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"Vivam todos, continuem a viver e não pensem na morte, que não vale a pena": Ruy de Carvalho voltou aos palcos

23 abr, 16:08
Ruy de Carvalho

Aos 99 anos e depois de um AVC, o ator recusa-se a parar. Na quarta-feira à noite voltou a subir ao palco, desta vez no Coliseu do Porto, para mais uma apresentação de "A Ratoeira"

No palco, os atores transformam-se. Esquecem-se das dores, das tristezas, da sua vida. Não são eles, são outros. É o seu superpoder. Ruy de Carvalho não consegue movimentar-se com a agilidade de antes e talvez a sua voz esteja um pouco mais arrastada, mas há uma energia que vai buscar sabe-se lá onde. Tem 99 anos e nem há quatro meses estava caído no chão de casa depois de sofrer um AVC, e aqui está ele, sem falhas de memória, a interpretar o Major Metcalf, em “A Ratoeira”, um espetáculo que dura mais de duas horas.

O regresso aos palcos aconteceu na quarta-feira à noite, no Coliseu do Porto. É a sétima vez que este espetáculo se apresenta aqui, mas a sala voltou a encher-se. No momento em que Ruy de Carvalho entra em palco, o público aplaude. Um aplauso longo e forte. Os atores param a cena e ficam imóveis durante quase um minuto. Depois, Ruy de Carvalho retoma a sua fala como se não fosse nada.

Só no final se permite emocionar-se, quando a cortina cai e o os espectadores voltam a aplaudir, agora de pé, gritando bravo, bravo. Estão ali por ele.  E ele, sentado numa poltrona retirada do cenário, ouve os discursos e os agradecimentos, e brinda-os com um bocadinho do “Monólogo do Vaqueiro”, de Gil Vicente – a primeira obra do primeiro dramaturgo português, e a primeira peça exibida pela televisão portuguesa, em 1957, precisamente com Ruy de Carvalho no papel principal. “É só um bocadinho, mas vou dizê-lo com toda a voz que eu tenha. Não é preciso o microfone”.

O encenador Paulo Sousa Costa não esconde a felicidade: “Há uns meses, quando estávamos todos muito aflitos pelos motivos que sabemos, dissemos: o Ruy vai voltar a pisar as tábuas. E pisou-as outra vez.”

Ruy de Carvalho como Major Metcalf em "A Ratoeira" (Foto: Marcelo Pereira)

“Nós agora chamamos-lhe o Iron Man”

No dia 28 de dezembro, uma sexta-feira, Ruy de Carvalho estava sozinho em casa, a preparar-se para ir para o teatro, quando teve um AVC. Ficou caído no chão da cozinha durante quatro horas. Quando a produção do teatro o foi buscar, ele não abriu a porta. Conseguia falar, mas não se conseguia mover. Foi a sua filha, Paula, que veio abrir a porta. “Foi um enorme susto”, recorda Paula Carvalho. O ator esteve internado durante três semanas e, depois, continuou a fazer fisioterapia. “Melhorou muitíssimo. Ele não andava. Agora anda. Tem uma bengala, mas já anda até sem a bengala.”

Pelas contas da filha, esta foi já a quarta vez que Ruy de Carvalho fintou a morte. Teve dois cancros, um dos quais na bexiga, e, em 2015, uma queda no teatro em Portalegre provocou-lhe um traumatismo cranioencefálico. “Nós agora chamamos-lhe o Iron Man. Os médicos estão espantados como é que ele recuperou tão depressa.”

Depois do AVC, além de andar sempre com a bengala que era da sua mulher, nunca mais ficou sozinho. “Antes não o acompanhávamos porque ele não deixava, mas agora foi obrigado pelos filhos a ter sempre alguém em casa. Tem cuidadoras, noite e dia. E nos espetáculos também. Ele não queria, mas tem de ser.”

Nesta noite é a filha que o acompanha. E antes do espetáculo está nervosa, confessa. Talvez até mais nervosa do que o próprio ator: “Eu estou nervosa porque sou filha. Não estou nervosa pelo ator, estou nervosa pelo pai. Vou ficar aqui nos bastidores. A zelar por ele.”

O regresso do “rei de Carvalho”

“Hoje é um dia muito especial. Não é um dia qualquer da ‘Ratoeira’, nem da Yellow Star Company, nem meu, nem de ninguém que está aqui neste palco.” Hoje é o dia do regresso de Ruy de Carvalho ao palco. Paulo Sousa Costa chama-lhe “o rei de Carvalho”, “porque ele é o rei do teatro português”. O ator está com a Yellow Star Company desde 2019 e, além de “A Ratoeira”, tem feito “A História de Vida”, um espetáculo onde conta algumas histórias da sua carreira. “O Ruy é um animal de palco”, diz o encenador.

Depois do AVC, Virgílio Castelo substituiu Ruy de Carvalho no papel do Major Metcalf. “Nós dissemos-lhe: queremos muito que o Ruy volte, mas tem de ser no tempo do Ruy, tem de ser o Ruy a decidir quando. E nunca abordávamos o tema. A peça continuou, infelizmente sem o Ruy, felizmente com igual sucesso. Foi o Ruy que disse: Estou pronto para voltar. Aliás, começou até a insistir bastante e nós ainda assim meio desconfiados, mas, Ruy, não será prematuro? Não, não, estou pronto, eu quero voltar. E aqui estamos.”

No final do espetáculo, Paula sobe ao palco para felicitar o pai (Foto: Marcelo Pereira)

“O objetivo principal é ter o Ruy feliz”, afirma Carla Matadinho, CEO da Yellow Star Company. “E isto é o que ele quer mesmo fazer. O Ruy vive para o teatro, deita-se e levanta-se a pensar no teatro. Ele anda a falar no regresso há muito tempo e nós dizíamos, vamos esperar mais um bocadinho. E de repente, quando comemorou os 99 anos [a 1 de março], ele disse, ok, vamos voltar, é agora.”

“Esta sessão tem um peso gigante para nós, para a carreira da Yellow Star Company, para o teatro português”, diz Carla Matadinho. “Temos um ator com 99 anos, que é uma pessoa com um percurso de vida incrível, que é um exemplo para toda a classe artística, mas também para todas as pessoas que envelhecem, e é um enorme orgulho e prazer poder proporcionar este momento ao Ruy.”

O ator “sempre foi muito independente. Ainda hoje é”, diz a filha Paula. “Isto” – o regresso aos palcos – “é uma vontade dele, isto é uma decisão dele. Ele quis voltar, foi ele que decidiu quando é que ia voltar. Quando ele diz não é não, quando ele diz sim é sim”.

“A Ratoeira” – um thriller em tom de comédia que já foi visto por quase 80 mil espectadores

Paulo Sousa Costa lembra-se que decidiu ir a Londres ver “A Ratoeira” curioso com o facto de o espetáculo estar em cena há mais de 60 anos. “Na altura gostei logo, sempre gostei muito da Agatha Christie, e percebi a razão do sucesso. A dúvida era se pegava em Portugal ou não. Mas logo nas primeiras sessões percebemos que o público viria.” A produção da Yellow Star Company estreou em 2020, precisamente quando a pandemia de covid-19 fechou todos os teatros, mas, depois desse azar inicial, tudo correu bem. Seis anos depois, já foram apresentadas 329 sessões de “A Ratoeira” em 35 localidades, chegando a perto de 80 mil espectadores.

Como noutras obras de Agatha Christie, existe um crime numa casa onde se encontra um grupo de pessoas muito diversas – o assassino é uma delas, resta saber qual. “Aqui nem tudo o que parece é. Aliás, esse é o segredo da Agatha Christie, deixando-nos em suspense quase até ao último segundo da história. Nunca sabemos quem é que é o assassino ou a assassina.”  Paulo Sousa Costa chama-lhe um thriller, mas na verdade a peça é uma comédia.

Todo o elenco de "A Ratoeira" na homenagem a Ruy de Carvalho, no final do espetáculo (Foto: Marcelo Pereira)

O espetáculo já teve vários elencos. Neste momento, além de Ruy de Carvalho, conta com a participação de Sérgio Moura Afonso, Sofia de Portugal, Elsa Galvão, Luís Pacheco, Sara Cecília, João Vilas e João Baptista. “Vi três vezes ‘A Ratoeira’ em Londres”, conta o encenador. “De cada vez foi um elenco diferente, eles têm uma rotatividade muito grande, fazem oito sessões por semana. E nunca vi nenhum elenco que fizesse melhor do que fazem os nossos atores.”

“Quando não está em cena, fica sentado ao lado do palco a ouvir e, no final, faz pequenas correções”

“Nós já fazemos ‘A Ratoeira’ desde 2020 com o Ruy de Carvalho, fizemos várias temporadas, umas pausas, umas digressões e depois desta infelicidade que o Ruy teve, esta fase em que esteve doente, em nenhum momento duvidámos que ele um dia ia voltar”, afirma Luís Pacheco, o ator que interpreta Giles Ralston.

Antes do regresso, Ruy de Carvalho fez dois ensaios, um deles corrido. E foi como se nunca tivesse estado parado, dizem os colegas: “O Ruy estava certo, como sempre”. Chegou ao Porto na véspera, acompanhado pela filha, comeu tripas, contou histórias do tempo em que foi diretor do Teatro Experimental do Porto, em 1963. Na quarta-feira, chegou cedo ao Coliseu. Foi ao palco, enquanto a sala ainda estava vazia. Passeou pelo cenário, verificou – peça por peça – se estava tudo no seu lugar, e pôs no sítio o que estava fora do sítio. Estava tranquilo.

Duas horas antes do início do espetáculo, Ruy de Carvalho já está vestido, sentado no seu camarim, com a porta aberta, mas um pouco afastado do rebuliço. Está bem disposto, mas não quer jantar. Um dos elementos do staff chega com sacos de bebidas e salgados. O ator come só um pastel de bacalhau. Tem uma visita – Sofia, uma jovem atriz que tinha pedido a Paula Carvalho para conhecer o seu ídolo. Sofia entra no camarim e não consegue evitar as lágrimas. “Então, minha filha, assim não”, diz-lhe o ator, com aquela voz que, apesar de tremer um pouco, continua inconfundível. Pouco depois a porta do camarim fecha-se. Um segurança fica a guardá-la.

Os técnicos correm apressados de um lado para o outro, testa-se os microfones, acendem-se e apagam-se as luzes da sala. Num dos camarins estão os atores, no outro as atrizes. Elas mais atarefadas com a maquilhagem e os penteados. “Não nos surpreendeu que o Ruy quisesse voltar, até esperávamos que fosse mais cedo”, comenta Elsa Galvão, que aqui interpreta a senhora Boyle. “Para todos nós, atrizes e atores, o público e o espetáculo é uma coisa vital. E para o Ruy também. É maravilhoso poder partilhar o palco com ele, e partilhar também a sua paixão pelo teatro,”

Ruy de Carvalho aplaudido no final do espetáculo (Foto: Marcelo Pereira)

Os colegas chamam-lhe “mestre”. “Trabalhar com o Ruy é, antes de mais, uma grande honra, como é evidente”, diz Sofia de Portugal, enquanto enrola madeixas de cabelo nos rolos para dar corpo a Mollie Ralston. “Isto pode parecer um cliché, mas no caso do Ruy é real, porque ele gosta de mesmo estar com os atores de todas as idades e ensinar-nos, dar conselhos, estímulos, observações constantes. É muito observador. Ele está sempre a ver o espetáculo do início ao fim. Quando não está em cena, fica sentado ao lado do palco a ouvir e, no final, faz pequenas correções, diz coisas que se podem melhorar. Não tenho mais nenhum colega assim, ele vive mesmo a peça toda connosco.”

A atriz fala também da tal “paixão pelo teatro”, do “respeito pelo público” e da “alegria de fazer teatro” que Ruy de Carvalho transmite a todos os que com ele trabalham: “Nós percebemos porque é que fazemos teatro, porque é que escolhemos, porque às vezes é difícil, mas vale sempre a pena. Com ele temos sempre essa lembrança ao minuto.”

“Este não é um espetáculo de despedida de Ruy de Carvalho. É só um reinício”

Já passa da meia-noite. Depois dos aplausos, dos abraços, das fotografias, sentado outra vez no sofá no seu camarim, Ruy de Carvalho não quer responder a perguntas, mas quer deixar uma mensagem. Levanta as os braços a dar “viva, viva, viva”: “Vivam todos, continuem a viver e não pensem na morte, que não vale a pena.”

Quando tudo termina, o ator lembra-se finalmente que não jantou e pede a Luís Pacheco para lhe aquecer uma sopa. Pacheco que, tal como Ruy de Carvalho, está no elenco de “A Ratoeira” desde o início, participa também no espetáculo “Histórias de Vida” e acabou por se tornar um amigo. “Nós estávamos muito atentos porque ele ainda está frágil, durante o espetáculo estivemos sempre a tentar perceber se o cansaço estava a aumentar ou não, estava sempre alguém ali nas saídas laterais do palco para o amparar, para lhe dar um apoio, uma água, qualquer coisa que ele precisasse e correu tudo bem”, conta, enquanto a sopa gira no micro-ondas, na copa localizada na cave do coliseu.

“Este espetáculo foi emocionante”, diz. “Estes últimos dias até chegar à estreia, foram de uma grande intensidade. A vontade dele, parecia um miúdo que ia voltar a estrear, ou a estrear pela primeira vez. E isto representou mesmo muito para nós e para ele, eu sei, porque ele só vive no palco, nas tábuas, como nós dizemos, e ele estava mesmo muito feliz, e ainda está. Aliás, ele costuma terminar os espetáculos cansado, e às vezes desgastado pelo esforço, e hoje está feliz da vida. Ele precisava mesmo disto. Um coliseu cheio. Foi muito bom.”

Ruy de Carvalho agradece ao público após a apresentação de "A Ratoeira" no Coliseu do Porto, na quarta-feira (Foto: Marcelo Pereira)

“O Ruy estará a pisar as tábuas do teatro, deste e de todos os palcos pelo país, sempre que ele quiser”, garante a CEO da Yellow Star Company, revelando que o ator deseja continuar em cena, ir em digressão e até gostaria de voltar a representar em Moçambique.

Depois do Coliseu do Porto, “A Ratoeira” vai ter uma temporada no Centro Cultural da Malaposta em maio, e depois irá continuar o seu percurso, onde o público quiser, contando sempre que possível com Ruy de Carvalho. “Temos um substituto, mas, mais uma vez, vai ser o Ruy a decidir se quer fazer, quantas quer fazer, quando quer fazer”, avisa Paulo Sousa Costa. “Este não é um espetáculo de despedida de Ruy de Carvalho”, diz. “É só o reinício.”

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