Face à previsão de que o número de satélites em órbita baixa da Terra vai aumentar 190% na próxima década, e face às ações russas no Pólo Norte, uma startup lituana acaba de assinar um contrato com a Agência Espacial Europeia e a Dinamarca para construir a primeira estação terrestre ótica do Ártico. O objetivo é tornar as comunicações europeias por satélite mais rápidas, mais resilientes e mais resistentes a interferências e ataques
(imagem de capa: Estação de comunicação por lasers em Tenerife, Espanha, OGS Izaña-1 da Agência Espacial Europeia. foto: ESA)
Alguém interferiu nos sinais GPS no espaço aéreo de Svalbard em julho passado. A notícia, que passou largamente despercebida no resto do continente europeu, foi dada pelo jornal Svalbardposten, ao qual uma fonte da Autoridade Norueguesa de Comunicações (Nkom) confirmou que “algumas companhias aéreas” tinham relatado interrupções nos sinais de navegação à Autoridade de Aviação Civil da Noruega a 8 de julho – uma situação que, garantiu a mesma fonte, estava a ser monitorizada de perto.
A origem da interferência nos sinais GPS não é conhecida. Mas como noticiou então o Barents Observer, jornal digital que cobre a atualidade da Gronelândia e da região do Mar de Barents, é sabido que a Rússia tem vindo a recorrer, pelo menos desde 2017, a técnicas de guerra eletrónica como a interferência e a falsificação de sinais com impacto direto em atividades não militares no norte da Noruega, na Finlândia e na região do Báltico – uma ingerência no setor civil, que, como adianta o jornal, “se intensificou após a guerra em larga escala contra a Ucrânia em 2022”.
As ameaças no norte da Europa não são apenas externas. No início deste ano, a Dinamarca foi surpreendida quando, ao chegar à Casa Branca, Donald Trump contemplou a hipótese de tomar a Gronelândia à força, uma possibilidade que parece ter passado para segundo plano na estratégia do presidente norte-americano, mas que continua a ser encarada como real por Copenhaga, que tem estado a apostar no reforço das suas defesas para se proteger da Rússia e da China, mas também dos EUA de Trump.
Na primavera, o governo dinamarquês implementou uma “patrulha da noite”, responsável por vigiar tudo o que acontece entre as 17:00 locais e as 07:00 da manhã seguinte na Gronelândia. Ao invés de afastar os selvagens e os Caminhantes Brancos como a Patrulha da Noite de Jon Snow na série de ficção Guerra dos Tronos, a patrulha real criada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca é responsável, entre outras, por monitorizar as declarações e movimentações norte-americanas enquanto Copenhaga dorme, produzindo um relatório diário distribuído entre o governo e os departamentos relevantes sobre o que foi dito e feito no período noturno que possa afetar a situação no terreno.
A notícia sobre a vigília noturna foi avançada pelo jornal dinamarquês Politiken há uma semana, pouco depois de a Agência Espacial Europeia (ESA) ter anunciado um projeto pioneiro para aprimorar as capacidades europeias de comunicação Terra-Espaço e “proporcionar velocidade e segurança sem precedentes” às comunicações via satélite na região do Ártico, alicerçada num acordo com a startup lituana de tecnologia espacial e de defesa Astrolight, que tem já uma sucursal na Dinamarca.
“No fundo, estamos a desenvolver uma tecnologia de comunicação segura baseada em lasers para comunicação espacial, terrestre e marítima, que basicamente corresponde a uma nova forma de comunicação no Espaço livre”, explica Laurynas Mačiulis, CEO da Astrolight, à CNN Portugal. “Em vez de ondas de rádio, utilizamos feixes de laser extremamente estreitos, invisíveis, muito difíceis de detetar e de intercetar, logo mais resistentes à guerra cibernética – e, claro, com altíssima velocidade.”
A "grande vantagem"
Na prática, o projeto passa pela construção, em Kangerlussuaq, na Gronelândia, de uma estação terrestre ótica que pretende tornar as comunicações europeias mais resilientes e resistentes a potenciais ataques numa região onde a Rússia tem interferido de forma rotineira nos sistemas de radiofrequência. Será a estação terrestre ótica mais setentrional alguma vez construída e a primeira do Ártico, projetada para garantir comunicações com uma taxa de transferência de dados mais de dez vezes superior e com um custo 70% menor por gigabyte, de acordo com cálculos da ESA.
“A visão central é construir uma conexão entre o Espaço e a Terra com ligações de alta velocidade por laser”, explica o diretor executivo da Astrolight, que traça um paralelismo para leigo entender. “Tal como tornámos a nossa internet super-rápida com a migração [dos cabos coaxiais] para a fibra óptica, o efeito é o mesmo, só que neste caso para comunicações com objetos em movimento, como satélites, drones e navios.”
Com a parceria com a ESA e a Dinamarca, e depois de ter assegurado 2,8 milhões de euros numa ronda de investimento há sete meses, a empresa sediada em Vilnius ganha um carimbo oficial para a plataforma terrestre ótica na disputada zona do Ártico, ponto crítico da geopolítica atual – sendo que a relevância da estação não se prende apenas com ciberameaças.
Recorrendo ao espectro de radiofrequência, as estações terrestres tradicionais não têm conseguido acompanhar o aumento da procura de transferência de dados por parte dos sensores de satélite modernos e as suas aplicações, um problema que só deverá piorar no futuro, considerando que o número de satélites em órbita baixa da Terra (LEO) deverá aumentar 190% ao longo da próxima década, de acordo com projeções do Fórum Económico Mundial.
“Prevê-se que esse crescimento sobrecarregue a infraestrutura de estações terrestres de radiofrequência, afetando a qualidade dos dados transmitidos, reduzindo o tempo de largura de banda disponível para cada satélite e limitando o desenvolvimento de negócios que dependem de dados espaciais”, aponta a ESA num comunicado divulgado no final de novembro.
“Isto está a tornar-se cada vez mais relevante por causa do crescente número de satélites e, essencialmente, de atividade no Espaço”, confirma o CEO da Astrolight. “O tráfego de dados está a crescer exponencialmente e não temos espectro ou largura de banda suficiente no domínio de rádio, para além de que isto também evitaria os atuais problemas de licenciamento, pois o espectro de rádio é tão disputado que se torna complicado até obter uma licença de frequência para operá-lo.”
Sendo esse o motor primordial do novo projeto no Ártico, não é o único, assume Mačiulis, também por causa da atual volatilidade na região. “Essa é a principal razão, mas claro que a outra grande vantagem é que este sistema também é mais seguro, o que é ainda mais relevante na atualidade, devido à situação geopolítica – é uma maneira de tornar os satélites mais resistentes a ataques eletrónicos, à ciberguerra.”
Porquê no Ártico?
Os satélites de órbita terrestre baixa, que se movem a uma altitude de entre 160 e 1.500 quilómetros acima da superfície da Terra, têm períodos orbitais curtos, de entre 90 e 120 minutos. Isto significa que cada satélite orbita a Terra a cada hora e meia, completando até 16 viagens ao redor da Terra por dia.
Isto torna-os particularmente adequados para uma série de atividades de monitorização da Terra, possibilitando a recolha e transmissão de dados e imagens de satélite em tempo real. Mas também os torna mais vulneráveis a potenciais interferências e ciberataques, “especialmente em Svalbard, onde temos uma forte presença da Federação Russa e da China”, explica Mačiulis, ressaltando a “elevada concentração destes satélites no Ártico, sobretudo de geointeligência, que cruzam os pólos com frequência” e comunicam entre si também na região mais a norte do planeta.
Com a maior parte do tráfego deste satélites a passar por ali, a conexão com a estação de satélite hoje existente no Ártico é feita por um único cabo de fibra ótica submarino, o que a torna pouco resiliente, insegura e insuficiente para as necessidades – e é a este problema que a Astrolight se propõe responder. “São precisas maneiras mais eficientes de transmitir informações de volta à Terra, e a maioria dos satélites está a usar uma estação localizada em Svalbard, que fica quase no polo Ártico, na Noruega, ou pelo menos na parte de Svalbard controlada pela Noruega, porque a Rússia, a China e outras nações também têm interesses na região.”
Imaginemos, então, que a Rússia destaca para o Mar de Barents um navio com meios de guerra eletrónica. Dado que não existe maneira de ocultar satélites, mesmo que não os consigamos ver a olho nu, é sempre possível saber com precisão onde estão nas suas órbitas, direcionar as antenas verticais e enviar sinais para interferir na frequência da operação do satélite e do seu recetor, tornando este último inoperável e impedindo a comunicação, exemplifica o responsável da Astrolight. Com a comunicação Espaço-Terra por via de lasers, contudo, operações desta natureza tornam-se praticamente impossíveis.
“Quando falamos especificamente da segurança no nosso planeta, e considerando o caso da Gronelândia, uma das razões pelas quais propusemos este projeto é a importância dos satélites que recolhem informações de inteligência sobre a Terra, sejam para fins civis ou militares, não importa”, adianta Mačiulis. “Trata-se da recolha de uma grande quantidade de dados, terabytes de dados, por via de diferentes instrumentos e tecnologias que estão a ser aprimorados, o que faz com que os volumes de dados sejam cada vez maiores. E com um centro de comunicações perto da Gronelândia, e a transmissão direta de informações destes satélites de geointeligência, reduz-se a latência e melhora-se a arquitetura de comunicações.”
Isto é válido também para outro tipo de atividades que dependem das comunicações de satélites, como operações de busca e salvamento na remota região, e para fins comerciais. “Além de impulsionar o crescimento económico e a segurança na Europa, as avançadas capacidades de telecomunicações introduzidas pela Estação Terrestre Ótica de Kangerlussuaq também darão suporte a aplicações científicas”, destaca a ESA em comunicado. “A estação terrestre elevará as capacidades de observação da Terra para dados de imagens óticas, hiperespectrais, de radar e infravermelhas, com taxa de transferência de dados irrestrita e de alta fidelidade”, melhorando as capacidades dos principais operadores neste domínio, que “incluem operadores de satélites comerciais, bem como agências espaciais e instituições governamentais que prestam serviços públicos essenciais”.
No mesmo comunicado, a agência destaca que o projeto visa "complementar as capacidades das estações de radiofrequência e dos cabos submarinos, que se revelaram vulneráveis à interferência de agentes externos", aumentando desta forma a "resiliência e a segurança dos sistemas de comunicações da Europa" numa altura de crescentes receios de sabotagem das infraestruturas existentes.
Sem divulgar o valor do projeto, invocando o facto de se tratar de Investigação & Desenvolvimento, Laurynas Mačiulis destaca à CNN Portugal que “as estações desenvolvidas pela Astrolight são cerca de duas vezes mais baratas do que as da concorrência”, porque projetam os próprios subsistemas e unidades, “que são mais eficientes em termos de produção, fabrico e integração”. Já em fase de construção, a estação de Kangerlussuaq deverá estar operacional até ao final de 2026.