Portugal pode mobilizar 1.049 militares para operações da NATO se a Rússia invadir a Ucrânia

14 fev 2022, 19:01

Se a NATO der indicação, Portugal pode mobilizar 1.049 militares destacados no âmbito da Very High Readiness Joint Task Force. Mas o impacto para o país de uma escalada militar em território ucraniano não é só geopolítico, também passa por uma previsível subida na inflação e o risco de uma quebra no turismo em todo o território europeu. Consequências de uma guerra Ucrânia-Rússia em Portugal são várias: do preços das matérias-primas, aos mercados, inflação e turismo

O ministério da Defesa Nacional indicou esta segunda-feira que mais de mil militares portugueses destacados para as operações no âmbito de uma força conjunta multinacional da NATO - Very High Readiness Joint Task Force podem ser ativados para fazer frente a uma eventual uma invasão russa à Ucrânia. Numa resposta enviada à CNN Portugal, o Governo confirmou que a NATO pode invocar os meios atribuídos por Portugal a essa task-force “com uma prontidão de até 7 dias”, ou seja, com um aviso de uma semana para se apresentarem no palco de operações desta força, cuja localização não foi divulgada. As forças militares portuguesas podem ser enviadas para os países da NATO na fronteira com a Ucrânia, nomeadamente para a Polónia, Hungria e Roménia.

Estão disponíveis, ao abrigo da NATO Response Force, uma fragata com 195 militares, seis caças F-16 M acompanhados por 140 efetivos, uma aeronave P-3C Cup com 82 militares, um batalhão mecanizado (composto por 159 viaturas táticas e 609 militares), um destacamento de mergulhadores (12 militares) e uma unidade de Cooperação Civil-Militar, em que integram três viaturas táticas e outros 11 militares para a cooperação civil. No total, estão destacados 1.049 militares. De acordo com fonte do ministério à CNN Portugal, estas forças são “capazes de assegurar uma resposta militar rápida a uma crise emergente. “Os meios atribuídos por Portugal à Very High Readiness Joint Task Force, para 2022, podem ser empregues pela NATO, em caso de ativação, na sua totalidade ou parcialmente, em função da tipologia da missão a realizar”.

Segundo o Ministério da Defesa Nacional, este ano está ainda “previsto” o envio de uma companhia de atiradores mecanizada para a Roménia em operações da NATO. A operação pode ocorrer entre agora e dezembro em várias localizações. São 174 militares que serão destacados nesta missão, além de 17 viaturas táticas, de acordo com o documento “Forças Nacionais Destacadas”, disponível no site do Estado Maior General das Forças Armadas.

Na sequência destes compromissos, e se a Rússia invadir a Ucrânia, Portugal poderá ter, assim, mais de mil militares do lado da NATO a defender as fronteiras ucranianas. Esta garantia foi dada depois de o Presidente da República ter esclarecido que Portugal irá "cumprir as suas obrigações” e “assumir em plenitude a sua posição" na NATO.

“Portugal tem uma posição que é conhecida. Portugal, além de ser um membro muito interveniente da União Europeia, é um membro muito interveniente da NATO, como é das Nações Unidas e de outras organizações internacionais. Cumpre as suas obrigações e assume em plenitude a sua posição em qualquer destas instituições, nomeadamente na Aliança Atlântica", disse esta segunda-feira o chefe de Estado. Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que Portugal "não só defende sempre a unidade dentro da Aliança Atlântica, como o papel reforçado da NATO no quadro geopolítico global – não apenas europeu, mas global" e reiterou que "cumpre as suas obrigações" enquanto membro desta organização.

Os militares voluntários para a guerra

As forças integradas nestas missões internacionais surgem após núcleos de planeamento nos maiores estados da NATO perguntarem aos países qual é a sua possibilidade de enviar efetivos. "Não decorre de nenhum limiar obrigatório, é representativa daquilo que é a capacidade de cada país", explica à CNN Portugal o tenente-general Garcia Leandro, antigo vice-chefe do Estado-Maior do Exército.

Para Garcia Leandro, os efetivos portugueses podem ser convocados para “prestar formação de combate” e “garantir a paz entre zonas com grande tensão social”. Já para a investigadora em Relações Internacionais, Sónia Sénica, na iminência de uma guerra, resta perceber até que ponto Portugal pode intervir, mas, refere, é “dado garantido que a NATO não irá intervir diretamente”, partindo ao invés para “um apoio técnico e militar” à Ucrânia que pode passar também pelo “fornecimento de material e pela ajuda financeira”.

Garcia Leandro explica ainda que qualquer militar se pode voluntariar para este tipo de missões em solo internacional, até porque há um conjunto de fatores aliciantes que pendem na decisão. “Há uma remuneração acrescida quando estão lá fora e o espírito próprio de uma aventura também mexe com a decisão de se voluntariarem, especialmente os mais jovens. Depois disto, o Conselho Superior de Defesa Nacional faz uma seleção com base nos perfis mais indicados para a missão a desempenhar. “São escolhidos por especialidades, nomeadamente se se procura um certo tipo de engenheiro ou alguém especializado em enfermagem, mas também é tido em conta o aspeto comportamental, como a capacidade de lidar com o stress e de diálogo com outras culturas”, explica o antigo vice-chefe do Estado-Maior do Exército.

Em termos geopolíticos, a investigadora em Relações Internacionais Madalena Meyer Resende observa que se está a tornar cada vez mais evidente “um recentrar do ocidente numa frente comum” e a Roménia poderá ser “a zona estratégica” em que a Nato poderá mobilizar os efetivos de Portugal, “alinhado com o Reino Unido e com os Estados Unidos e reforçando o apoio à Ucrânia e à frente leste”. 

Também a investigadora em relações internacionais Sónia Sénica destaca que a principal preocupação de Portugal nesta crise entre a Ucrânia e a Rússia é “retoma da estabilidade na fronteira europeia e na zona pós-soviética”, em linha com os interesses transatlânticos. “Isto é percetível através da missiva que Moscovo enviou aos estados-membros da União Europeia” a questioná-los sobre a sua perceção individual em matéria de segurança interna e que a UE analisou uma resposta em conjunto.

Impacto de uma guerra na economia portuguesa 

Uma eventual escalada militar na tensão entre a Ucrânia e a Rússia não terá apenas repercussões a nível da defesa nacional, também a economia será atingida, como revelou à CNN Portugal a analista de mercado Catarina Castro, que explicou que a subida de tom em torno das principais potências mundiais causou acontecimentos relevantes nos mercados. 

Por um lado, destaca a analista, “existiu uma nova escalada de preços do petróleo que, no caso do Brent, está a ser negociado acima dos 95 dólares por barril”. Por outro, Moscovo é o principal fornecedor de gás natural à Europa e, esta segunda-feira, o seu preço disparou para os 88 euros por MWh, uma subida de 14% que termina com o valor mais elevado desde 31 de janeiro.

Para Catarina Castro “esta crise energética impacta Portugal pela dependência que tem do gás” e, segundo a analista, deverá existir uma escalada da taxa de inflação por causa disto. “Portugal está habituado a viver com uma taxa de inflação de 1 a 1,5% e é possível que possa vir a viver com uma inflação de 3,5 a 4%”, afirma.

A analista sublinha que uma inflação que pode atingir os 4% é extremamente danosa para as famílias que vão ver uma subida de preços nos bens de consumo primário, “do café ao iogurte”, sem que isso seja acompanhado por uma subida de salários. “Para uma família de classe média o impacto não é desprezível, talvez seja umas férias a menos”, exemplifica Catarina Castro. “Isto poderá levar a uma possível contração do consumo doméstico e a reação é a de não contratação acelerada por parte das empresas já afetadas com a crise pandémica”, considera a analista.

Já o índice de ações de referência em Portugal, o PSI20 - que agrega as 20 maiores empresas cotadas na Euronext Lisboa - abriu a semana com uma queda volumosa de 2,34%, acompanhando as restantes praças europeias. Um dado que não surpreende Catarina Castro, que vê no receio de um ataque eminente à Ucrânia a causa para a volatilidade nos mercados internacionais. E lembra que o PSI20 “terá o desempenho negativo que os restantes tiverem”.

Há ainda outra preocupação relacionada com a economia: o turismo. É que um conflito aberto em território ucraniano pode levar muitos operadores internacionais a desviarem as suas rotas da União Europeia “e, por consequência, de Portugal”. “Este palco de confrontos continua a estar próximo da zona euro e não dá para contextualizar quanto tempo demorará até ser atingida a paz. Se esta tensão for prolongada no tempo, é possível que operadores redirecionem os seus clientes para fora das geografias mais afetadas e levem-nos, por exemplo, para os países da Ásia”.

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