Europa estranha mudança de Trump sobre a guerra na Ucrânia e receia um "jogo de culpas"

25 set 2025, 10:24
Tropas francesas em exercícios da NATO na Estónia (AP)

Afinal a Ucrânia pode retomar todo o território perdido para a Rússia. Mas a Casa Branca não diz de que forma. Do lado de cá há uma sensação que não é a mais positiva

Como quase sempre acontece depois de Donald Trump falar, o resto do mundo fica a perguntar o que é que o presidente dos Estados Unidos queria realmente dizer. Desta vez, a ressaca da dúvida está a abater-se sobre a Europa, que caiu na incerteza das palavras que sugeriram que a Ucrânia pode não apenas recuperar território à Rússia, mas até recuperar todas as suas fronteiras do pré-guerra.

A sugestão foi feita por Donald Trump numa publicação na sua Truth Social quando a noite já ia longa na Europa.

“Com tempo, paciência, o apoio financeiro da Europa e, em particular, da NATO, as fronteiras originais de onde a guerra começou são uma opção bem real”, escreveu o presidente norte-americano, numa publicação em que sugeriu uma forte degradação da economia russa.

De acordo com a Bloomberg, do lado cá do Atlântico teme-se que essas palavras não signifiquem uma pressão acrescida sobre a Rússia, mas sim sobre a Europa.

O Financial Times avança com informações no mesmo sentido, escrevendo que a Europa entende que o objetivo de Donald Trump pode passar por definir uma missão impossível para, mais tarde, culpar o lado de cá pelo insucesso, deixando os Estados Unidos impolutos em todo o processo.

"Este é o início de um jogo de culpas", diz ao jornal britânico uma fonte europeia, sublinhando que os Estados Unidos "sabiam que tarifas à China e à Índia seria impossível" de aceitar por parte da União Europeia. Essa sugestão feita por Donald Trump passava por atingir dois dos maiores parceiros económicos da Rússia, que também compram petróleo em grandes quantidades a Moscovo.

É que estas declarações marcam uma viragem de 180 graus em relação a outras feitas anteriormente - a Ucrânia chegou a “não ter cartas para jogar. Mas, embora a publicação fale na possibilidade de uma recuperação integral de território, a mesma é totalmente omissa em relação ao papel dos Estados Unidos.

Papel militar ou económico, já que Donald Trump mencionou apenas a Europa e a NATO. Quanto à economia, não fez qualquer menção às tão faladas sanções à indústria de combustíveis fósseis da Rússia, que o Ocidente - e o próprio Trump - acredita poder ser a chave para começar a acabar com a guerra.

Se os responsáveis europeus e ucranianos apoiaram de forma audível esta mudança de posição por parte de Donald Trump em público, a sensação com que ficaram não foi exatamente a mesma. A Bloomberg escreve que existe um sentimento de que a Casa Branca está a atirar a responsabilidade do fim da guerra para o Velho Continente.

Além disso, a sugestão de que a Ucrânia pode mesmo recuperar os cerca de 20% de território que perdeu desde fevereiro de 2022 não foi totalmente entendida pelos responsáveis europeus. A Bloomberg refere que é uma informação que vai contra as avaliações feitas pelos serviços de informação da Europa, que antecipam antes a continuação da guerra como está.

Este pode ser o resultado do desapontamento assumido de Donald Trump com Vladimir Putin, mas não é claro se isso se vai transformar em algo palpável, nomeadamente para atingir o “tigre de papel” - a expressão é do próprio Trump - onde mais dói, a economia.

“Estamos a ver a frustração do presidente e o desapontamento, francamente, com Putin”, apontou o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Mike Waltz, em declarações à Fox News.

“Com a urgência do presidente, estamos a ver a Europa a prontificar-se mais rápido”, acrescentou, justificando a mudança de visão de Donald Trump, que também surge numa altura em que a Rússia tem violado por várias vezes o espaço aéreo da NATO.

No fim do dia, é o que o presidente dos Estados Unidos diz desde o início: esta não é uma guerra norte-americana, mas sim europeia, pelo que terá de ser a Europa a dar o primeiro passo. É assim também em relação às já faladas sanções económicas, que a Casa Branca já sublinhou que só avançam quando os países europeus se mexerem no mesmo sentido.

A União Europeia prometeu acelerar o fim da dependência russa, mas países como a Hungria ou a Eslováquia não parecem totalmente interessados em abandonar os muito mais baratos petróleo e gás natural russos.

Com a aparente incapacidade de Bruxelas de exercer pressão sobre esses dois países em concreto, pode até passar por Donald Trump a mudança de ação. O próprio se referiu ao primeiro-ministro húngaro, Viktor Órban, como um “amigo”, referindo que tinha uma “sensação” de que Budapeste podia parar de importar combustível fóssil da Rússia se os dois tivessem uma conversa.

Ora, essa conversa aconteceu na noite desta terça-feira, mas para Viktor Órban reiterar a Donald Trump que a segurança energética da Hungria depende da Rússia.

Resta saber se a mudança de posição de Donald Trump é assim tão séria. E, nesse caso, o que vai o presidente dos Estados Unidos fazer a seguir.

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