A guerra russa faz-se com tecnologia ocidental. Isso pode ser um problema para Putin

3 jun, 05:27
Tanques russos. Alexander Ermochenko/Reuters

Especialistas de uma organização independente dissecaram armamento russo e não têm dúvidas: as ferramentas com que a Rússia está a atacar e a destruir a Ucrânia têm ADN ocidental, de microchips a motores, passando por placas de circuitos e antenas

 

A Conflict Armed Research é uma organização independente que se dedica a fazer o rastreio dos circuitos de fornecimento de armamento nos vários conflitos armados do mundo. Os seus investigadores vão ao terreno, examinam o material de guerra, desmontam-no peça a peça, e identificam cada um dos seus componentes, até conseguirem uma espécie de DNA de cada equipamento utilizado. Em maio, dois investigadores da CAR estiveram na Ucrânia, recolheram armamento apreendido às forças russas, fragmentos de material destruído, até rockets disparados pelos russos que não explodiram. Abriram, desmontaram, examinaram, identificaram os mais pequenos componentes. A conclusão é inequívoca: as ferramentas com que a Rússia está a atacar e a destruir a Ucrânia têm, em boa medida, ADN ocidental.

Segundo relataram ao New York Times os investigadores da CAR, quase todo o armamento russo analisado durante a semana que passaram na Ucrânia inclui peças desenvolvidas ou fabricadas por empresas dos Estados Unidos e da União Europeia: microchips, placas de circuitos, motores e antenas, entre outras partes e componentes.

Os fabricantes de armamento que fornecem a guerra de Putin construíram "sistemas avançados de armas e comunicações russas em torno de chips ocidentais", constatou Damien Spleeters, um dos investigadores da Conflict Armament Research, citado pelo NYT. 

Segundo este analista, as empresas russas há décadas que têm acesso a um "fornecimento ininterrupto" de tecnologia ocidental, que usam para o desenvolvimento do seu armamento, que depois equipa as suas Forças Armadas, mas também é exportado para muitos outros países. Entre as munições e equipamentos russos desmontados e dissecados pelos investigadores da CAR incluíam-se sistemas de orientação de mísseis e localizadores de alcance a laser.  

 

E agora que o acesso à tecnologia foi cortado?

 

Segundo os mesmos investigadores, a tecnologia ocidental está na base das armas com que a Rússia está a destruir a Ucrânia, mas isso também representa um risco para Moscovo, pois a dependência em relação a esta tecnologia coloca a Rússia em desvantagem perante os Estados Unidos e aos seus aliados europeus, que decidiram entretanto cortar o acesso a estes componentes.

“Fechando a torneira” destes fornecimentos, o ocidente limita a capacidade russa de reparar equipamento e de produzir novas armas, à medida que se vai esgotando o stock existente. As consequências poderão já estar à vista: no mês passado, a secretária do Comércio dos Estados Unidos, Gina Raimondo, revelou que a Rússia está a utilizar em algum equipamento militar semicondutores retirados de eletrodomésticos como máquinas de lavar loiça e frigoríficos. Falando numa audiência no Senado, Raimondo disse que quando os ucranianos “encontram equipamento militar russo no terreno, este está cheio de semicondutores que retiraram das máquinas de lavar louça e frigoríficos". Conforme a CNN Portugal então noticiou, peças de maquinaria comercial e industrial estarão a ser usados para compensar a escassez de componentes de ponta a que a Rússia deixou de ter acesso. 

Já esta semana, questionada sobre se a falta de chips ocidentais estará a prejudicar a capacidade militar russa, Raimondo, que supervisiona os controlos de exportação, disse que a resposta é "um sim sem reservas". "As exportações dos EUA para a Rússia nas categorias em que temos controlo de exportação, incluindo semicondutores, caíram mais de 90 por cento desde 24 de Fevereiro", disse a governante, considerando que o efeito “é devastador".

Analistas consultados pelo NYT aconselham prudência, considerando que este tipo de medidas leva tempo a ter um grande impacto. Mas a administração Biden não tem dúvidas de que este é um embargo que está a ser um sucesso.

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