Biden e Modi tentam aproximar posições dos EUA e da Índia

11 abr, 05:22
Joe Biden (AP Photo/Patrick Semansky)

Líderes dos dois países falam hoje à distância, enquanto ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros se encontram em Washington. A Índia continua sem condenar a invasão russa da Ucrânia e a aumentar as importações da Rússia, o que está a deixar os EUA cada vez mais preocupados

Joe Biden tem uma conversa marcada para esta segunda-feira com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, para tentar reaproximar as posições entre os EUA e a Índia, cujas relações bilaterais estão a ser abaladas pela guerra russa na Ucrânia. Depois das conversações virtuais entre o presidente norte-americano e o chefe do governo indiano, haverá uma reunião em Washington entre os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa dos dois países.

Trata-se da mais significativa tentativa de reaproximação diplomática entre os dois países desde que Putin deu ordem para a invasão russa à Ucrânia. A Índia é, para além da China, a outra grande potência asiática que ainda não condenou a guerra lançada em fevereiro pelo Kremlin, e que se recusa a acompanhar as sanções económicas lançadas pelos EUA e pelos seus aliados contra Moscovo. Pelo contrário, o governo de Nova Deli tem-se abstido sempre nas votações em que a grande maioria dos países da ONU condenou Moscovo, e está a aproveitar a situação para aumentar as importações de matérias-primas do país de Vladimir Putin.

Uma atitude de gelou as relações da Índia com os Estados Unidos, ao fim de vários anos em que a cooperação bilateral tem crescido em todos os âmbitos, nomeadamente na área da Defesa e equipamento militar.

O encontro 2+2 reúne frente a frente os dois ministros indianos, Rajnath Singh (Defesa) e S. Jaishankar (Negócios Estrangeiros) com os seus homólogos norte-americanos, Lloyd Austin e Antony Blinken, respetivamente. A conversa à distância entre Biden e Modi acontece imediatamente antes da cimeira bilateral marcada para Washington.

A Casa Branca tem assinalado o seu desconforto com a forma como a Índia se recusa a condenar a invasão da Ucrânia, e tem intensificado as suas compras de petróleo russo, bem como de outras matérias-primas, como carvão, óleo de girassol e fertilizantes. Biden admitiu há duas semanas que a posição de Nova Deli tem sido “tremida”, distinguindo-se de forma radical da atitude dos EUA, Japão e Austrália, que integram, com a Índia, o Quad, a organização de defesa quadrilateral do Indo-Pacífico que reúne as maiores democracias desta região.

 

Décadas de amizade com a Rússia

 

Desde 2018 a Índia tem o formato 2+2 de cimeiras bilaterais com os EUA, o Japão e a Austrália, mas também com a Rússia. Nova Deli e Moscovo têm excelentes relações desde os tempos da Guerra Fria, e classificam os seus laços como uma "relação estratégica especial e privilegiada". Graças a essa boa relação bilateral, a Rússia é há décadas o principal fornecedor de armas da Índia. 

Os observadores dizem que fará pouco sentido que Deli altere esta relação privilegiada, e a Índia indicou isso mesmo ainda antes da ronda de conversações de hoje. Apesar do representante especial da Administração Biden ter avisado, numa visita a Nova Deli, que Washington não quer ver uma aceleração rápida das importações de petróleo indiano da Rússia, a Índia mantém que não aceita que as suas legítimas transações energéticas sejam politizadas.

No mesmo sentido, a sugestão da Administração Biden no sentido de se posicionar como parceiro da Índia em alternativa à Rússia foi recebida com desconfiança. Os EUA sugeriram que poderão passar a fornecer as Forças Armadas indianas, e disponibilizaram-se para ajudar a Índia a encontrar fontes de energia alternativa, diminuindo a dependência em relação ao petróleo russo. Mas a Índia tem deixado claro que não pretende diluir os seus laços com a Rússia para reforçar as relações com os EUA. Isso mesmo foi reafirmado pelo primeiro-ministro Modi quando recebeu, na semana passada, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov.

"O nosso objetivo é manter e estabilizar as nossas relações económicas estabelecidas com a Rússia", assumiu na quinta-feira o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia, acrescentando que o seu país tem sido muito franco em relação aos seus laços com a Rússia.

Na véspera, o principal conselheiro económico de Joe Biden tinha ameaçado que a Índia pagará um preço se se aproximar demasiado da Rússia. Um “alinhamento estratégico mais explícito” de Nova Deli com Moscovo terá consequências “significativas e a longo prazo”, disse Brian Deese.

Com o petróleo russo no centro das atenções, a Índia, que é um dos maiores importadores globais de energia, tem defendido a legitimidade de aumentar as importações da Rússia, que está a vender aos indianos com grande desconto em relação às cotações internacionais (descontos na ordem de mais de 30 dólares por barril). Nova Deli tem afirmado que países com autossuficiência energética não têm legitimidade para politizar as opções de Estados que dependem de importações para assegurar as suas necessidades de energia.

 

Lidar com a Índia com pau ou com cenoura?

 

Nova Deli tem assistido a um grande corrupio diplomático desde o início da guerra na Ucrânia. Os primeiros-ministros do Japão e da Austrália já estiveram na capital indiana, bem como a ministra dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido e o enviado especial da Casa Branca. No ano passado, a preocupação com os grandes negócios de armas da Índia com a Rússia já tinha levado o Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken em Nova Deli, bem como o responsável pela Defesa, Lloyd Austin.

Não é de hoje a tentação dos EUA penalizarem a Índia pelos seus negócios de muitos milhões com a Rússia - já havia sido assim no ano passado quando Modi e Putin assinaram em Nova Deli um acordo para fornecimento de material militar, incluindo um sistema de mísseis terra-ar com um custo de 5 mil milhões de dólares. Apesar dessas tentações, prevaleceu sempre a ideia de que sancionar a Índia acabaria por aproximar o país ainda mais da Rússia, alienando-o da cooperação com as democracias de modelo ocidental. 

A maior preocupação de segurança da Índia tem a ver com a China, país com o qual mantém relações muito tensas, que incluem confrontos fronteiriços na região dos Himalaias. Por essa razão, os EUA têm argumentado que uma grande dependência da Índia em relação à Rússia pode tornar-se um problema no futuro, se a guerra da Ucrânia fragilizar o regime de Putin e o colocar em posição inferior face a Pequim, que se está a tornar o grande apoio internacional de Moscovo. 

A Índia respondeu a esses avisos da Casa Branca anunciando um ambicioso plano para produzir internamente cada vez mais armamento de que as suas forças armadas precisam. A Índia tem o segundo maior Exército do mundo, a quarta maior Força Aérea e a sétima maior Marinha de guerra. O objetivo do governo Modi é substituir importações de equipamento militar da Rússia por armamento made in India, muito dele com recurso a know-how russo.

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