Um conflito entre a Rússia e "a Europa como um todo" não só seria inédito como é provável que não acontecesse nos termos em que alguns julgam. "Podemos imaginar os cenários mais excitantes que quisermos sobre ameaças iminentes, sobre a Rússia amanhã estar no Rossio, isso não é plausível. Mas pelo menos que aproveitemos o tempo que temos para tomar medidas que nos libertem deste sentimento de angústia geopolítica”
Enquanto os EUA continuam a negociar com a Rússia nos seus termos sem incluir ucranianos nem europeus nas conversações, o presidente russo largou esta semana um aviso ameaçador. "Se a Europa decidir entrar em guerra com a Rússia e começar, de facto, uma guerra, poderá chegar rapidamente a uma situação em que Moscovo não terá ninguém com quem negociar", disse Vladimir Putin após encontros com Steve Witkoff e Jared Kushner, enviados de Trump, em Moscovo. "Se a Europa quiser fazer a guerra, estamos prontos agora", adiantou. Mas em que termos seria essa guerra travada? E quão pronta está a Europa para a travar?
Para começar, é altamente improvável que o conflito começasse com uma invasão terrestre, defendem especialistas à CNN Portugal. “Não consigo antever realisticamente que a Rússia tenha qualquer capacidade para atacar a Europa nesses termos”, defende José Azeredo Lopes, especialista em Direito Internacional e Europeu. “Nunca tivemos um conflito assim na nossa história, com um grande poder como a Rússia de um lado e a Europa como um todo no outro”, adianta o historiador António José Telo. “A questão é justamente o contexto de um tal conflito, que seria a Rússia a iniciar, porque não estou a ver que a Europa faça uma agressão. E a Rússia iniciá-lo-ia como? E quem responderia? A NATO ou a Europa? E, na Europa, quem responderia? Estes são elementos vitais aos quais teríamos de dar resposta.”
Considerando o “exercício difícil”, Azeredo Lopes diz considerar que tudo não passa, por um lado, de uma forma de, internamente, forçar as lideranças europeias a darem passos reais para reforçarem a sua própria defesa e se prepararem para diferentes tipos de conflito e, por outro, de uma estratégia em que Putin é exímio - a de dissuadir a Europa.
“A ameaça é um condicionamento político, esta gestão da ameaça, que Putin faz habilmente, quando invoca a capacidade nuclear, quando invoca a capacidade de destruição”, diz o analista de política internacional. “Ele disse que a guerra contra a Ucrânia tem sido cirúrgica mas que connosco seria à bruta - e isto também é uma forma de, politicamente, Putin nos dissuadir de começarmos a ter uma voz mais musculada.”
O contexto em que o presidente russo disse o que disse, destaca Azeredo Lopes, prova isso mesmo. “Estas declarações foram proferidas depois de a NATO ter declarado que admitia a hipótese de ações preventivas em resposta à guerra híbrida da Rússia, a hipótese de ações como resposta antecipatória – e isto não passa por uma guerra convencional típica, mas de uma que resulta de manipulação de informações e desinformação, de ciberataques, dos drones que aparecem por coincidência no nosso espaço aéreo… É isto que nos tira do sério e Putin sabe tocar nos pontos que são mais sensíveis para nós, que nos enervam, que nos deixam com medo.”
Uma guerra em que termos?
É praticamente líquido que “a Rússia nunca começaria uma guerra no sentido de uma invasão terrestre da Europa”, diz António José Telo, para quem essa hipótese está fora de questão - “sabe que estaria condenada, encontrava logo pela frente um dos melhores e mais bem equipados exércitos europeus, que é o da Polónia, e portanto não o faria”.
Caso o fizesse, “a Europa tem alguma capacidade de contenção terrestre, mas é muito limitada, entraria em força fulgurante e as poucas forças europeias que temos estacionadas nos bálticos não conseguiriam resistir por muito tempo”. Para o historiador e autor do livro “A guerra que aí vem - A Ucrânia num mundo em mudança”, seria praticamente impossível que a Rússia pegasse nas suas forças terrestres e decidisse partir da Bielorrúsia para marchar até Berlim. “Dou este exemplo”, explica, “porque houve há pouco tempo um treino do exército alemão para defender Berlim, mas a Rússia nunca o faria, porque, apesar de tudo, encontraria uma forte resistência que seria incapaz de ultrapassar rapidamente, sobretudo da parte da Polónia, mas também de países nórdicos que têm estado a preparar-se, como a Dinamarca e a Noruega”.
Afastado o cenário de uma invasão terrestre, Telo ressalta que “a Rússia podia fazer várias outras coisas e possivelmente está nos seus planos fazê-lo, dependendo do curso da guerra da Ucrânia”. E entre os exemplos, aponta a possibilidade de mudar as regras do jogo da navegação marítima mundial. “Podia, por exemplo, dizer ‘a partir de agora, há novas regras no Báltico, no Ártico e no Atlântico, e qualquer tentativa de limitar os navios russos será considerada como uma agressão e responderemos com elementos da Marinha e da aviação para intervenção marítima’, parece-me um contexto muito possível.”
Outro exemplo: “Imaginemos que, como a Rússia gosta de fazer - e como fez na Geórgia e na Ucrânia - que iniciava problemas com as minorias russas nos países do Báltico e depois dizia que tem de intervir para proteger os russos martirizados…” A grande e “óbvia” diferença, aponta, é que esses países, ao contrário da Geórgia e da Ucrânia, fazem parte da NATO - e isso implicaria a possível entrada em cena dos Estados Unidos.
“Se tomarmos, por exemplo, o primeiro caso, das novas regras de comércio e navegação e delimitação das águas territórios, com a Rússia a dizer ‘se aceitam, aceitam, se não aceitam, então responderemos a qualquer interferência’, a Europa não tem meios, sozinha, para se defender de uma intervenção em peso, não conseguiria responder à altura, porque não tem meios para responder e, portanto, não se imporia se houvesse uma intervenção russa com ciberataques, com as quintas colunas que tem espalhadas pelos países da Europa, com ataques com drones a aeroportos, com sabotagem de linhas férreas, etc”, considera o historiador, que ressalta o traçar destes cenários “sem ajuda americana”.
Haveria, contudo, situações hipotéticas em que os EUA não poderiam ficar sem fazer nada, por menos que a ajuda à Ucrânia e à Europa possa estar nos seus planos atuais, contrapõe Telo. “Falo de tudo isto fazendo de conta que os EUA não existem, mas existem e nalguns destes casos teriam algum tipo de ação - é difícil saber qual, mas não ficariam de braços cruzados. E se os EUA entrassem na equação, aí a Rússia não teria hipóteses, qualquer intervenção estaria condenada à partida."
O que falta aos europeus?
Quem encara as recentes declarações de Putin como uma ameaça de guerra convencional com a Europa não está atento à realidade dos factos hoje, até porque achar que a Rússia poderia levar a cabo uma invasão terrestre com sucesso é “contraditório” em relação ao discurso oficial da União Europeia (UE) sobre a situação atual da Ucrânia, aponta Azeredo Lopes.
“Dizemos que, no último ano, a Rússia terá conquistado, quando muito, 1% de território ucraniano e damos isso como um exemplo da incapacidade russa. Ora, se não consegue sequer ‘resolver’ o caso ucraniano, como manifesta e felizmente não consegue, ia conseguir atacar a Europa? Não tem capacidade de sustentação militar para a Ucrânia e ia ter para nós? Por muito atrasados que estejamos - e estamos - na preparação da nossa defesa e segurança, acho sinceramente que esta ideia de iminência serve apenas para nos pôr em sentido”, defende o especialista em Direito Internacional e Europeu.
A questão também acaba por ocultar uma outra mais importante que, considera o especialista, deveria dominar os debates na Europa. “Aquilo que ainda não conseguimos enfrentar é esta grande questão: o que é que fizemos em três anos e meio, quase quatro anos de guerra, para nos prepararmos? O que fizemos a partir de 2014, quando a Rússia ocupou e anexou a Crimeia? O que é que de relevante fizemos para preparar a nossa defesa?”
Para começar, adianta, não aceitamos o divórcio com o aliado transatlântico e “continuamos a pedinchar o regresso do cônjuge que decidiu sair de casa,quando temos de aceitar esse facto sem dramas e mostrar capacidade de fazer pela vida e reconstituir o sentimento fundamental das comunidades - o de nos sentirmos seguros, e não sob ameaça permanente da Rússia”. Mas o problema hoje, como dantes, é a falta de união da União Europeia - um ponto em que os dois especialistas estão de acordo.
“Dissemos sempre que só precisávamos de 2% do nosso PIB em defesa, agora já são 5%, e aquilo que não conseguimos resolver roça o penoso”, invoca José Azeredo Lopes. “Por exemplo, em termos de mobilidade militar, precisamos de ter, de uma vez por todas, um espaço único europeu para mobilizar militares, capacidades para mover militares do sítio A para o sítio B imediatamente.”
“A Europa não só não está preparada como, mais do que isso, não dá passos fundamentais para se preparar, para desenvolver forças e criar um aparelho político capaz de as dirigir num momento de crise”, acrescenta António José Telo. “As forças armadas estão subordinadas ao poder político e é preciso que haja um poder político - quando na Europa enquanto tal não há. Todas as tentativas para coordenar esforços resultam em zero, em nada.”
Recentemente, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu a necessidade de se criar uma espécie de espaço Schengen da Defesa, que vai no sentido do que os especialistas defendem como uma das necessidades mais urgentes de prontidão em uníssono. Mas para isso, destaca o historiador, é preciso “reformar o funcionamento da UE”. Telo dá como “excelente exemplo” a criação da moeda única. “A UE implementou o euro e quem quis entrou e quem não quis ficou de fora, e no caso de uma crise, quem ficou de fora sofre as consequências. Na Defesa, a UE tem de avançar com algo semelhante, não pode ficar para trás - se há uma minoria de países que diz que não, então ficam de fora, continuamos a colaborar com eles noutras áreas, mas simplesmente não entram no esforço de defesa nem impedem esse esforço.”
Frente comum precisa-se
Para isso, contudo, como para o resto, é preciso união e é isso que, em última instância, tem falhado desde 2014, com a anexação da Crimeia, e desde 2022, com a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. “Falamos muito como união em muitas coisas, mas continuamos a ser muito pouco unidos, e na Defesa ainda pior”, destaca Azeredo Lopes, que dá outro exemplo - o das discussões sem fim sobre como garantir financiamento para o esforço de guerra ucraniano nos próximos dois anos.
Assumindo-se crítico do confisco dos ativos russos congelados, o especialista em Direito Internacional e Europeu adianta: “Vejamos, estamos a falar de uns módicos 180 mil milhões de euros, o que, para os Estados europeus, significaria nos próximos dois anos um esforço financeiro de aproximadamente 1% do PIB europeu. 1%! Se não conseguimos, ao fim de um ano de discussões, e numa questão crucial para a nossa existência, de prescindir de 1% da nossa riqueza, permito-me duvidar da eficiência do modelo que estamos a desenhar.”
Antes de Putin declarar as forças russas “prontas” para uma guerra total com a Europa, as autoridades alemãs publicaram novas avaliações dos seus serviços secretos que, segundo Berlim, mostram que Moscovo está a preparar a opção de um ataque futuro contra a UE e a NATO “em 2029”, justificando, com isso, a necessidade de os europeus encontrarem formas de “impedir novas agressões russas”, nas palavras do ministro alemão dos Negócios Estrangeiros.
A isto, o ex-ministro da Defesa de Portugal responde: “No último ano e meio, temos estado a tentar antecipar aquilo que vai acontecer: será uma invasão? Um ataque aos bálticos? Temos avisos de ataques russos até 2030, depois passámos para 2029, agora alguns falam como se [os ataques russos] estivessem iminentes. O discurso político e militar é cada vez mais influenciado por esta construção de ameaça, é um instrumento, ou uma ferramenta política de mobilização das opiniões públicas.”
A questão é que, tal como “só vemos nuvens quando olhamos para o outro lado do Atlântico”, também na questão da opinião pública os ventos não estão de feição para a UE. Veja-se a sondagem do Pew Research Center levada a cabo no ano passado, que mostra que menos de um terço dos cidadãos da UE estão dispostos a combater pelo seu país – e a isso junta-se o envelhecimento populacional e taxas relativamente baixas de desemprego, que retiram da equação mais um incentivo ao alistamento militar.
“Se é fácil explicar isto? Reconheço que não é. A própria guerra está a custar-nos muito politicamente e se olharmos para hoje em comparação com 2022, a Europa está mais forte ou mais fraca?”, questiona Azeredo Lopes. A resposta vem logo a seguir: “Diria que estamos mais fracos, menos democráticos, muito divididos, menos capazes de atuar politicamente, e infelizmente os nossos adversários sabem muito bem disso. A Rússia conhece-nos extremamente bem, ainda por cima, para azar dos távoras, acentuou-se nos últimos anos a forma menos empenhada como o nosso aliado transatlântico nos olha, e digo menos empenhada para não dizer pior.”
Essa será, para já, a grande vitória da Rússia de Putin sobre a Europa, mesmo sem uma guerra total com o continente - e a UE continua a não estar à altura do desafio, algo que o próprio comissário europeu para a Defesa assumiu esta semana sem pudores quando confrontado com as suspeitas de provocação da Rússia, incluindo incursões de drones e o recente bombardeamento de uma linha ferroviária polaca. "Do ponto de vista técnico, não dispomos de capacidades de deteção suficientes, não temos meios económicos para destruir drones", disse Andrius Kubiliuis. "Isto mostra que a forma como nos estamos a preparar, como podemos mudar a nossa compreensão das doutrinas de guerra moderna, não está ao nível necessário."
“Isto é a Rússia a forçar a mão da Europa", defende António José Telo. "Nada disto é fácil, mas desde que se faça qualquer coisa agora... A escala do contexto exige-o, mas não está a ser feito. A Europa está muito manietada por leis que não têm em conta a situação de pré-guerra em que nos encontramos atualmente e caso começasse uma guerra nos termos em que estamos a debatê-la, possivelmente, ao fim de algum tempo, os líderes europeus cederiam”, adianta o historiador.
“É extraordinário que ao fim de quase quatro anos não tenhamos dado passos decisivos para mudar a nossa ação externa”, acrescenta Azeredo Lopes. “Temos de encarar tudo isto como um facto da vida, não é agradável mas é um facto. Podemos imaginar os cenários mais excitantes que quisermos sobre ameaças iminentes, sobre a Rússia amanhã estar no Rossio, isso não é plausível. Mas pelo menos que aproveitemos o tempo que temos para tomar medidas que nos libertem deste sentimento de angústia geopolítica.”