Os “voluntários” na guerra da Ucrânia

12 mar, 19:16

A Ucrânia é, por estes dias, um sítio perigoso e bastante mal frequentado. Não era suficiente, pelos vistos, uma guerra que vai ficando mais áspera, tanto na destruição e na morte como nas acusações que enxameiam o espaço público global. O conflito está, além disso, a ficar menos “clássico” e cavalheiresco, pelos meios utilizados, pelos meios que podem vir a ser utilizados e pelos intervenientes.

Falando destes, os “voluntários” que fluem para Ucrânia para lutar por este país ou, então, do lado da Rússia, poderão ser mais de 36.000. Não são voluntários para ajudarem na ação humanitária, na distribuição de alimentos, médicos ou enfermeiros. São “combatentes”, no sentido de que se deslocam para aquele território para, de armas na mão ou com as armas que lhes derem, lutarem por um ou outro dos lados no conflito. De muitas nacionalidades, alguns carregados de ideais, outros nem tanto, alguns carregados de coisíssima nenhuma recomendável.

Era previsível que os “voluntários” do lado ucraniano fossem apresentados de forma muito mais positiva do que aqueloutros “voluntários” que se preparam para combater ao lado da Rússia. Entre os primeiros, portugueses, norte-americanos, canadianos, e muitos outros. Os segundos, esses, vindos de terras tidas como menos confiáveis do Médio Oriente e, nomeadamente, da Síria; mas também “combatentes” chechenos. Se juntarmos a isso que aqueles vão ajudar o agredido e estes querem auxiliar o agressor, é quase inevitável a inclinação: aqueles são bons, estes são maus, são os maus. Até se aceita que possa ser tendencialmente como se diz.

Agora, uma pausa e dois parênteses. Ninguém pode beneficiar de um tratamento mais favorável ou de imunidade na apreciação dos factos, e é bom ter isso presente, como se estivéssemos a ouvir ressoar a voz do Grilo-Falante do Pinóquio de Carlo Collodi.

No entanto, Collodi é menos infantil do que a mundividência de Walt Disney, e uma guerra é sempre um período agreste e tempestuoso quando se trata de apurar a “verdade”, com tantas verdades e menos verdades em rota de colisão. No livro, aliás, de forma premonitória, Pinóquio enfurece-se com os conselhos avisados do amigo e atira-lhe um martelo em madeira que atinge o bicharoco na cabeça, “de tal modo que o Grilo só conseguiu soltar um fraco cri-cri-cri, e depois ficou ali imóvel e colado à parede”.

Ainda assim, e se ninguém aceitará ser Grilo em condições laborais tão difíceis, é de bom tom a diligência devida, para que muito não resulte numa “verdade” mais mentirosa do que aquilo que nos conta Agualusa sobre a hermafrodita Vissolela, a tal que afinal não era hermafrodita coisa nenhuma. Ou, dito de outra forma pelo mesmo Agualusa, “não há boas notícias falsas”.

Reli também por estes dias, e é claro que não foi por acaso, as aventuras a preto e branco de Tintin, “repórter do ‘Petit Vingtième’, no País dos Sovietes. É tão, mas tão ideologicamente militante e primário que até se torna cómico. Os “soviéticos” são, olha a grande surpresa, todos hirsutos e muito pouco dotados do ponto de vista intelectual. Veja-se este notável e erudito monólogo de um desses “patifes”, quando se prepara para matar à bomba, num comboio, o nosso Tintin e o seu cão Milu:

“Acho que aquele maldito burguesito está a dormir. Há que agir! Há que impedi-lo de chegar à Rússia, para evitar que conte o que lá se passa!”

Burguesito é bom, é muito bom, mas poderia dar muitos mais exemplos de involuntária comicidade. Mas, chega, sigamos e voltemos aos “voluntários” pró-Ucrânia e pró-Rússia.

Num caso e noutro, haverá um aspeto que é negativamente comum. Não são elementos originários das forças armadas de cada uma das partes, Rússia e Ucrânia; e se uma guerra já é muito complexa quando apenas envolve as forças regulares de dois Estados, com uma estrutura de comando hierárquica bem definida, é sempre pior quando, de permeio, passam a intervir de forma ativa elementos que, quando muito, são integrados e adaptados a essa estrutura.

Por outro lado, foi agora divulgada uma das primeiras fotografias dos “voluntários” de Kiev, elementos de uma que se designa como “Legião Internacional”.

(São conhecidas, principalmente, a Legião Estrangeira, de longa linhagem desde o início do segundo quartel do século IXI e com gente vinda dos quatro cantos do Mundo, e a Legião Espanhola, que agora é, no essencial, composta por cidadãos espanhóis, mas que nasce como “Tercio de Estranjeros”, só sendo nacionalizada em 1987.)

Esta nova Legião Internacional, pela amostra – e é uma boa notícia –, enverga um uniforme, está identificada como combatente, e suponho (vá, espero) que a sua margem de atuação não seja demasiado autónoma. Por isso, se todos os voluntários seguirem este padrão do lado ucraniano, não será por aí que o gato deixará de ir às filhoses, porque podem ser classificados como combatentes, sujeitando-se aos deveres, mas tendo os direitos, que resultam deste estatuto.

Já mais dúvidas suscitam os “voluntários” que, a crer na conversa muito espontânea entre Vladimir Putin e o seu Ministro da Defesa durante a reunião de ontem do Conselho de Segurança Nacional russo, poderão ascender a 16.000. Primeiro, não é muito crível esta pulsão desinteressada para combater pela Rússia neste conflito. Haverá um entusiasmo esfusiante que leve tanta gente a deixar a sua vida e deslocar-se para a Ucrânia, sujeitando-se ao pior? Depois, é gente com certeza discreta e de algum pudor, porque não se tem dado muito a ver.

Que há elementos do grupo Wagner no terreno e, em particular, no Donbass, é coisa sabida de todos, quase pública. Ora, esta organização militar e paramilitar privada é das mais poderosas, com presença na República Centro-Africana ou no Mali e passagem registada e comprovada em muitos outros territórios. Classificá-los como mercenários nem sempre será fácil, como resulta de um estudo norte-americano recente, de 2019. O que ainda é pior, porque a atribuição dos seus comportamentos à Rússia será o mais das vezes possível, mas nem sempre tarefa realizável.

Seja como for, há algo que começa a poder dar-se por adquirido. Com tanta gente, de tantos sítios, com tantos estatutos, de tantas culturas bélicas (algumas delas, como a da Síria e da Chechénia, no mínimo preocupantes), é mais provável a violação do direito internacional humanitário, e é mais preocupante o destino da população civil ucraniana. Falo, aqui, de uma probabilidade, ancorada em experiências do passado, não de um determinismo pessimista. Porém, numa guerra destas, vale a lei do “quando pode correr mal, corre pior”.

Por alguma razão, aliás, os mercenários não têm direito a ser considerados combatentes ou ao estatuto de prisioneiros de guerra (art. 47 Protocolo Adicional I de 1977 às Convenções de Genebra de 1949). Mas esta é uma faca de dois gumes. Se capturados, bem sabem como serão destratados, e este é um eufemismo. Desta forma, mais violenta e irrestrita tende a ser a sua ação.

Quando os conflitos se resumiam a este tipo de opções, menos mal. Simplesmente, os Estados privatizaram a guerra. Contratam hoje, e subcontratam, empresas militares e de segurança privadas, a quem atribuem – quando em posição de força – um estatuto muito favorável de proteção; e que deixam, essencialmente, à solta na prossecução das “tarefas” que constituem o seu caderno de encargos. E servem-se do direito para evitar, até ao limite, serem responsabilizados pelos seus comportamentos. É lembrarmo-nos de um exemplo conhecido demasiado bem e por demasiadas más razões: Iraque, Blackwater.

Depois, juntem-se a estes os chamados combatentes estrangeiros, movidos pela ideologia, por um qualquer ideal que até pode ser classificado como religioso, e eis-nos chegados a uma desregulação muito grave, até selvática, dos conflitos – que pode chegar à violência desumana de um “Estado Islâmico”.

Na Ucrânia, estão em jogo vários destes riscos, e a sensação de menos vigor militar da Rússia é um elemento positivo, mas também algo de assustador se esta decidir que, não tendo cães, lá terá que caçar com gato (mas que desgraçados podem ser estes gatos).

Estaremos já muito longe, em tantas coisas, daquele tempo em que até a morte, sendo como é, era escrita ou cantada de forma poética? Poderia a “menina dos olhos tristes”, feita imortal por Zeca Afonso ou Adriano Correia de Oliveira, ser inspiração que viesse da guerra da Ucrânia? Poderiam aquelas rimas cadenciadas e suaves sair do Donbass ou de Mariupol? Não é uma resposta fácil. Mas, pensando melhor, de certeza que sim. Porque é o mesmo tempo que vai diluindo o que de terrível teve a guerra colonial. E o poeta estava inspirado, porém, principalmente, estava a gritar a sua revolta: “Menina dos olhos tristes / o que tanto a faz chorar / o soldadinho não volta / do outro lado do mar”.

 

Menina dos olhos tristes”, poema de Reinaldo Ferreira, música José Afonso, aqui cantada por Adriano Correia de Oliveira: 

A história de Vissolela, mulher de tantas surpresas, encontram-na logo no início de “O mais belo fim do Mundo”, de José Eduardo Agualusa, da Quetzal, 2021.

Vale a pena reler “As aventuras de Pinóquio”, de Carlo Collodi, de que tenho a edição da Fábula, de 2017.

Finalmente, de Hergé, “As aventuras de Tintin, repórter do ‘Petit Vingtième”, no País dos Sovietes, Asa, 2010

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