Como a fundação de propaganda de Putin se espalhou por Portugal

6 mai, 20:30

Além de ter ligações a várias associações que estão a ajudar no acolhimento de refugiados, o organismo de desinformação criado pelo presidente russo apostou em abrir centros nas universidades portuguesas. Russos garantem que a Fundação Russkiy Mir tem apenas fins culturais, mas os ucranianos e um documento do Parlamento Europeu dão conta de objetivos políticos e estratégicos

A Fundação Russkiy Mir, que o Parlamento Europeu tem denunciado como um meio de propaganda e desinformação russa, montou em Portugal, ao longo dos últimos anos, uma rede com vários polos de intervenção, como associações de imigrantes e centros de estudo em universidades. Aliás, de acordo com documentação interna deste organismo de propaganda e influência russa que foi criado por Vladimir Putin, há vários anos que Portugal é visto como uma “região de interesse”. O líder desta fundação é Vyacheslav Nikonov, um dos oligarcas russos que devido à guerra na Ucrânia foi sancionado pelos EUA.

A atividade desta fundação foi agora revelada ao ser descoberta a ligação a associações de acolhimento de refugiados, mas está espalhada por outras áreas, como a educação. Para além de colaborar com, pelo menos, cinco organizações não governamentais que atuam em Lisboa, Aveiro, Gondomar, Portimão e Setúbal (as duas últimas em colaboração com as autarquias), a Fundação Russkiy Mir, criada pelo próprio Vladimir Putin em 2007, ajudou a fundar centros russos na Universidade de Coimbra, na Universidade de Lisboa e na Universidade do Minho.

Na Universidade de Coimbra há um centro de estudos russos, criado pela fundação, desde 2012. Foi, aliás, o primeiro centro de língua russa deste tipo a abrir na Península Ibérica.

Para a inauguração, no dia 22 de outubro daquele ano, Vasily Istratov, vice-presidente da fundação, próximo de Putin e, atualmente, embaixador no Azerbaijão, voou de Moscovo para Coimbra. Ali chegado, segundo documentação que consta da página oficial da Fundação Russkiy Mir, encontrou-se com o então reitor da instituição, João Gabriel e Silva, tendo a fundação feito questão de integrar na documentação que apresenta na sua página online o discurso do responsável português, sublinhando as declarações do reitor que afirmou, então, que ao criar aquele centro "com a ajuda da Fundação Russkiy Mir e da embaixada russa, a universidade abriu um novo caminho de conhecimento”. A fundação nota ainda que João Gabriel e Silva se afirmou convicto “de que a cooperação com a Federação Russa no campo da cultura, na esfera social e, acima de tudo, no campo da economia” se iria desenvolver.

 

Inauguração do Centro de Estudos Russos da Universidade de Coimbra, com a presença de Vasily Istratov

 

De acordo com um comunicado da própria universidade no ano em que foi fundado este centro de estudos, a Russkiy Mir escolheu Coimbra por causa do “elevado número de alunos”.

Ao longo dos últimos anos, este centro tem organizado conferências e apoiado estudantes, com o intuito de os aproximar de uma “cultura milenar e de uma língua falada por milhões de pessoas em todo o mundo, a qual tem vindo a tornar-se cada vez mais importante”, de acordo com informação divulgada pela própria faculdade.

À frente deste centro está o russo Vladimir Ivanovich Plyasov, professor de Língua e Cultura Russa da Universidade de Coimbra e representante da fundação Russkiy Mir naquela cidade, onde vive desde os anos 80.

O último evento deste Centro de Estudos Russos, e que consta nos documentos da fundação, teve lugar em 2021 e foi, precisamente, a celebração do “Regimento Imortal” em Belgrado. Em parceria com a Russkiy Mir, uma voluntária de Coimbra foi apresentar à capital da Sérvia um trabalho sobre “um oficial do exército soviético que participou em batalhas pela libertação da Crimeia, Stalingrado, Donetsk e Berlim”.

 

Aula aberta do Centro de Estudos Russos da Universidade de Coimbra

 

Para além do Centro de Estudos Russos em Coimbra, há um documento no arquivo da Russkiy Mir com a data de 15 de junho de 2012 que informa sobre a abertura do “gabinete” da fundação na Universidade do Minho. “Este evento contou com a participação do reitor da universidade”, António Cunha, tal como “a Embaixada da Rússia e estudantes do curso de Humanidades”, lê-se na nota do organismo de Putin.

Este gabinete funciona nos dias de hoje com o objetivo de “promover a cultura e a língua russa a nível mundial” e de “oferecer apoio e esclarecimento a cidadãos russos residentes no estrangeiro, bem como a cidadãos estrangeiros que demonstrem interesse na Rússia”.

Já em Lisboa, a fundação de Putin apoiou a criação do projeto DIALOG, implementado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, dedicado ao ensino e aprendizagem de russo como língua estrangeira, fornecendo manuais, promovendo aulas abertas e palestras com o apoio financeiro parcial da Fundação Russkiy Mir.

“A Fundação Russkiy Mir recruta estudantes para a causa russa, com nível académico”, garante Pavlo Sadhoka à CNN Portugal, presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, explicando que esta fundação “funciona a dois níveis”. O primeiro, diz, “tem a ver com um trabalho de desinformação e propaganda”, o segundo está relacionado “com o recrutamento de agentes que passam informação sobre o país", "todo o tipo de informação, como o estado político, económico e social”.

O interesse da fundação nas várias entidades portuguesas acontece há vários anos. Ainda antes da anexação da Crimeia, há documentos internos da Fundação Russkiy Mir a informar sobre diversos eventos políticos e sociais que têm a presença de figuras portuguesas de destaque. Numa informação divulgada no site da fundação, dá-se conta de um “evento de alta sociedade no Palácio de Livadia, a convite do governo da Crimeia, na Ucrânia”, a 25 de setembro de 2013, onde esteve presente o Duque de Bragança, Duarte Pio, havendo fotografias.

 

Fotografia de D. Duarte Pio de Bragança num evento no Palácio Livadia no arquivo da Fundação Russkiy Mir

 

De acordo com a fundação, o convite foi endereçado a vários membros das famílias nobiliárquicas pela diretora da Casa Imperial Russa, Maria Vladimirovna.

A Embaixada da Rússia em Portugal garante, no entanto, que esta fundação visa apenas “promover a língua russa”, estabelecendo contactos com círculos académicos e prestando assistência aos centros de língua russa. Essa foi a resposta dada à CNN Portugal na sequência de um artigo sobre as ligações a Putin de algumas associações que estão a acolher refugiados em Portugal.

Mas para os ucranianos, os objetivos desta fundação são outros. A própria embaixadora da Ucrânia em Lisboa denunciou numa entrevista exclusiva à CNN Portugal ações desta fundação junto de associações de imigrantes e que podem estar a pôr em risco a segurança dos refugiados e dos seus familiares que ficaram a combater na guerra.

Já Pavlo Sadhoka garante que esta fundação desempenhou um papel importante a “preparar a atual invasão russa”.

Também o eurodeputado Paulo Rangel, que em 2016 votou a favor de uma resolução do Parlamento Europeu que incentivava o combate a estas organizações de propaganda e desinformação, com destaque para esta fundação, sublinhou à CNN Portugal que a Russkiy Mir é “o braço longo dos serviços secretos russos”, facto que está “amplamente documentado” pelo Parlamento Europeu. Na mesma linha, Ana Gomes, ex-eurodeputada que deu luz verde à resolução do PE, lembrou que a fundação de Putin, para além de ser um meio de propaganda e desinformação, “também armazena dados sensíveis”.

Por outro lado, o governo ucraniano tem lançado no seu país, após a invasão da Rússia, uma operação de contraespionagem contra membros ligados a esta fundação. No dia 14 de março, os serviços secretos de Kiev detiveram uma mulher que “ativamente promovia a fundação Russkiy Mir”, transmitindo à Rússia “fotos e vídeos com a localização de militares e equipamentos das Forças Armadas Ucranianas na região de Cherkasy”.

Este organismo, recorde-se, é chefiado desde a sua fundação por Vyacheslav Nikonov, membro do parlamento russo e um dos 328 políticos visados nas sanções norte-americanas ao Kremlin, decretadas em abril.

Antes de ser deputado, Nikonov foi membro do staff de GorbachevYeltsin e Putin. É um dos homens de confiança do atual líder russo, sendo ainda presidente da escola pública de administração da Universidade de Moscovo.

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