Falsificou documentos para fugir da Rússia em direção ao Cazaquistão, mas foi detido e reenviado para a linha da frente como soldado de infantaria de assalto. Determinado a escapar, acabou por contactar o projeto “I Want to Live”, que o conduziu em segurança até posições ucranianas
Um militar russo da unidade de elite de drones Rubikon rendeu-se às forças ucranianas, afirmando que já não conseguia cumprir ordens num ambiente de pressão constante e de alegados abusos sistémicos.
Miroslav Simonov contou ao projeto ucraniano “I Want to Live” que foi forçado a ingressar no exército russo sob ameaça de enfrentar acusações criminais. “Fui levado para a esquadra local, onde os investigadores me deram uma escolha: ou ia cumprir o serviço militar obrigatório - com a insinuação de que mais tarde seria recrutado para a guerra - ou servia voluntariamente numa unidade onde o meu pai serve: a Companhia de Logística na região de Bryansk”, relatou, citado pelo Kyiv Post.
Após assinar os documentos, Simonov foi enviado para um campo de treino na região russa de Voronezh. Neste local, os recrutas recebiam várias semanas de formação como tropas de assalto antes de serem encaminhados para funções específicas. Miroslav Simonov foi destacado para uma unidade de veículos aéreos não tripulados (UAV) e colocado na região ocupada de Lugansk, integrando uma companhia especial de drones do 20.º Exército russo. Inicialmente desempenhou tarefas na retaguarda e frequentou um curso breve de operação de drones Mavic.
Mais tarde, parte dos militares foi transferida para um novo batalhão, mas os operadores de drones mais experientes permaneceram. Simonov e outro militar acabaram integrados na unidade de elite Rubikon.
Segundo as autoridades ucranianas, a Rubikon dispõe de drones e sistemas avançados, opera afastada da linha da frente e é financiada e supervisionada pelo GRU, um braço dos serviços secretos russos. Simonov descreve a unidade como um ambiente severo, marcado por pressão psicológica constante, abusos verbais e ameaças de transferência para unidades de assalto por infrações menores.
Após nova formação, foi destacado para a zona de Kupiansk, cidade na linha da frente, onde desempenhou funções como técnico de drones.
O momento decisivo ocorreu quando um drone russo atingiu coordenadas erradas e feriu gravemente uma mulher de 20 anos. O ataque tinha sido aprovado por comandantes e, segundo Simonov, no grupo de mensagens da unidade o impacto sobre civis foi desvalorizado.
“Vi apoio do comando àqueles que o fizeram. Isso deixou-me zangado e com medo”, afirmou. Numa conversa posterior, o operador envolvido terá minimizado as vítimas civis, dizendo que nas cidades da linha da frente já não havia civis, apenas “soldados ucranianos ou pessoas a trabalhar para eles”.
Depois deste episódio, Simonov falsificou documentos para fugir da Rússia em direção ao Cazaquistão, mas foi detido e reenviado para a linha da frente como soldado de infantaria de assalto. Determinado a escapar, acabou por contactar o projeto “I Want to Live”, que o conduziu em segurança até posições ucranianas.
O projeto é gerido pelo Quartel-General de Coordenação da Ucrânia para o Tratamento de Prisioneiros de Guerra e conta com o apoio da Direção Principal de Inteligência. O “I Want to Live” disponibiliza uma linha telefónica e um canal no Telegram para que militares russos e aliados se possam render em segurança, garantindo proteção ao abrigo do direito internacional, incluindo as Convenções de Genebra.
Agora, Simonov afirma querer lutar ao lado da Ucrânia. “Destruíram não só a minha vida, mas a vida de muitos outros. Quero defender a vossa casa”, declarou.