Em cima: dois homens num poço raso, ambos aparentemente desertores, são instruídos a lutar um contra o outro, sendo que apenas o vencedor pode sair quando tudo terminar
Os soldados russos chamam a esta prática um sacrifício a Baba Yaga, uma temível bruxa do folclore eslavo que se alimenta das suas vítimas.
Um militar russo é visto num vídeo a ser amarrado a uma árvore e abandonado ao seu destino - possivelmente a morte - às mãos de um dos grandes drones de ataque da Ucrânia.
A razão pela qual isto está a acontecer está bem patente numa interceção de rádio sobre um incidente semelhante, partilhada com a CNN, em que se ouve claramente um comandante russo a ordenar que um subordinado seja amarrado desta forma como castigo por deserção.
A instrução é dada duas vezes: “Escondam-no algures (enquanto decorrem os combates) e depois tirem-no de lá e amarrem-no a uma árvore... na próxima meia hora”.
Um comandante ucraniano de um batalhão de drones diz que já viu isso acontecer duas vezes e que já ouviu isso muitas outras vezes em intercepções de rádio.
"A qualquer drone ucraniano de grande porte chamam Baba Yaga. Espalha um pânico terrível entre as pessoas feridas. Para eles, é uma espécie de mito assustador que voa e mata toda a gente", disse à CNN o comandante, que usa o pseudónimo Munin.
Esta prática faz parte de uma série de maus-tratos no campo de batalha, registados em vídeo por drones de vigilância ucranianos ou por militares russos, que depois circulam nas redes sociais.
À medida que as forças de Moscovo avançam lentamente, mas de forma aparentemente implacável, no interior da Ucrânia, os vídeos pintam um quadro sombrio da realidade da vida dentro do exército de Putin - um serviço do qual se estima que dezenas de milhares de homens russos tenham fugido desde o início da invasão em grande escala, no início de 2022.
No vídeo, aparentemente filmado no inverno passado, o homem é mostrado em grande plano, amarrado a uma árvore.
O homem diz ser de Kamensk-Uralsky, uma cidade no centro da Rússia, no lado oriental dos Montes Urais.
Explica que fugiu do seu posto depois de ter sido assustado por um drone ucraniano que sobrevoava o local. Um colega soldado que o alcançou fez-lhe uma proposta, conta .
“Deixa-me fazer-te ‘300’ para que te retires”, disse-lhe o soldado, utilizando um termo que designa um combatente ferido do exército russo.
Depois veio o quid pro quo.
“Se me deres um tiro, eu dou-te um tiro”.
O homem diz à câmara que recusou, mas que o outro soldado disparou na mesma, tornando-o facilmente capturável pelos homens da sua unidade. Com um grosso cabo a prendê-lo à árvore, olha nervosamente para os céus, enquanto uma voz por detrás da câmara lhe diz que vem um drone a caminho.
“Se o drone chegar aqui, vai largar tudo em cima de ti”, provoca a voz.
Nesta altura, o vídeo termina e o destino do soldado não é claro.
Apelos desesperados a Putin
À semelhança de muitos exércitos, a Rússia não fala publicamente sobre a deserção nas fileiras. Mas os canais das redes sociais - normalmente o Telegram - dão-nos uma ideia da profunda ansiedade e desespero de muitos soldados e das suas famílias e dão-nos uma ideia das razões que levaram alguns militares russos a desistir.
“Caro Vladimir Vladimirovich”, começa um vídeo publicado no Telegram por um homem identificado como Yuri Duryagin, no que equivale a um apelo pessoal ao Presidente Putin da Rússia por ajuda.
Duryagin diz que estava a combater na região ucraniana de Donetsk, onde o mau equipamento e a falta de munições fizeram com que apenas 32 homens da sua companhia sobrevivessem a um determinado ataque. Normalmente, uma companhia pode ter até 150 elementos.
Diz a Putin que recebeu menos de um quinto do seu salário, mas acrescenta que os seus superiores lhe dizem que estaria a perder o seu tempo a queixar-se.
Quando ocorriam mortes no campo de batalha, estas eram frequentemente encobertas para evitar o pagamento de indemnizações às famílias dos enlutados.
"Vi pessoalmente camaradas morrerem diante dos meus olhos. Foram mortos. Os pais tentavam obter informações sobre os seus familiares e entes queridos, mas diziam-lhes que a pessoa estava desaparecida", conta.
Talvez o mais grave de tudo, é o facto de acusar um comandante de disparar sobre os que se recusam a participar, dizendo que “encostou pessoas à parede porque simplesmente se recusaram a enfrentar uma metralhadora”.
‘Estarão todos mortos numa semana'
“A violência é o que mantém o exército russo e o que o mantém unido”, declarou Grigory Sverdlin, fundador da Get Lost, uma organização que ajuda os homens russos a desertar ou a evitar o recrutamento. Falou à CNN a partir de Barcelona, em Espanha, onde a organização está atualmente sediada.
A Get Lost ajudou 1.700 pessoas a desertar desde que foi lançada, seis meses após a invasão em grande escala, afirma Sverdlin. O número total de deserções do exército russo é difícil de determinar, mas Sverdlin estima que se situe nas dezenas de milhares.
O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), um grupo de análise sediado nos EUA, cita o que diz serem dados divulgados do Ministério da Defesa russo que sugerem que o número pode chegar a 50.000.
Muitos desertam antes de serem destacados, queixando-se de uma formação deficiente que dura apenas uma a três semanas, referiu Sverdlin, enquanto os que desistem durante o destacamento descrevem frequentemente uma cultura marcada pelo niilismo.
"As suas vidas não valem nada para os seus comandantes. Para os oficiais russos, perder um tanque, perder um veículo, é muito pior do que perder, digamos, 10 ou 20 pessoas", explicou Sverdlin.
"Ouvimos muitas vezes dos nossos clientes que os oficiais lhes dizem que estarão todos mortos numa semana. O oficial vai arranjar outra unidade, por isso não é um problema para eles".
Para os soldados russos condenados por deserção, a pena pode ir até 15 anos de prisão. Mas os vídeos que circulam nas redes sociais indicam que os castigos ad hoc são também amplamente aplicados no terreno, com o mesmo objetivo de dissuadir os outros de fugir.
Num deles, um homem atrás de uma câmara aproxima-se de um grande depósito de metal com uma escada na lateral.
"É hora de alimentar os animais! Os que tentaram fugir! Vamos descobrir o que eles estão a fazer", ouve-se na voz do homem, que abre a tampa do contentor para revelar três homens em tronco nu, escondidos lá dentro.
“Tens fome?”, provoca a voz. “Queres uma bolacha?”
Um dos homens acena com a cabeça e um biscoito é-lhe esmigalhado nas mãos estendidas, que ele come rapidamente.
Outro vídeo mostra um homem encolhido no chão enquanto é pontapeado repetidamente na cara. Tem um cinto cor de laranja atado a um dos tornozelos. A outra extremidade está presa a um jipe, que arranca a toda a velocidade, dando a volta a um campo, arrastando o homem atrás de si, num castigo conhecido coloquialmente como “o carrossel”.
Noutra, um homem é amarrado a uma árvore com um balde ferrugento na cabeça. Depois de o balde ser retirado, é pontapeado repetidamente na cara antes de, aparentemente, lhe urinarem em cima.
A CNN contactou o Ministério da Defesa russo para comentar os castigos infligidos aos desertores nos vídeos, mas não obteve resposta.
Segundo as estimativas dos governos ocidentais e das instituições académicas, o número de russos mortos ou feridos desde fevereiro de 2022 é de cerca de um milhão. O Secretário-Geral da NATO afirmou recentemente que, só em 2025, morreram 100 000 soldados russos.
A Ucrânia tem os seus próprios problemas de moral e de deserção, mas há um sentimento que é provavelmente muito menos prevalecente entre as suas fileiras: a falta de crença na causa.
Sverdlin diz que é isso que ouve mais frequentemente dos soldados russos que ajuda a desertar.
“Alguns deles dizem-nos apenas ‘não quero morrer aqui’, mas eu diria que as palavras mais comuns são ‘não é a minha guerra, não é a nossa guerra... não percebo que raio estamos a fazer aqui’”.