Entre a casa e (ainda) os palcos, um dia na vida de Ruy de Carvalho: "Acho que não fui mau para as pessoas. Quando partir, parto feliz"

1 ago, 18:00
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REPORTAGEM || Aos 99 anos, Ruy de Carvalho continua a subir ao palco e é o ator mais velho do mundo em atividade. A vida corre agora mais devagar, mas o trabalho continua a chamá-lo. Acompanhámo-lo em casa e fora dela, entre os gestos da rotina, as memórias e uma vida inteira dedicada à representação

“Os dias de teatro dão-lhe vida.” Ainda se acertavam datas com Paula, a filha de Ruy de Carvalho, quando ela acrescentou que esses eram também “os dias mais felizes”. Por isso, escolheu-se um dia em que o ator tinha espetáculo: haveria tempo para filmar e conversar em casa e, ao fim da tarde, acompanhá-lo na saída para o teatro.

O trabalho de Ruy de Carvalho atravessa várias gerações de portugueses. Conhecem-se as milhares de entrevistas que já deu e sabe-se que continuou em atividade mesmo depois do AVC sofrido em dezembro. Menos conhecidos são os dias entre os espetáculos: os de casa, os de descanso, os de um homem cuja vida abrandou, mas continua a ter o palco ao fundo.

— Agora tem tido dias mais calmos?

— Sim, também preciso de alguma tranquilidade… Mas trabalhar não me importo.

Os dias são, de facto, mais calmos. Ruy de Carvalho vive num apartamento em Paço de Arcos, onde esteve sozinho até há pouco tempo. Desde janeiro, passou a ter o apoio de cuidadoras. Os filhos estão sempre por perto e organizam as poucas deslocações do pai. Quando não há nada marcado, privilegia o descanso e as roupas informais. Vê pouca televisão. Liga-a sobretudo para ouvir o Mezzo, um canal dedicado à música clássica e ao jazz. O gosto veio da mãe, mas já lá iremos. Duas vezes por semana, tem fisioterapia. Por vezes, os filhos fazem-lhe companhia ao almoço. Nos dias de espetáculo, descansa até chegar a hora de se vestir e sair. As cerimónias de entrega de prémios são praticamente a única outra exceção à rotina de casa.

Quando se entra na sala, são precisamente as homenagens que primeiro saltam à vista. Enchem o espaço: prémios, fotografias, diplomas, condecorações atribuídas por chefes de Estado e um enorme “Óscar” que haveria de destacar durante a conversa. Não é de ouro, nem veio de Hollywood. É um busto feito de papel por crianças de uma escola do Porto, um presente simples entre algumas das maiores distinções que um homem pode receber, mas que o ator escolheu deixar bem dentro da sua linha de visão. “Guardo-o com muito carinho.” 

A poltrona ocupa um dos cantos da sala, voltada para a varanda e para o mar.

— Vai ali um grande barco. Parece ser um cargueiro.

À sua volta estão o tempo e a família. Debaixo da televisão, há fotografias dos filhos, dos netos e dos bisnetos, ao lado de um relógio pequeno e simples. Mais perto, um telefone fixo antigo, ainda com teclas numéricas. Pendurado no candeeiro está um calendário onde os dias que já passaram aparecem riscados. Ao conversar com Ruy de Carvalho, percebe-se, porém, que não olha para eles como quem subtrai. Parece somá-los.

— Acha que teve uma vida bem vivida?

— Eu tenho uma vida bem vivida. Com algumas coisas, mas vivi-a intensamente.

Respondeu sem hesitar e no presente, como quem recorda que a vida continua.

Era uma terça-feira. À noite haveria teatro e, por volta das 18h30, Luís, que trabalha para a produtora da peça, iria buscá-lo para o levar até Odivelas. Estava bem arranjado e bem-disposto, embora falasse pouco, como se quisesse guardar a energia para o momento certo. Percebia-se também alguma falta de vontade para entrevistas. Não por impaciência ou feitio, mas porque já deu milhares e talvez agora prefira o recato, tenha aprendido a poupar-se.

— Já deve estar farto de entrevistas, não?

— Um bocadinho… Já não sei o que dizer mais.

— E o que é que acha que as pessoas ainda não sabem de si? O que é que ainda lhe falta perguntar?

Foi então, com a filha sentada ao lado, que começaram a surgir histórias menos repetidas. Ruy falou da infância na Covilhã, cidade onde viveu por causa do pai, oficial do Exército, e da qual ainda guarda boas recordações. A mãe era pianista. Percebe-se que era com ela que passava mais tempo e foi também dela que recebeu o gosto pela música clássica. Fala dela com carinho, como se a distância não fosse assim tão grande, e isso impressiona. Mesmo depois de uma vida inteira como marido, pai, avô e bisavô, nunca se deixa inteiramente de ser filho. Ruy ainda se lembra do cheiro da mãe e guarda um retrato dela no quarto.

Enquanto o pai deixava sair memórias avulsas, Paula acrescentava as suas. Para explicar a proximidade entre os dois, recordou um episódio de quando tinha 13 anos. Foi o pai quem lhe falou pela primeira vez do período menstrual. “Foi à farmácia, comprou-me pensos Serena e explicou-me que estava quase a chegar à altura de me tornar uma mulherzinha.” Paula sublinhou como aquele gesto era invulgar em 1969: “Isto é um pai!”

— Com quem é que aprendeu a ser pai? Os valores que demonstra, a empatia, o respeito pelo outro, o amor ao próximo… Aprendeu tudo isso com os seus pais?

— Foi. Quer dizer, a minha natureza dá para isso também. Mas, sim, foi com os meus pais. Sobretudo com a minha mãe.

Para lá do ator, há um homem que atravessou vários mundos. Viveu uma ditadura, uma guerra mundial, a Guerra Fria e um tempo polarizado que, aos seus olhos, parece regressar.

— Estão todos loucos. São uns megalómanos.

Encontra semelhanças entre o presente e aquilo que já viu. Recorda as injustiças de um país sem democracia, mas não se demora nelas. “Já passou.”

Entre as conversas, há momentos em que a fragilidade se torna mais visível. Num almoço com o filho, um “preciso de descansar”; depois, as horas de repouso antes de sair de casa. Afinal, são 99 anos. A necessidade de parar marca o ritmo dos dias, mas há um momento em que o cansaço parece desaparecer: quando Ruy de Carvalho vai trabalhar. Pode parecer contraditório, mas, no seu caso, trabalhar não lhe retira vida. Devolve-lha.

À saída do carro, já à porta do teatro, as palavras da filha ganharam pleno sentido. A disposição mudou. Ruy começou a sorrir, cumprimentou quem encontrou pelo caminho e o sentido de humor reapareceu. Gosta de chegar cedo. No camarim, tira o casaco, senta-se e observa os adereços: o chapéu, o lenço, os pequenos objetos de que precisará mais tarde. Abre uma caixa e confirma se está tudo no lugar. Para jantar, pede uma sopa e um croquete. Depois, pede vinagre para pôr na sopa. “É um gosto antigo”, explicou mais tarde. “Um hábito.”

Ficou a jantar rodeado pelos colegas, pela equipa da produtora e pela responsável pelo guarda-roupa. Poucos minutos antes da entrada em cena, esperava nos bastidores, sentado numa cadeira e com as mãos pousadas sobre a bengala, à espera da deixa. Quando se levantou, não era apenas um ator que se preparava para entrar em palco. Estavam ali o filho, o marido, o pai, o avô, o bisavô e o amigo. Um homem inteiro a caminhar, outra vez, para o lugar que lhe pertence.

“Acho que não fui mau para as pessoas. Quando partir, parto feliz.”

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