As reações ao discurso de Putin: “previsível", mas "preocupante", com ameaças para "levar a sério”

21 set, 07:40

Londres vê nas palavras de Putin uma "preocupante escalada" da guerra. Embaixadora americana na Ucrânia promete: "Os EUA nunca reconhecerão a reivindicação da Rússia em relação a territórios ucranianos supostamente anexados"

Assim que Vladimir Putin terminou a sua muito aguardada comunicação aos russos, emitida às 9 da manhã, hora de Moscovo (7:00 em Portugal), começaram a surgir reações aos anúncios do líder russo. 

"Um passo previsível que se revelará extremamente impopular", e um sinal de que a guerra está a correr mal aos russos - é assim que a Ucrânia vê o anúncio de mobilização parcial feito por Vladimir Putin. Mykhailo Podolyak, conselheiro do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, foi o primeiro a reagir ao discurso do líder do Kremlin. Em declarações à Reuters, através de mensagem de texto, Podolyak disse que o presidente russo está a tentar transferir para o Ocidente a culpa pelo início de uma "guerra não provocada" e pelo agravamento da situação económica da Rússia.

Por seu lado, Robert Habeck, vice-chanceler alemão, considera que a mobilização parcial de tropas ordenadas pela Rússia é uma nova escalada do conflito na Ucrânia. O governo de Berlim está a considerar a sua resposte, disse o nº 2 do executivo, considerando que este foi "mais um passo mau e errado da Rússia". "Naturalmente", acrescentou Habeck, "discutiremos e consultaremos sobre como lhe responder politicamente".

"Escalada" também foi a palavra escolhida por Gillian Keegan, deputada do Partido Conservador (no governo) que foi recentemente apontada como representante para os Negócios Estrangeiros do parlamento do Reino Unido. "A declaração de Putin é obviamente uma escalada, uma preocupante escalada" na guerra, declarou a deputada britânica, numa primeira reação ao discurso em que Putin para além de anunciar uma mobilização parcial ameaçou utilizar o seu arsenal nuclear. "Devemos levar as ameaças de Putin a sério, porque nós não estamos a controlar [as armas nucleares]. Também não tenho a certeza se ele está no controlo", acrescentou.

Já Ben Wallace, ministro da Defesa britânico, considerou que "Putin quebrou a sua promessa de não mobilizar" o que para o Reino Unido é um assumir "que a invasão está a falhar". "Nada pode esconder o facto de que a Ucrânia está a vencer esta guerra e a Russia está a tornar-se um pária internacional. A comunidade internacional está unida".

O ministro britânico diz ainda que a Rússia "mandou milhares dos seus cidadãos para a morte, mal equipados". O Reino Unido, recorde-se, é um dos países ocidentais que mais se tem empenhado no apoio à Ucrânia, fornecendo equipamento, munições e treino aos militares de Kiev.

"Sinais de fraqueza e de fracasso"

A embaixadora dos EUA na Ucrânia, Bridget Brink, não perdeu tempo a pontuar o discurso de Putin. "Os referendos fraudulentos e a mobilização são sinais de fraqueza, de fracasso russo. Os Estados Unidos nunca reconhecerão a reivindicação da Rússia em relação a territórios ucranianos supostamente anexados, e continuaremos a estar com a Ucrânia pelo tempo que for necessário", escreveu a diplomata na rede social Twitter, em inglês e em ucraniano. O tweet - a primeira reação de um representante norte-americano - foi publicado imediatamente após o final da emissão televisiva do discurso de Putin. 

Pekka Toveri, major-general do exército finlandês na reserva que até 2020 foi chefe dos serviços de informações militares da Finlândia, deu uma resposta curta e significativa sobre o impacto que esta mobilização poderá ter no conflito. Questionado sobre se a mobilização parcial decretada por Putin trará um número decisivo de militares russos para a linha da frente nos próximos 6 a 12 meses, respondeu com uma palavra de duas letras: "Ei". "Não".

Por outro lado, a garantia de Putin de que apenas os reservistas - sobretudo os que têm experiência militar - serão mobilizados parece não corresponder ao que está na letra do decreto presidencial.  A analista política russa Yekaterina Shulman leu o documento e garante que o decreto não especifica quaisquer parâmetros (nem territoriais nem sobre categorias de indivíduos). Citada pelo canal de televisão Nexta, Shulman diz que qualquer pessoa pode ser mobilizada, exceto os trabalhadores do complexo militar-industrial, que têm um prolongamento do seu período de trabalho.

Yekaterina Shulman é uma reputada académica russa na área da ciência política, com uma carreira universitária no seu país e colaborações regulares com meios de comunicação social ocidentais. Durante alguns anos integrou o Conselho Presidencial para a Sociedade Civil e os Direitos Humanos da Rússia. Após a invasão da Ucrânia assumiu a oposição à guerra e em abril deixou a Rússia e foi trabalhar como professora numa universidade alemã. Poucos dias depois, foi incluída pelo Kremlin na lista de "agentes estrangeiros", o que a impede de regressar ao seu país. O seu canal de Youtube tem mais de um milhão de subscritores.

Anders Åslund, economista sueco e autor de livros sobre a Rússia, escreveu também no Twitter que, "como estratega falhado que é, Putin está a acelerar o colapso do seu regime, apelando a uma mobilização parcial". O também investigador do Conselho do Atlântico considera que está a acontecer o que foi previsto, há muitos anos, pelo antigo primeiro-ministro russo Yegor Gaidar, entretanto falecido, no seu livro de 2006 "Colapso de um Império": "Putin pôs agora em perigo a coesão da própria Rússia, pela qual ele, naturalmente, culpa o Ocidente. Se Putin teme que a Rússia se desmorone, é provável que isso aconteça", conclui o professor universitário e analista político.

Por sua vez, o Ministério das Relações Exteriores da China pediu que todas as partes se empenhem no diálogo e na procura de uma maneira de abordar as preocupações de segurança de todas as partes depois daquilo que considerou como "chantagem nuclear" por parte de Vladimir Putin.
 
"A posição da China sobre a Ucrânia é consistente e clara", afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, em conferência de imprensa.

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