Esta semana, Kiev sinalizou a abertura a concessões relevantes no âmbito das negociações em Genebra, mas Moscovo garante que não vai abdicar dos objetivos máximos da guerra
A Rússia voltou a deixar claro que não ficará satisfeita apenas com concessões territoriais e, por isso, mantém intactos os objetivos originais da guerra, incluindo o enfraquecimento da NATO.
De acordo com o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), a embaixada russa na Bélgica disse ao jornal estatal Izvestia, esta semana, que Moscovo vai exigir que a NATO “consagre juridicamente uma cláusula de não expansão, com base num 'projeto de tratado' apresentado em dezembro de 2021, referência direta aos ultimatos dirigidos aos Estados Unidos e à NATO antes do início da guerra”.
"Essas exigências implicavam, na prática, uma transformação profunda da atual estrutura da Aliança, ao reclamarem o fim do destacamento de forças ou sistemas de armas em Estados-membros que aderiram após 1997. Pretendiam ainda forçar o Ocidente a abandonar a política de 'portas abertas', travar o alargamento a Leste e pôr termo às parcerias na fronteira oriental da NATO, incluindo com a Ucrânia", sublinha a análise do ISW.
Para o ISW, a insistência nestas condições, em plena fase de negociações, indica que Moscovo não aceitará um acordo que não satisfaça integralmente as suas exigências em relação à Ucrânia, à NATO e aos Estados Unidos, mesmo que algumas pretensões territoriais venham a ser contempladas.
Na terça e quarta-feira, responsáveis russos, entre eles a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, evocaram o alegado “espírito” ou “entendimentos” alcançados entre delegações norte-americanas e russas durante a cimeira do Alasca, em agosto de 2025. O Kremlin tem procurado explorar a ambiguidade em torno desse encontro para sugerir que foi alcançado um entendimento conjunto para pôr fim à guerra, apresentando-o de forma favorável aos interesses russos.
Contudo, esse suposto entendimento permanece indefinido, uma vez que não resultaram acordos formais da reunião. Após a cimeira, Donald Trump afirmou que as delegações não tinham chegado a um “acordo”. Segundo o ISW, o Kremlin continua a reiterar que pretende alcançar os seus objetivos de guerra, seja por via militar ou diplomática, sem sinal de compromissos substanciais.
Do lado ucraniano, Kiev tem sinalizado abertura a concessões relevantes no âmbito das negociações. Volodymyr Zelensky disse à Axios que a Ucrânia está preparada para discutir uma retirada de tropas do Donbass, desde que a Rússia proceda a um recuo equivalente. O líder ucraniano acrescentou que qualquer acordo para pôr fim ao conflito terá de ser submetido a votação popular na Ucrânia, advertindo, porém, que a sociedade ucraniana rejeitaria uma retirada unilateral do leste do Donbass.
Ao mesmo tempo que acontecem avanços e recuos nas negociações, o ISW considera provável que o presidente russo, Vladimir Putin, esteja a criar condições internas para retomar convocações involuntárias e rotativas, ainda que de forma limitada, face às dificuldades em repor as perdas sofridas na Ucrânia com os atuais mecanismos de recrutamento.
Na quarta-feira, a Duma Estatal aprovou, em primeira leitura, um projeto de lei destinado a reforçar medidas contra a “distorção da verdade histórica” e a “evasão do dever de defender a Pátria”. Segundo o ISW, a iniciativa poderá servir de base legal para processar cidadãos que critiquem convocações obrigatórias.