famílias e alavanca os outros setores, vamos ter uma redução na economia e nos impostos. Acho que, neste momento, não estamos num momento de maturidade do destino Açores", apontou.
O presidente da ALA considerou que, "sem uma estratégia eficaz" para o turismo e para a mobilidade aérea, o arquipélago poderá perder competitividade face a destinos concorrentes como o Algarve, a Madeira ou as Canárias, que continuam a captar companhias aéreas e beneficiam de maior oferta de voos.
“Estamos numa posição geográfica que até nos podia favorecer num contexto de instabilidade internacional, devido à guerra, mas não estamos a aproveitar essa oportunidade”, lamentou João Pinheiro.
O responsável disse que o impacto poderá agravar-se nos próximos meses, revelando "muita preocupação" com o ritmo de reservas para a época alta, entre maio e setembro, que "não está a ter o mesmo ritmo dos últimos anos".
"As nossas pequenas e médias empresas são muito frágeis a nível de tesouraria, porque temos a mais alta sazonalidade do país. Trabalhamos muito no verão para fazer face à quebra enorme que existe na época baixa. E, se há alguma alteração da taxa de ocupação e na receita nos meses mais altos, vamos ter dificuldades de tesouraria das empresas que têm custos fixos e altos", alertou.
O presidente da ALA admitiu que "muitos empresários" do alojamento local possam colocar as suas unidades à venda ou para arrendamento a longo prazo, "se não houver efetivamente um investimento no turismo".
“Os empresários vão ter de ser proativos e não deixar acontecer como o nosso Governo [Regional] está a deixar acontecer. É preocupante que esteja a ocorrer [a saída da Ryanair] num momento como este”, sustentou, acrescentando que o setor teme um “contraciclo” no turismo açoriano.
“Sem investimento e sem resposta estratégica, vamos assistir a uma retração da economia local, com impacto no emprego, nos rendimentos das famílias e nas receitas fiscais”, apontou.
A associação antecipou, ainda, que a redução de lugares disponíveis poderá pressionar os preços das viagens, tornando os Açores "menos competitivos" face a outros destinos turísticos.
“Perspetivo um grande impacto na economia açoriana direta e indiretamente, porque vamos ter só a TAP e a SATA a voar nas épocas baixas. E isso poderá fazer uma pressão enorme no preço. E,os nossos concorrentes mais diretos, como Madeira e Canárias, com todas as companhias a voarem para lá, serão um destino sempre muito mais competitivo do que voar par aos Açores”, vincou.
Turismo açoriano em sobressalto
O fim da operação da companhia aérea de baixo custo Ryanair para os Açores, neste fim de semana, preocupa os empresários do arquipélago, que temem quebras de visitantes, num território onde o turismo é um importante pilar da economia.
A Ryanair anunciou no fim de 2025 o fim da operação para os Açores a partir de 29 de março (domingo), devido às taxas aeroportuárias e à tributação ambiental europeia. Segundo o ‘site’ da companhia, os últimos voos de e para o arquipélago são feitos no sábado (Lisboa – Terceira – Lisboa e Porto - Ponta Delgada – Porto).
Em janeiro, o presidente executivo da companhia aérea, Michael O’Leary, disse, em entrevista à agência Lusa, que a Ryanair iria encerrar a base nos Açores no fim de março, rejeitando qualquer possibilidade de recuo, o que efetivamente aconteceu.
O Governo Regional (PSD/CDS-PP/PPM) ainda tentou, sem sucesso, que a companhia mantivesse a operação na região, iniciada em 2015.
Em fevereiro, a secretária do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral, informou que o executivo estava a “trabalhar” com a TAP e com a SATA – as outras companhias com rotas comerciais regulares para o arquipélago - para colmatar a saída da Ryanair e a fazer “diligências” para levar outras companhias para a região a “médio prazo”.
Também o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, disse este mês que o executivo está a avaliar alternativas de promoção para responder ao vazio deixado pela transportadora irlandesa.
“Estamos a trabalhar para representar, na boa economia do mercado, soluções que, na verdade, resolvam os vazios. E que encontremos as alternativas relativamente à valorização de uma estratégia de promoção do destino turístico Açores”, afirmou.
O Grupo SATA revelou já no início do ano estar a avaliar como poderá “contribuir para mitigar eventuais constrangimentos” para turistas e residentes.
“A SATA acompanha com atenção a decisão da Ryanair de cessar as suas operações nos Açores, reconhecendo o impacto que esta saída poderá ter na mobilidade dos residentes, na conectividade do arquipélago e no setor do turismo”, adiantou na altura à Lusa fonte oficial do grupo de aviação açoriano, que não voltou agora a prestar declarações sobre o tema.
O certo é que, com a saída da Ryanair, se ouvem preocupações no meio empresarial açoriano, sobretudo de áreas dependentes do turismo, como hotelaria, restauração, alojamento local, empresas de ‘rent-a-car’ e de animação e atividades turísticas, atendendo à grande importância que o setor tem para a dinamização económica da região.
Ainda em fevereiro, durante a BTL 2026 - Better Tourism Lisbon Travel Market, em Lisboa, o presidente do executivo regional considerou que a aposta na autenticidade, na identidade histórica e na qualidade da experiência o é fator da consolidação do arquipélago como “destino turístico de excelência e de eleição”.
Bolieiro referiu que o rendimento previsto com este setor em 2019 apontava para 104 milhões de euros e, atualmente, “esse valor atinge os 206 milhões de euros, o que representa um aumento de 97%”.
Com a saída da Ryanair, os empresários temem mudanças. A Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) estima que provoque uma redução anual do Produto Interno Bruto (PIB) regional entre 1,5% e 1,7%, numa quebra até 104,5 milhões de euros.
Considerando que "o turismo representa cerca de 20% do PIB regional e que a Ryanair é responsável por uma quota estimada entre 7,5% e 8,7% do total das dormidas turísticas", a saída da companhia poderá traduzir-se "numa redução do PIB regional entre aproximadamente 90,1 milhões e 104,5 milhões de euros por ano, o que corresponde a uma diminuição estimada entre 1,5% e 1,7% do PIB previsto para 2026", adiantou a CCIPD.
A Ryanair ligava o continente português aos Açores com voos de Lisboa e do Porto para as ilhas de São Miguel e Terceira.
A saída da transportadora irlandesa acontece dias depois da operação “Last Call”, que incluiu a realização de buscas pela Polícia Judiciária (PJ) em “vários locais da administração regional”.
Através da Unidade Nacional de Combate à Corrupção, a PJ realizou a operação nos Açores (São Miguel, Terceira e Faial) e em Lisboa, no âmbito de um inquérito por “suspeitas do favorecimento de uma companhia aérea por parte de uma entidade pública” e constituiu cinco arguidos.
O secretário regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Paulo Estêvão, esclareceu que as buscas realizadas pela PJ ocorreram em “vários locais da administração regional”, assegurando que há “total colaboração com as autoridades” por parte do executivo.
Ainda de acordo com a polícia, em causa “estão suspeitas do favorecimento de uma companhia aérea por parte de uma entidade pública, designadamente através de financiamento ilegal na adjudicação indevida de contratos financiados pelo Programa Operacional dos Açores 2030”.