"Reconheci-o pela roupa interior". Há cada vez mais suspeitas de prisioneiros de guerra executados pelas tropas russas

CNN Portugal , JAV
22 dez 2024, 09:52
Guerra na Ucrânia (Associated Press)

Procuradoria-geral da Ucrânia fala em pelo menos 147 prisioneiros de guerra do país executados desde a invasão em larga escala, em 2022, dos quais 127 terão sido executados este ano

Nota: este artigo contém descrições que podem ferir a suscetibilidade dos leitores mais sensíveis

Pelo menos nove soldados ucranianos capturados pela Rússia foram alegadamente executados a tiro pelas forças de Moscovo em outubro passado na região de Kursk, parte de um padrão em crescendo no contexto da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022.

O episódio de há dois meses está a ser investigado pela Procuradoria-Geral ucraniana, com base em provas como uma fotografia que mostra corpos seminus deitados no chão – com detalhes suficientes para os pais de uma das vítimas terem conseguido reconhecer de imediato o filho.

“Reconheci-o pela sua roupa interior”, disse a mãe de Ruslan Holubenko, visivelmente perturbada, à emissora local Suspilne Chernihiv. “Comprei-lha antes de uma viagem que fizemos ao mar. Também sabia que ele tinha sido baleado no ombro e é possível ver isso na fotografia.”

Segundo a procuradoria ucraniana, este é apenas um de vários casos de execuções de prisioneiros de guerra pela Rússia que tiveram lugar nos últimos meses. A lista é longa e envolve relatos e suspeitas de decapitações, inclusivamente o caso de um soldado ucraniano com as mãos atadas atrás das costas que terá sido morto com recurso a uma espada. Numa outra instância, um vídeo mostra 16 soldados ucranianos que, após terem saído de um bosque para se renderem aos russos, terão aparentemente sido alinhados e abatidos com uma ronda de tiros de armas automáticas.

Entre os casos citados pela BBC num artigo publicado este fim de semana conta-se ainda o do sniper ucraniano Oleksandr Matsievsky, que após ter sido capturado pelos russos no primeiro ano da invasão russa, surgiu num vídeo a fumar o seu último cigarro numa floresta, ao lado de uma sepultura que terá sido obrigado a cavar. “Glória à Ucrânia!”, diz aos seus captores. Momentos depois, tiros e a queda do seu corpo morto no chão.

Algumas das execuções foram filmadas pelas próprias forças russas, outras foram registadas por drones ucranianos que sobrevoavam os locais dos crimes à hora certa. Estas execuções, adianta o canal britânico, costumam ter lugar em densos bosques ou campos sem características distintivas, tornando mais difícil a sua localização precisa. Mesmo assim, os serviços de verificação de factos da BBC conseguiram confirmar que vários dos vídeos são bastante recentes e que, na sua maioria, as vítimas estão a usar uniformes ucranianos.

Tendência crescente

Segundo a procuradoria da Ucrânia, pelo menos 147 prisioneiros de guerra do país foram executados pelas forças russas desde o início da guerra total em 2022, dos quais 127 terão sido executados este ano. “A tendência de aumento é muito clara, muito óbvia”, diz Yuri Belousov, que lidera o departamento de guerra da Procuradoria-Geral da Ucrânia.

“As execuções tornaram-se sistemáticas a partir de novembro do ano passado e continuaram ao longo de todo este ano”, adianta a mesma fonte. “O número aumentou particularmente no verão e no outono, o que nos diz que não estamos perante casos isolados – estão a ocorrer em vastas áreas e há sinais claros de que fazem parte de uma política [intencional], há provas de que estão a ser dadas instruções nesse sentido.”

Rachel Denber, vice-diretora da divisão da Human Rights Watch (HRW) para a Europa e a Ásia Central, adianta que, para além da intencionalidade, parece haver uma total impunidade entre as forças russas que executam prisioneiros de guerra no terreno, contrariamente ao que está definido nos tratados internacionais para a guerra.

“Que instruções é que estas unidades recebem, quer formal quer informalmente, dos seus comandantes? Estarão os seus comandantes a ser muito claros quanto ao que a Convenção de Genebra define sobre o tratamento dos prisioneiros de guerra? O que é que os comandantes militares russos dizem às suas unidades sobre a sua conduta? Que medidas estão a ser tomadas pela cadeia de comando para investigar estes casos? E se os superiores hierárquicos não estão a investigar, ou não estão a tomar medidas para impedir essa conduta, será que estão conscientes de que também eles são criminalmente responsáveis e podem ser responsabilizados?”

Ao longo dos últimos dois anos e meio, Vladimir Putin tem garantido que as forças russas “sempre” trataram os prisioneiros de guerra da Ucrânia “em estrito cumprimento dos documentos legais e convenções internacionais” – mas, de acordo com a HRW, desde a invasão em larga escala as forças russas já cometeram “uma série de violações, incluindo as que deveriam ser investigadas como crimes de guerra ou crimes contra a humanidade”.

As forças ucranianas também são suspeitas de executarem alguns prisioneiros de guerra russos desde fevereiro de 2022, embora a uma escala muito inferior, adianta a BBC, com Yuri Belousov a garantir ao canal britânico que a procuradoria leva essas acusações “muito a sério” e que está a investigá-las, embora ainda ninguém tenha sido formalmente acusado até agora.

Do outro lado da barricada, nada indica que a Rússia esteja a investigar formalmente as alegações, quando até meras menções à suspeita de execuções de prisioneiros de guerra acarretam potenciais penas de prisão longas na Rússia. E, ainda segundo a BBC, o historial de abusos de soldados capturados pela Rússia é tal que alguns preferem a morte à captura.

Como relata a progenitora de Ruslan Holubenko, soldado ucraniano que, oficialmente, continua a ser dado como ‘desaparecido em combate’: “Ele disse-me: ‘Mãe, nunca me irei render, nunca. Perdoa-me, eu sei que vais chorar, mas não quero ser torturado’. Farei todos os possíveis e os impossíveis para ter o meu filho de volta. Estou sempre a olhar para esta fotografia. Talvez esteja apenas inconsciente? Quero acreditar nisso, não quero pensar que ele morreu."

Europa

Mais Europa