160 mil soldados russos estão a concentrar-se junto às linhas da frente: é a intensa ofensiva de verão. Enquanto isso: Trump deu a Putin um prazo que favorece... o próprio Putin. E que "prolonga o sofrimento da Ucrânia"
Rússia reforça domínio no campo de batalha na Ucrânia enquanto Trump oferece a Putin uma janela de 50 dias
por Nick Paton Walsh, Lauren Kent e Svitlana Vlasova, CNN (Svitlana Vlasova reporta a partir de Kiev, enquanto Nick Paton Walsh e Lauren Kent contribuíram de Londres)
A pausa de 50 dias anunciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, antes da eventual imposição de sanções secundárias à Rússia proporciona ao Kremlin uma oportunidade para explorar os ganhos incrementais obtidos nas últimas semanas, os quais, segundo analistas, colocam em risco crescente os principais redutos ucranianos no leste do país.
Acredita-se que a Rússia esteja a dias ou semanas de lançar uma ofensiva de verão mais intensa, possivelmente envolvendo os 160 mil soldados que, segundo as autoridades ucranianas, estão a concentrar-se junto às linhas da frente. Contudo, nas últimas duas semanas, Moscovo também alcançou pequenos mas estratégicos avanços, colocando as suas forças em melhor posição para isolar as tropas ucranianas em três cidades-chave — Pokrovsk, Kostyantynivka e Kupiansk — na frente oriental.
O Kremlin não demonstrou preocupação com o novo prazo estabelecido por Trump. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, afirmou na terça-feira: "Cinquenta dias — já foram 24 horas; já foram 100 dias; já passámos por tudo isso".
De acordo com analistas, o novo prazo favorece os objetivos do presidente russo, Vladimir Putin. Keir Giles, da Chatham House, escreveu na terça-feira que esta margem de tempo concede também espaço de manobra a Moscovo no plano diplomático. "O prazo de 50 dias oferece à Rússia bastante tempo para delinear um plano alternativo e, uma vez mais, ultrapassar Washington com algum estratagema diplomático que Trump poderá aceitar de bom grado... Esta nova extensão dos prazos arbitrários de Trump prolonga o sofrimento da Ucrânia pelo mesmo período."
John Lough, especialista em política externa no centro de estudos New Eurasian Strategies Centre, afirmou que a ofensiva de verão já decorria há vários meses e que "os russos estão, sem dúvida, a intensificar os seus esforços, tanto no terreno como no ar". A recente vaga de ataques aéreos contra cidades ucranianas poderá refletir o ritmo lento dos progressos de Moscovo na linha da frente, procurando "desmoralizar a população e reduzir a sua vontade de combater".
"Putin tem-se mostrado bastante confiante nos últimos meses quanto ao progresso desta campanha, reconhecendo que os ucranianos enfrentam carências de efetivos e de certos sistemas de armamento", acrescenta Lough, sublinhando que Moscovo pretende dispersar as defesas ucranianas. "É expectável que esta tendência prossiga nos próximos 50 dias, pelo menos."
Os avanços graduais de Moscovo em torno das três cidades têm tido um custo elevado. No entanto, o mapeamento da linha da frente pelo DeepState, um serviço de monitorização ucraniano, bem como os relatos vindos da região evidenciam progressos russos numa tentativa de flanquear estas localidades.
Nas últimas 72 horas, as forças russas aproximaram-se de Rodynske, uma localidade importante a nordeste de Pokrovsk, um dos principais centros militares ucranianos sitiados há meses por Moscovo.
Este avanço complementa-se a oeste de Pokrovsk, onde as tropas russas estão agora a tentar cercar a aldeia de Udachne, o que lhes permitirá atacar de forma mais eficaz as rotas de abastecimento de Pokrovsk.
Um comandante ucraniano, conhecido pelo nome de guerra Musician e que lidera uma companhia de drones da 38.ª Brigada de Fuzileiros Navais e que serve nas imediações de Pokrovsk desde outubro, refere à CNN que a ofensiva russa já decorre há algum tempo. "Provavelmente ainda não atingiu o seu auge", sublinha. "Mas eles têm vindo a avançar de forma consistente e com algum sucesso."
Musician aponta que a defesa de Rodynske é fundamental. "O inimigo sabe disso e está a apostar nisso. Se avançarem a partir de Rodynske, a situação torna-se crítica. Existem uma ou duas estradas que podem controlar, o que comprometeria a nossa logística. É uma jogada lógica por parte deles."
O comandante alerta para a necessidade urgente de reforços na região, sob pena de se repetir o cerco e retirada observados no início de 2024 em torno de Avdiivka, a leste de Pokrovsk. As tropas ucranianas resistiram durante meses em Avdiivka, até ficarem sem efetivos e recursos para manter a cidade, numa derrota que acabou por simbolizar tanto a tenacidade de Kiev como a implacável tolerância de Moscovo face a elevadas baixas para conquistar território.
Bohdan Miroshnikov, um blogger militar ucraniano, escreveu que se Rodynske for "capturada isso completará o cerco de todo o nosso flanco esquerdo" em torno de Pokrovsk, acrescentando avaliações igualmente pessimistas sobre o flanco direito e o sul. "Se as coisas continuarem assim, restarão poucas opções... ou a nossa guarnição será forçada a recuar para evitar o cerco ou teremos combates ferozes num semicerco com perspectivas incertas".
O canal de Telegram militar russo "Voennaya Khronika", que se traduz como "Crónica Militar", afirma que o objetivo é que Pokrovsk caia como Avdiivka e Bakhmut antes dela, através de um "isolamento progressivo dos flancos, pressão sobre as linhas de abastecimento e estagnação frontal após exaustão estratégica".
O mapeamento do DeepState revela também avanços em direção a Kostyantynivka — outro ponto estratégico no leste — que a Rússia passou a abordar de forma mais agressiva nas últimas duas semanas a partir do sudeste e do sudoeste, com recurso constante a drones de ataque.
O blogger e militar ucraniano Stanislav Buniatov, conhecido pelo pseudónimo Osman, escreveu que estes avanços levam as forças de Moscovo a aproximarem-se da região de Dnipropetrovsk, um território que inicialmente não fazia parte dos objetivos declarados por Putin. Os combates diários resultam na destruição de "70-90% do pessoal e equipamento do inimigo, mas o inimigo continua a avançar e todos sabem porquê", escreveu Osman.
O DeepState denunciou na quarta-feira que relatórios enganosos de comandantes ucranianos para os seus superiores estão a dificultar a defesa. "Grande parte do sucesso do inimigo deve-se às mentiras nos relatórios sobre o estado real das coisas, o que dificulta a avaliação dos riscos e a resposta adequada às mudanças no terreno... isto é um problema gravíssimo com consequências catastróficas. As mentiras destruir-nos-ão a todos". A publicação destacava a zona a sul de Pokrovsk como particularmente vulnerável a esta falha interna.
Os avanços russos são mais discretos a norte de Kupiansk, mas representam outro desafio para as forças de Kiev, frequentemente sobrecarregadas. Desde 23 de junho, o avanço russo a partir de Holubivka colocou Moscovo no controlo de uma estrada de acesso crucial a norte de Kupiansk, nas proximidades de Radkivka.
Kupiansk é uma das principais cidades a leste de Kharkiv, a segunda maior cidade ucraniana e o seu controlo contribui para a defesa deste importante centro urbano, com cerca de um milhão de habitantes.
