Ao longo de vários meses, jornalistas alemães analisaram imagens de satélite, bases de dados científicas russas e documentos históricos, além de recolherem testemunhos de oficiais militares e especialistas
A Rússia estará a desenvolver um projeto militar secreto, com o nome de código “Skythen”, que prevê a colocação de mísseis nucleares no fundo do mar, segundo uma investigação divulgada nos últimos dias pelas emissoras alemãs WDR e NDR, citadas pelo jornal tagesschau.
De acordo com o artigo, o plano permitiria a Moscovo ocultar mísseis balísticos a várias centenas de metros de profundidade, com capacidade de ativação remota. As plataformas de lançamento, escondidas no leito marinho, seriam particularmente difíceis de localizar ou neutralizar pela NATO em caso de conflito.
Ao longo de vários meses, os jornalistas analisaram imagens de satélite, bases de dados científicas russas e documentos históricos, além de recolherem testemunhos de oficiais militares e de especialistas. Segundo os canais alemães, os serviços de informações têm acompanhado de perto um navio russo denominado “Zvezdochka”, apontado como peça central do projeto.
A embarcação, com 96 metros de comprimento e 18 metros de largura, está parada em Severodvinsk, cidade de construção naval situada no noroeste da Rússia, junto ao Mar Branco. Concebido para transportar equipamento pesado em mar aberto, incluindo em águas geladas do norte, o navio dispõe de gruas e rampas de carga. É ainda referida no artigo a possível utilização do submarino especial “Sarov”.
A NATO identificou o míssil em desenvolvimento como “Skif”, uma versão modificada do míssil “Sineva”, atualmente utilizado por submarinos russos. De acordo com as mesmas fontes, o “Skif” poderá ser lançado a partir do fundo do mar e terá alcance de vários milhares de quilómetros.
Helge Adrians, oficial naval e investigador convidado no Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, considera que esta solução permitirá à Rússia preservar a sua capacidade de dissuasão nuclear recorrendo a menos submarinos.
Segundo o especialista, a colocação de mísseis intercontinentais no fundo do mar oferece duas vantagens principais: a dificuldade de neutralização e a possibilidade de reduzir a necessidade de mobilização de submarinos e respetivas tripulações.
Mas esta ideia não é inédita. Em 1980, o Pentágono estudou um conceito semelhante sob o nome de código “Orca”, que previa uma grande estrutura ancorada no fundo do mar capaz de se destacar, subir à superfície e lançar o míssil em caso de guerra. O projeto acabou por ser abandonado devido às dificuldades técnicas associadas à transmissão de dados e à verificação operacional sem comprometer a localização do sistema.
O artigo recorda ainda que o Tratado do Fundo Marinho, assinado em 1971, proíbe a instalação de armas nucleares no fundo do mar em águas internacionais, mas não abrange as zonas costeiras sob jurisdição nacional. Segundo os meios alemães, o projeto “Skythen” prevê a instalação dos sistemas em águas russas.
